Arabica

Tem épocas que tomo tanto café durante o dia, que já nem sinto mais os seus efeitos. Chego a pensar que meu organismo se acostumou a doses cavalares de cafeína no corpo e por isso ainda tenho sono quando deveria me sentir acordada.

Um pouquinho no café da manhã, um pouquinho no meio da manhã, um pouquinho depois do almoço, um pouquinho no meio da tarde (ou no café da tarde) e só. Se um dia me acostumar com essa dosagem, vou começar a tomar antes de dormir. Mas as regras de convivência me fizeram acreditar que nunca posso tomar meu bom e velho cafezinho depois das 6 da tarde.

E é aí que entra a minha fase de testes. Toda vez que começo a desacreditar nos efeitos milagrosos do café, tomo minha xícara quando o sol já está baixando. É quando volta a minha crença no poder do café, é quando percebo realmente os seus benefícios. Que, no caso, acabam se tornando malefícios. Fico extremamente eufórica e animada, num momento do dia em que as pessoas sem aditivos já estão cansadas e se preparando para o sono. Daí meus problemas de convivência…

À noite, é bom para estudar, dirigir e coisas que foquem a energia num ponto específico. Se a energia fica dispersa, eu canto, danço, falo (mais) alto . Porém, logo em seguida, meu olho começa a arder, minhas costas começam a pesar. Afinal, o meu dia também já está no fim e meu corpo já está pedindo arrego. Mas minha mente cafeínômana não pára. 2, 3 da manhã e nada. Depois de pentelhar tudo quanto podia, só me resta deitar e esperar o sono chegar.

Dificílimo quando recuso um café. Pode ser expresso, com e sem espuma, coado no papel Melita, coado na meia, o que for. Já foi com açúcar, hoje é puro e jamais com adoçante. “Tomar um café” pode até ser uma coisa simbólica, de um encontro. Mas para além disso, eu prefiro que também seja literal.

Um salve às cabras curiosas!

Meu companheiro de todos os dias; e das noites, só quando for estritamente necessário.

Laranjeira

Sempre gostei de subir em árvores. Era um gosto todo especial que misturava a estratégia de colocar o pé aqui, pegar no galho ali, dar um impulso e, de repente, ver tudo do alto, sentir o vento mais forte no cabelo. Por alguns minutos, aquele pequeno espaço de galhos,  folhas – e por vezes frutas – se transformva no meu mundo, meu microcosmo de infinitas possibilidades. Era minha casa, meu cavalo, meu reino, minha nave. Com o tempo, batendo o olho dava pra saber o que aquele amontoado de galhos poderia oferecer. Às vezes dava pra subir e se acomodar bem; às vezes os galhos eram finos demais e pouco espaçosos. Minha preferida era a árvore da  ciriguela. Mas, a tão famosa goiabeira também cumpria bem o seu papel. O problema é que a goiabeira ficava no terreno do vizinho inimigo e a cirigueleira ficava no pomar, ao alcance de todos.

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É quase impossível subir numa laranjeira, assim como também o é num mamoeiro. Porém, ambos têm as suas vantagens. Obviamente, a sombra da laranjeira é deliciosa, assim como o aroma cítrico que exala dos seus frutos. Adoro suco de laranja. Adoro pegar laranja do pé. Adoro descobrir jeitos novos de descascar laranja. Parece que os frutos sempre estarão lá, não importa o que aconteça. Por mais que fungos, amarelinhos e qualquer sorte de doença possa afetar a laranjeira, é sempre bom encontrar uma delas, sentar debaixo da copa, olhar para cima e ver todos aquele frutos, querendo um por um. Laranja é incondicional.

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O mamoeiro é diferente. Não dá pra subir. Não tem copa. E além de tudo, é esquisito. Os frutos dão no tronco (as jabuticabas também, e olha que tenho um carinho todo especial pelas jabuticabas;  diferentemente dos mamões, elas são delicadamente transformadas de pequenas florzinhas amarelas em frutinhos pretinhos e deliciosos). Gosto de mamão, não porque acho gostoso e tenho rompantes de uma vontade louca de comer. Como porque me faz bem. Faz o intestino funcionar. E só. Às vezes ele é bem caro e apodrece muito antes de você imaginar.

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Mas adoro doce de mamão. E não gosto de doce de laranja.

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Esses dias estava andando em meio aos mamoeiros, e vi uma árvore nova. Ela ainda é bem pequena, bate na minha cintura. Mas reconheci na hora aquelas pequenas folhinhas. Era um pé de ciriguela.

