Habitat: Marajó

Marajó

Foto by: M.C. Schlittler

Anúncios

Peri, Ceci, Dom

E eu os vi de novo. Finalmente. Seus olhos me fitando, questionando.

Uma comunicação incrivelmente dupla: com a boca fala-se o que tem que falar, despacha-se as palavras, meio mecânica meio pensante. Enquanto isso, os olhos caminham pelos caminhos dos outros olhos, buscando uma compreensão que às vezes encontra um olhar curioso, sedento de saber mais, esperando o fim da frase; às vezes, o olhar encontra um bocejo; às vezes ainda um cenho de dúvida, uma testa enrugada em forma de ponto de interrogação. E por aí  correm os olhos, pelas lombadas das sobrancelhas, descendo ainda pelo rosto esperando um sorriso sutil diante de uma piada sem graça.

E as cores na parede se misturam ao pó que se levanta das histórias que são requisitadas. E a fantasia se mistura à história e tece uma relação simbiótica entre nós.

Parece como soltar uma pipa. É preciso, primeiro, fazer a pipa. Comprar o papel, os palitos certos (não são válidas as vendidas já prontas). Depois, é preciso achar um lugar bom, sem impedimentos no ar. E aí é correr, levar a pipa pro alto. E dar linha. Muitas vezes, manter a pipa no ar é o mais difícil. Lida-se com o vento e com outras contingências que dificultam sua permanência lá em cima. Mas é fundamental dar linha pra pipa. E enquanto ela está lá, é uma sensação ótima. Um misto de preocupação e contentamento. De responsabilidade com prazer. De orgulho e temor.

Até que aparece alguém na porta. Já deu sua hora.

That’s all folks.

Insosso

Antes de entender, meu coração embranqueceu como cabelos embranquecem. Sinais de imperfeição? Se são pretos com fios brancos,  que cortem a cabeça! Se brancos com fios pretos, urge ser maduro o suficiente. É nos detalhes que se esconde a perfeição ou a perfeição teima em esconder-se (dos) (nos) seres. Fácil é ver a perfeição diluída na multidão. A epopéia de uma vida para ser perfeito é o esforço homérico de não se deixar ver no meio dos outros. Uma luta contra monstros e sereias, para no fim do dia voltar para sua Penélope, como se nada pudesse ter acontecido. Um desvio de rota, uma pedra no caminho, uma festa acabada, um pára-choque ralado, um pára-brisa cagado, uma árvore com fungo, uma blusa furada debaixo do braço, um resto de caspa no ombro. Essa não é a cicatriz na qual se reconhece um Ulisses. Não são  míseros detalhes que fazem de alguém um medíocre. A flor que nasce do asfalto para cada um desses seres é sentir-se destacado quando ninguém nota, ou quando todos notam sem notar. Segue-se o fluxo. Faz-se a lição de casa. Passa-se de fase. Cura-se a ferida. Cala-se o choro. A colcha de Penélope segue seu diário tecer e à noite, o destecer, como num conto de Sherazade. Adia-se o para sempre até quando se pode. Na espera do grande dia.  A grande sacada da vida é poder ter sempre estado oculto para poder fazer o óbvio.

De onde sai a chave

E estávamos numa sala cujo centro tinha uma porta enorme, maciça. Jacarandá, peroba, pinho, jatobá. Era uma sala circular, cujos quadrantes eram iluminados por lâmpadas frias em perpendicular ao chão. De súbito, o vento soprou forte remexendo os cabelos, levantando uma poeira que parecia não existir.

Estava tudo aparentemente limpo e desinfetado. Aquelas lâmpadas enormes davam um ar ainda mais hospitalar para a estranha sala. Porém, quando o vento bateu, não só a poeira levantou, mas também jornais velhos: notícias de uma guerra em 1984; a fuga de um infante pela porta da cozinha; o atropelamento de um cão já sênior; famoso concurso de coleta de flores de ipês no outono; o que terá sido da casa mal assombrada de assoalho de madeira?; quem fechou o portão que dá na mina?; é de sete em sete anos que nasce um eucalipto (…)

Quanto mais os jornais, as folhas secas e o pó vermelho de terra subiam, mais podia ver o chão cheio de amoras caídas. Meus pés pisavam e ficavam imediatamente roxos. Não conseguia mais olhar para cima, o vento era forte, não tinha como fechar a porta. E aquelas amoras sendo pisoteadas, uma por uma ou um punhado a cada pisão.

Tentava tapar os olhos com o braço e segurava em sua mão. Precisamos da chave, disse. Ela sempre ficava pendurada ao lado do balanço do flamboiã. De soslaio, meio agachada, consegui ver a fechadura da porta ao centro da sala. Sentia como se para sair dali tivesse que entrar no olho do furacão. Era uma força centrípeta que parecia querer nos lavar. Nos apoiamos e com muita dificuldade, chegamos até a porta. Girei a fechadura e a porta caiu.

Só ouvi as cigarras cantando, grudadas nos pinheiros.

O petróleo é nosso!

De uma palavra (mal)dita, de uma frase distorcida, de uma falta de comunicação, de um silêncio quando se queria agarrar uma palavra. De tudo isso nasce o ressentimento. E como camadas de restos de animais putrefando na terra, isso se sedimenta aos poucos, durante anos, séculos, eras. São camadas e camadas que reagem e se transformam em uma outra coisa. Do ressentimento, vira rancor. E continua a putrefação naquele canto escondido do mundo, no mais profundo do inconsciente.

Depois da ação milagrosa e catastrófica do tempo, a decomposição dá lugar a outra coisa. E fica lá, ainda inerte, ainda abocanhando restos de rancor e tristeza. Se um pequeno cutucão chegar a tocar a porta de entrada desse líquido espesso, o inevitável da explosão acontece. Jorra feito chafariz em dia de festa de cidade do interior. Jorra feito hidrante depois da batida do caminhão. Toda a mágoa acumulada atinge os ouvidos a cara o corpo a alma de quem estiver perto.

Um banho de vômito dolorido que se amargurou durante tanto tempo, tanta vida.

Se o jorro é inevitável eu não sei, a não ser que as blindagens sejam mais eficientes. Mas o jorro vira combustível, aquece os motores, vira chiclete. Mas o jorro, antes sedimentado, fica no ar, rondando as mentes, esperando decantar novamente. Esperando se transformar em outra coisa. E roda a melancolia seu interminável fuso.

Só esperando para poluir e contaminar outros eus.

O beijo na lágrima

O hiato entre dois feriados é a passagem da verdade ao faz-de-conta.  A idéia de se jogar as cartas na mesa é evitar o silêncio e fazer cair as máscaras. Um trunfo, um full house que tem grandes chances de quebrar a banca. Mas como lidar com um blefe poderoso? Sem tiques, sem um sorriso no canto do lábio. Difícil dizer se depois de um blefe, vem um par ou um royal flush. Nada como um Ás de copas para acabar com a festa. É  um zap colado na sua testa como sinal de seu fracasso diante dos seus próprios sentimentos.

O blefe faz o jogo ficar mais emocionante, mas por dentro, tanto de quem blefa quanto de quem vê o blefe, carcome por dentro, machuca, angustia. Se não blefar, só dá pra jogar alto com a mão boa, e isso cria uma dependência da sorte. E se ela não vier? Aí, corre-se sempre diante de uma ameaça.

Quando não se tem nem mais uma ficha pra pingar na próxima rodada, o que resta é voltar pra casa com os olhos marejados e contar sempre com o conforto. Mas que dá vontade de virar a mesa, embaralhar as cartas e arremessar as fichas na cara dos outros, ah, isso dá.