sobre perfumes e quadros

dizem que perfumes e quadros são presentes que nunca devem ser dados por serem muito pessoais. o perfume arraiga na pele marcando memórias e encontros. como é mesmo o nome do seu perfume? usar outro cheiro para ser você mesmo é uma espécie de traição com o seu próprio olfato e com aquele canto do pescoço logo embaixo da orelha. já ganhei perfumes diferentes do meu. nosso relacionamento era aberto: usava o meu favorito quando queria me fazer presente. os que eu ganhava, usava em ocasiões banais. vivemos bem assim durante muito tempo e só não vivemos mais porque parei de ganhar perfumes. justamente pelo fato de sempre reclamar de quadros e perfumes em voz alta. mas, há uns dois anos atrás uma amiga me presenteou com uma pintura. nos conhecíamos há poucos meses, mas ela achou que foi tempo suficiente para compreender a essência das minhas paredes vazias. quando me entregou aquele óleo sobre tela só vi presunção em forma de cor. a pintura era linda, mas provocava de imediato um incômodo estardalhaço. quase que a contragosto pendurei o quadro na sala, afinal minha amiga iria jantar e seria de muito bom tom que a tela já estivesse devidamente alocada. assim que coloquei o quadro na parede, ele transbordou de forma devastadora. suas cores refletiram nas paredes e tomaram conta do espaço com força de mar. aquilo reverberou em mim de uma forma tão intensa que me deixei inundar catarticamente. foi quando a água ferveu, o molho derramou e a carne queimou. em pouquíssimo tempo o quadro subvertera meu cotidiano. precisava retirá-lo dali imediatamente, mas a campainha tocou. durante o jantar, só falamos sobre a pintura. ela realmente tinha tomado conta do ambiente e de todas as vidas que se avultavam perto dela. na sobremesa eu estava exausta. agradeci imensamente o quadro, mas pedi encarecidamente que nunca mais tocássemos nesse assunto. acordei com uma ressaca de tons berrantes. juntei o resto das minhas forças e tirei o quadro da sala. coloquei no escritório na esperança de que a racionalidade do ambiente pudesse me fazer tratá-lo de forma mais sensata. eu ficava de costas pra ele, de modo a olhá-lo pouquíssimas vezes ao longo do dia. mas eu sabia que ele estava lá, à espreita, sondando os meus passos. nos evitávamos o quanto dava. às vezes entrava de cabeça baixa no escritório só pra não vê-lo de frente. mas ele permanecia lá. por vezes distraída, falando ao telefone, dava de cara com ele. um frio na barriga me tomava e, dependendo do volume de goles de vinho, criava coragem para encarar a pintura. as cores eram tão descontroladamente profanas que eu sentia tesão e rejeição ao mesmo tempo. se o quadro fosse uma partitura, teria cinco oitavas de cores plasmáticas. era um leque de sentimentos que me percorria o corpo dedilhando uma perturbação lânguida. me acostumei com os arrepios involuntários que cada quina do quadro me causava. o que nos unia era o desejo de uma coisa sem nome, grafado em pinceladas largas e molhadas. ninguém mais entenderia a relação que tínhamos estabelecido e, por isso, resolvi levar o quadro para o meu quarto. na cabeceira da cama, ele velaria e inspiraria os meus mais candentes devaneios. as noites de insônia foram substituídas por sonhos embalados pelo meu peito arfante. havia luxúria de um jeito viciante. não me importava se sentiria ressaca. só queria tragos infindos daquilo dentro de mim. sua presença secava a minha boca e umedecia os meus dias. o entorpecimento vinha da vontade de ser dominada por um sentimento que emanava da tela e que eu jamais pude controlar. fechava os olhos e um turbilhão de delícias se apossava do meu corpo sem que eu fizesse qualquer esforço. um dia o telefone vibrou sobre o móvel ao lado da minha cama. na interrupção do fluxo do meu imaginário colorido, descobri que havia ficado dias na cama, sem comer, sem beber, sem tomar banho, sem me comunicar com ninguém. estava completamente embevecida por aquela maré de desejo. levantei com certa dificuldade e quando me olhei no espelho tomei um susto. não era só a cara de sono e ausência de vitamina d que estava saltando dos meus poros. parcamente havia um borrão que forçava os olhos miopemente para tentar me ver. no reflexo do espelho o quadro se refletia sobre o meu ombro. impassível, altivo e imperando sobre o meu quarto, sobre a minha vida. maldita pintura. as olheiras escuras revelaram o quanto suas cores eram blasé. arranquei o quadro da parede e o joguei num canto, enrolado num lençol, distante de tudo e especialmente de mim. o tempo me faria esquecer todo o vagalhão que me despertava. passava pelo quadro, olhava o lençol deixando entrever apenas partes da moldura e me sentia num conto de machado de assis a olhar os braços nus de uma vizinha. me segurei o quanto pude até que, bêbada de vodka e suco de tomate, não aguentei e arranquei aquele lençol com a volúpia dos que tem pressa para amar. me sentei em frente a ele e fiquei um tempo transformando o riso em choro e o choro em riso. eu fui a pintura do dorian gray: ela permaneceu por anos impassível, enquanto eu me borrava de rancor, rímel e expectativa. mas ela tinha a particularidade de me colocar sempre em borbulha. confesso que já tentei segurar as bolhas de água que subiam, mas o vapor sempre foi mais forte que eu. reclamar de perfumes e quadros que se ganha pode ser bom. não ganhei mais perfumes e permaneci com meu cheiro habitual. também não ganhei mais quadros. mas o que tenho guardado permanece lá, enrolado num lençol, como se me esperasse para uma visita proibida em um quarto de hotel. na política de redução de danos, a síndrome de stendhal se transformou em algo que me arrefece quando sinto suas cores nas pontas dos meus dedos.