Rehab

Carlos amava Juliana e bebia para esquecer; Dona Marta tomava anti-depressivos para assistir televisão; Lívia não conseguia arrumar namorado e se entupia de chocolate; Gláucia mantinha um relacionamento sem amor; Marcos fumava para aliviar a tensão, oxigenando o cérebro e carburando o pulmão; Maria não conseguia amar e fazia sexo sem parar; João bebia para acabar com as travas sociais; Marcos injetava por um pulo de foguete fora da realidade; Débora dizia sempre eu vi ela; Dimas cheirava para conseguir conversar com os amigos; Renata não rompia com a família e vivia uma vida de faz-de-conta; Lia comia as unhas para pensar; Luciana trabalhava até 9 da noite pra fugir do trânsito; Raíssa passava o dia com o fone no ouvido; Sara lia literatura barata de banca de revista; Ana fumava maconha e ia pra aula; Vera tomava café para se mover; Bianca tomava um doce para ver o poste mudar de cor; Fabíola mantinha amigos que não gostava; José só dirigia de óculos escuros; Nakamura perdeu a casa no pôker; Paula não dormia há 3 anos; Roberto comprou mais um carro e teve que construir outra garagem; Marina escrevia poemas de amor enquanto o marido saía do motel; Carla comprou outra bolsa e estourou o limite do cartão de crédito; Bárbara só se relacionava pela internet; Fred ninava o fillho com Lucy in the sky with diamonds…

Ah, se eu vou

Quando o peito dói, penso nisso e descanso. Penso desde as primeiras rodas, coisa infantil, fraterna, uma roda de amigos. Quase sem querer ou sem perceber, ia indo em cada vez mais rodas (Me espantava a sinceridade no samba de roda, o respeito na roda de capoeira).

A familiaridade com os passos, o manejo do corpo e do olhar ficou tão intenso que num arrebate imenso, a roda virou a minha vida. Os meus vestidos verdes eram de roda; tomava mojitos na alta-roda do vosso reino; na minha roda-gigante tinha uma sacada azul; o uno vinho rodava debaixo da tempestade e do calor abafado; roda, roda, roda e avisa: Terezinha, onde você quer morar?

A minha roda foi, de fato, uma roda viva. Varreu todo o meu ser. Me arrancou os pés do chão e foi como um furacão que saía do ventre, passava girando pelas entranhas, ventilava o coração e saía pela boca num espasmo. Depois das cãibras de tanto rodar, vinha o abraço forte e confortante.   Era como se dissesse: a cada próxima roda vai ser sempre melhor.

Dançar na roda de-noite-de-tarde-de-dia. Na alegria, celebra a vida; na dor, disfarça e chora; na desilusão, afaga os cabelos; na raiva, silencia; na distância, pede a volta;  no futuro, uma cantiga de roda.

Rodopiemos juntas, como sempre foi. Como sempre emanou bons ventos por debaixo das saias. Como sempre deu vontade de dançar mais. Como numa maratona de dança de roda, a música muda o ritmo a toda hora. Dançamos, inventamos aqui e acolá: um rodopio, uma dobradiça, um oito, um infinito. Às vezes perco o ritmo: o salto é alto, a música rápida, os passos complexos.

Mas continua sempre sendo uma roda. Afinal, todas as rodas foram feitas pra gente dançar.

Um violão de 4 cordas

O fascínio por fugir do mundo, por escapar das garras do imediatismo, renderam, ao longo do tempo, dois verbos: escrever e ouvir. Ambos como passaportes para ir ao longe: entrar num balão e voar, voar e voar.

Mas houve o momento da descoberta de que era possível jogar, lá de cima, os saquinhos de areia em um e outro verbo. Depois de planar lenta e profundamente, o saquinho de areia, puf!, fazia aterrissar nas terras do escrever. E uma outra viagem começaria: um brinde à folha em branco. Uma espécie de viagem ao contrário, em que não me era mais ditado o trajeto, mas cujos atalhos ou caminhos belos, eram escolhidos.

O balão sempre pousou na terra do escrever, com períodos de estiagem, mas sempre trazia na volta uma estação do ano estampada na sua gota invertida. Voar de balão pelas notas era quase tão escapista quanto. E por isso, a vontade de jogar os sacos de areia na ilha da música foram fortes como uma sonata de Bethoveen. Porém, depois de ventos intensos, essa terra andou, por tempos, nebulosa. Nenhum saquinho que era jogado dava pra ver onde tinha caído. Era, de fato, mais difícil, mais penoso. E o brinde à partitura?

