De onde sai uma consulta

Fabíola, ao contrário da maioria das pessoas, não sentia náuseas no mar. E sim num copo de bebida. Ou melhor, o que havia era vômito e não náusea. Mas não só na bebida, e sim misturado com a  maioria das coisas corriqueiras. Menos poético e mais real. Essas combinações com a bebida lhe provocavam lufadas, e os restos saíam de sua boca, onde quer que fosse. Melhor no jardim, melhor onde tivesse cachorro.

Ela sentia como se uma lavagem interna, das entranhas, carregando consigo todo o remorso, todas as palavras mal-ditas. Tudo o que poderia ser dito numa frase simples sujeito-predicado, possivelmente racionalmente estruturado, virava esse jorro emocional fabíoliano. É como vomitar sem sentir-se bêbado, ele disse.

Além da certeza de acabar com uma noite gloriosa, ela acabava também com as oportunidades de descobrir de onde vinha tudo aquilo. Acabava sendo culpa do estômago vazio; ou da equação beber + que comer.

Fabíola foi ao médico. Não era possível ocorrer com tanta freqüência. Quero um raio-x.

Mas o doutor, nem examina, chamou-a só de lado e disse logo em surdina: minha querida, vamos tratar essa sua hiperêmese. Retirou da cartola o resultado: seu diagnóstico é simples e vem de um simples ato: tolher-se.

O resguardo de palavras/sentimentos/vontades/desejos/anseios/pensamentos/opiniões/mazelas/idéias e qualquer que seja o que se queira dizer/fazer e não se faz/diz, gera um micro big bang em seu aparelho digestivo. É como uma bexiga que esvazia, esvazia, voa, bate nas paredes, até que… ocorre a explosão. É aí que você joga as palavras e a comida todas de uma vez. Você nunca ouviu sua avó dizer que não interessa se você come primeiro a salada ou a sobremesa, já que tudo se mistura na barriga?

Fabíola estava boquiaberta. Se já almoçou, querida, é melhor dizer logo o que está se passando nessa cabecinha.