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mas pra que tanto mar?

A moça de pescoço comprido entrou esbaforida na imensa sala de memórias que mais parecia ter sido construída por outras pessoas. Pintadas, esculpidas, arquitetadas como peças singulares que existiam em tons de sépia sempre que ela fechava os olhos bem forte. Ela olhava pelas memórias penduradas no chão em cavaletes de vidro. Parecia que sua vida era um sonho carolliano encenado de ponta cabeça. Continuava andando pelo teto de paredes de vidro. Uma regressão quase involuntária para se lembrar daquela noite quente de inverno. Devia estar por ali, no canto direito, atrás das tragicidades coletivas e compartilhadas em silêncio pelos viventes doentes. Ou estaria na lateral esquerda, ao lado daquelas memórias fotográficas que congelam sua mente com a falsidade dos sorrisos armazenados? A moça de pescoço comprido começou a ficar impaciente. Parecia estar em uma estação de metrô em hora de pico. Tropeçava em pessoas, em cavaletes de vidro e não conseguia achar o que procurava. Mas ela sentia. Quis fechar os olhos e andar instintivamente pelas quinas de vidro. Quis tropeçar em uma e derrubar todas as outras para abrir uma clareira na desordem caótica dos seus sentimentos. E viu, entre vãos, mas viu. Era lá.  Ela exasperou. Quando finalmente se livrou de toda a tralha em sua frente, viu o cavalete daquela memória. Mas estava vazio. Deu a volta, espiou, tocou de leve a quina e percebeu uma pequena ranhura que vazava água. A mulher do pescoço comprido esgueirou-se um pouco mais e provou. Tinha sal. Devia ter vazado daqueles olhos vazios como um mar visto de cima. Quando passou a mão novamente pela rachadura, ela aumentou e começou a estilhaçar o resto do vidro como um raio intempestivo a rasgar milhões de sonhos. O mar vazava primeiro por um conta gotas de desespero. À noite, na cama, era esse som de mar pingando que ouvia no escuro. Uma tortura chinesa que insistia em importunar sua insônia. Ela se sentou no chão, feliz por ter aberto o furo. O barulho iria embora. Nunca pensou que para consertar um buraco, mais do que fechá-lo, o ideal seria arreganhá-lo para que ele se tornasse outra coisa que não fosse um buraco reformado. Cruzou as pernas e esperou aquele mar vazar com o ímpeto que ele tinha dentro dela. A força das ondas dentro das paredes de vidro fez estourar uma imensidão de verdades inditas. A espuma de lágrimas transbordou pelos jardins suspensos da babilônia fria. Ela quis ficar de olhos abertos e ver o espetáculo incólume. Mas a moça de pescoço comprido pensou que arder o olho é coisa que (o)(a)mar faz.