O balão ainda plana aqui e acolá, com variantes em terras vizinhas de um e outro. Às vezes os saquinhos acham seu endereço certo; às vezes miram no desconhecido, e dão de cara com a apresentadora de um show anoréxico ou com um barquinho de Monet emoldurado na sala. No geral faz-se calos nos dedos só pra não juntar muita poeira.

Do eco

Por alguns momentos as paredes se estreitam, os espaços vazios se resignam a pequenos cantos e o intestino funciona. Em três atos, há a mudança e a retomada do eco: espaço vago, coração cheio e saudade. E depois de tudo, somente as marcas no chão sujo e na roupa de cama amarrotada.

O silêncio reverbera e cria uma contraditória relação com a mente turbulenta, cheia de imagens. Cenas de um filme mudo. Como se fosse possível colocar legendas nas lembranças, desorganizadas e etilicamente disformes. Mas a tecnologia das fotografias ajuda no caos. Talvez não sejam os momentos que mais gostaria de lembrar, mas serão eles o fio da meada quando o novelo da memória rolar depois da patada brincalhona do gatinho do tempo. Ele vai rolar e rolar. Vai passar por todos os cantos, por todos os espaços, como se fosse um Katamari que grudasse aqueles nacos de passado. Contraditoriamente, quanto mais o Katamari passa, menor fica o novelo. É no caminho de volta, sentada, empunhando um sorriso nostálgico nos lábios que se tenta consertar a brincadeira fatídica do gato. Nunca se pode confiar num gato? Apesar de manhoso e por vezes carinhoso, ele foge, pula o muro e leva consigo algo que talvez nunca exista novamente. A sorte é que ele deixa o novelo.

O estreitamento do eco é a vitamina B12 que aconchega o espírito e a memória. Acalma os ânimos. Recobra a crença de que se relacionar com o outro ainda pode ser uma coisa boa. Enquanto isso, não há como deixar que o gato arisco brinque com novelo como se fosse uma madeleine. Joga pra cá e pra lá antes de devorá-la com calma e parcimônia.

Agora, só é possível pensar em uma coisa: não esquecer. Mas não é um não-esquecer como andar de bicicleta em que, não importa o modelo, a cor, o número de rodas e guidões que a pedalada e o movimento são os mesmos. É um não-esquecer que leva em conta todas as nossas mudanças que ocorrem quando o eco impera. Mas esse não-esquecer em movimento será bom de verdade se for repetido, na mesma medida em que foram repetidas as tentativas de se andar de bicicleta, e que nunca mais foi esquecido.

De onde saem as mentiras

Um todo mantém dentro de si ligações que possibilitam que partes e fragmentos possam fazer parte disso chamado todo. É um universo próprio que abarca em si uma complexidade e um nível de compreensão só possível se entendido dentro desse todo. Quando a fragmentação acontece, é como se uma parte aleatória desse todo fosse retirada e, conseqüentemente, todas as conexões estabelecidas previamente.

O que antes existia numa relação enquanto movimento, no momento da retirada, se torna estático. Uma fotografia que pode ser compreendida só enquanto tal. É daí que nasce uma história contada. Ela ganha vida própria, uma vez que acabou de ser deslocada do seu contexto de vivência e maturação. Nesse deslocamento, em que as palavras servem como veículo dessa transição, a história contada leva consigo, sim, algumas relações de antes. Mas não todas. Não de forma a ser possível compreender o porquê da existência daquela história e o porquê da necessidade dela ser exteriorizada. Isso se perde no caminho. Mas ganha receptores, o que gera novas relações, mesmo que ainda frágeis.

Pressupõe-se, agora, que a máxima: quem conta um conto aumenta um ponto, seja parcialmente verdade. No geral das histórias contadas, o que se aumenta são vírgulas ou parênteses. Se se aumenta um ponto, daí pode nascer uma mentira. (A saber: mentira aqui não é omissão de verdade, mas adição ao conteúdo original por conta e risco do interlocutor). O que vem depois do ponto, é quase que uma nova coisa que se forma. E por mais paradoxal que pareça, o ponto que pode gerar a mentira, faz com que o fragmento se torne móvel novamente. Ele passa a ter novas relações imbricadas dentro de si com a necessidade constante de que aquela mentira seja verossímil para quem a ouve. Ninguém conta uma mentira para ser pego.

Todo e fragmento se recompõem novamente, junto com pontos e vírgulas das historias contadas. Se a mentira for bem aceita no momento da contação, ela pode ganhar novos pontos. Se não, ela pode ganhar vírgulas e parênteses e se esvair na simples tentativa de criar um todo próprio.