a conquista

a conquista, para determinados seres e para quase todos os colonizadores, é uma forma de domínio que objetifica para poder subjugar. colonização e machismo seriam duas faces da mesma moeda?

john donne parece ter percebido isso no século XVI. aí uns séculos depois o augusto de campos traduziu o poema do inglês, o péricles cavalcanti musicou, o caetano gravou um trecho naquele disco marromeno lindo que é cinema transcendental e eu, de semi-férias, brisei.

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“deixa que minha mão errante adentre
atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.

minha américa, minha terra à vista
reino de paz se um homem só a conquista

minha mina preciosa, meu império
feliz de quem penetre o teu mistério.

liberto-me ficando teu escravo
onde cai minha mão, meu selo gravo

nudez total: todo prazer provém do corpo
(como a alma sem corpo) sem vestes

como encadernação vistosa
feita para iletrados, a mulher se enfeita

mas ela é um livro místico e somente
a alguns a que tal graça se consente
é dado lê-la”

 

vicious

Vicious, you hit me with a flower
You do it every hour
Oh, baby you’re so vicious
Vicious, you want me to hit you with a stick
But all I’ve got is a guitar pick
Oh baby, you’re so vicious

When I watch you come, baby, I just want to run far away
You’re not the kind of person around I want to stay
When I see you walking down the street
I step on your hands and I mangle your feet
You’re not the kind of person that I want to meet
Baby, oh you’re so vicious, you’re so vicious

Vicious, you hit me with a flower
You do it every hour
Oh, baby you’re so vicious
Vicious, hey why don’t you swallow razor blades
You must think that I’m some kind of gay blade
But baby, you’re so vicious

When I see you coming I just have to run
You’re not good and you certainly aren’t very much fun
When I see you walking down the street
I step on your hand and I mangle your feet
You’re not the kind of person that I’d even want to meet
‘Cause you’re so vicious, baby, you’re so vicious
Vicious, vicious

(Lou Reed)

halloween

o dia era 31 de outubro. a cidade era san francisco. halloween na terra do tio san: esse pequeno carnaval mórbido que aquece os corações outonais nas gringa. eu tinha ido lá a trabalho – apesar de já ter andado de bondinho e cruzado a haight-ashbury. fato é que eu não estava no clima macabro-lúdico da noite. saí do hostel e, tropeçando em múmias e mortícias, cheguei até uma pizzaria comum, dessas que você fica no balcão de frente pra rua. sentei ao lado de uma família que ria e esbanjava purpurina e peruca colorida. quando dei a primeira mordida naquela pizza grande e barata, notei que tinham três pessoas na calçada. de relance percebi alguma coisa diferente na vestimenta delas. a palavra fantasia foi imediatamente substituída pela palavra trapo. eram mendigos. se disfarçavam entre frankensteins fictícios enquanto pediam dinheiro aos cegos transeuntes diante dos olhos dos pobres. queria cutucar a família purpurina ao meu lado e perguntar se eles não se importavam com aquela família de olhos. mas só vi pratos maiores que a fome e copos maiores que a sede. foi o dia em que eu, baudelerianamente, comi aquela pizza grande e indigesta vendo um desfile estático de pessoas vestidas de vida real.