House, Lygia e eu

Era quase noite numa enorme sala de cirurgia.

Inúmeras macas ocupavam o espaço enquanto uma equipe ia passando, uma por uma. Eu médica fazia parte da equipe e a cada paciente, analisava, discutia, cortava, costurava e seguia adiante.

Deitados nas macas, inúmeros eus estirados, entubados e esperando o atendimento. Em cada eu, deitado em cada maca, uma coisa era consertada. No primeiro eu paciente, pés chatos. A equipe avaliava e depois da decisão final da eu médica, intervinha no paciente. E assim por diante: miopia, dente torto, coluna curva, lombar esmagada, desvio de septo. Havia casos dos eus que eram mais delicados. O trânsito pelo córtex cerebral tentava cauterizar um medo aqui, uma insegurança ali, uma culpa acolá, um arrependimentozinho ali a frente.

Assim, a equipe chegou ao fim da sala, fim da linha, fim de mais um dia árduo de trabalho. Foi quando um outro membro da equipe gritou e pediu que todos voltassem para o primeiro caso, o do pé chato. Pelos olhares e expressões, percebia-se que os médicos torciam para que fossem boas notícias, de um início de pós-operatório bem sucedido. Mas nem sempre se grita para dar boas notícias.

O caso do pé chato tinha dado algumas complicações. O pé tinha ficado curvo, mas o joelho continuava torto. E foi assim que, aos poucos, começaram a pulular casos com conseqüências desastrosas. Aqui, doutora! O eu miopia vê outros contornos no mundo e isso altera a sua compreensão de realidade! Venha, outro caso nesta maca! O eu arrependimento apresenta fortes indícios de egoísmo crônico. E foi assim que o caos se instaurou.

A eu médica era incessantemente solicitada. Eram reclamações sem fim. Uma reação em cadeia a cada reparo feito. Eu médica não comia nem dormia mais. Eus pacientes não saíam do soro. Eu médica sentia as olheiras pesarem e se tingirem com o tempo. Um eu paciente não respirava mais: traqueostomia.

Um dia, eu médica olhou ao seu redor e a equipe não estava mais lá. Só ela e os eus pacientemente aguardando. Eu médica já estava corcunda e via seus cabelos brancos sobre os ombros. Os eus pacientes tinham feridas no corpo e músculos atrofiados.

Já amanhecia. A única coisa que se podia ver era uma trilha de formigas enturmadas, decididas, rumando certeiras para o caixotinho coberto no fim da sala.

Anúncios

Variações sobre o mesmo tema

Já senti ansiedade. Já fingi ansiedade para que a sustentação sobre minha segurança não me derrubasse ao menor sinal de perigo. Já tive insônia assim como inúmeros pesadelos. (Uma variante média foram os sonhos estranhos). Já pensei: enfim, chega o momento mais esperado dos últimos tempos. E vivia dizendo pra mim mesma: não é grande coisa. Chorei e depois esqueci porque havia chorado. A insegurança ficou a um passo da esquizofrenia.

E passou. Assim como passam rápido muitos momentos em que a espera é mais longa e árdua do que o fato em si. Bebi a tempestade. Cheguei a pensar que era como eu tinha sonhado. E depois vi que sonhei pequeno. Nem sempre os sonhos realizados correspondem à expectativa. (Às vezes é melhor que eles não se realizem mesmo).

Depois, que fazer? Sentir alívio, vazio, sentir a missão cumprida na noite bem dormida? Mas o vazio fica. Já tentei tapá-lo com afazeres práticos e burocráticos. Já tentei arrumar a bagunça da prateleira. Já me escondi nas telas que grudam na minha retina. Já guardei em cápsulas revestidas de racionalidade as minhas emoções, para que elas não atrapalhassem mais o andamento das coisas. Já guardei minhas angústias. Já bradei minhas entranhas. Mudei meus planos, mudei a rota, fugi do grandioso atalho. Nada.

O cenho franzido persiste. O que escolher no horizonte de possibilidades? O possível, o inviável, o mais chato, o que tem mais glamour, o mais árduo… Infelizmente em nenhum canto desse supermercado de idéias existe a conciliação do mais prazeroso com o viável.

Talvez meu maior erro seja ter transformado hobby em trabalho.

E segue o moinho fáustico arrebatando com todas as minhas ilusões macunaímicas.

Do Amor

Sim, C precisava daquele ódio. Precisava sentir aquela borbulha em suas veias; precisava sentir seu coração bater de tanta raiva. Se era moralmente duvidoso, C não se importava. Queria alimentar aquilo com  fervor e manipular aos poucos aquele sentimento. Era como se precisasse transformá-lo numa gigante bola prestes a explodir, mas ainda sob o controle de um mestre tai-chi. E aos poucos ela era burilada, cuidada.

Puxava em cada meandro da memória, todos os resquícios de ódio. Todas as situações em que havia implodido ao invés de gritar eram retomadas como o combustível vital daquilo que se formava. C sentia a respiração ofegante e o coração acelerado. Sabia que dali em diante, qualquer palavra errada poderia ser fatal. Mas como medir as palavras quando se cospe sangue pelos olhos? E no mais profundo dos seus sonhos, C desejava que aquela bola de ódio se arremessasse pelo ar num kame hame ha violentíssimo. (Meu ódio é o melhor de mim?, perguntou a Carlos).

Assim como a mulher do casaco marrom quis que o ódio dos animais fosse o combustível de sua empreitada de (des)amar, C gostaria que aquele ódio sentido fosse a sua libertação. C sabia que esse era o caminho a seguir, uma vez que a pasmaceira só havia levado a mais pasmaceira. Paradoxalmente, o ódio não levaria a mais ódio. Ele simplesmente faria explodir toda a casca, toda a crosta imunda e gordurenta que não deixava ver o centro. A explosão é cíclica. Destrói e das cinzas pousadas no chão, faz brotar o novo. C sabia.

Mas saber não é suficiente. Sabe-se de tudo um pouco moda-cinema-quadrinhos-música-livros-filosofia. O tudo um pouco que quando junta dá quase nada. Mas que fazer com a bola em suspenso? Como evitar que as mãos suem, que não deixem escorregar pelo suor da palma a única força que lhe resta? C sabia. Mas precisava saber mais. Precisava transformar aquela bola de ódio numa Shiva convincente.

E do ódio no asfalto brotou a náusea (e também a flor).

C piscou e disse ok pela última vez.

Sobre círculos e quadrados

Sempre detestei caminhos retos.

Passar quarteirões e quarteirões na mesma calçada, seguindo a mesma direção me agoniam. Parece uma corrida de Enduro, em que o carrinho parece nunca sair do lugar. Sempre preferi cruzar a calçada, num misto de aparente mudança de rota com uma sensação de encurtar o caminho. Quase como uma obsessão por ter que haver tal mudança de percurso, já fiz e refiz cálculos da hipotenusa para justificar tudo isso. Na verdade, o caminho não muda. Muda apenas, levemente, a perspectiva do caminho. As casas são outras, os latidos são diferentes, assim como as sombras. Esse último fator também merece ser considerado como um dos determinantes. Além do agravante principal: não gosto de fazer sempre os mesmos caminhos. Quando isso se torna inevitável, procuro ao menos alternar as calçadas. Quarteirões imensos que devem ser sempre ziguezagueados.

A única ocasião em que prefiro as linhas retas é num caminho circular.

Obviamente o cálculo desse é mais difícil, ainda mais diante de minhas dificuldades matemáticas (ou seja, quando o grau de abstração numérica extrapola a materialidade imediata). Mas a sensação de cortar o caminho é mais forte. Chega mais rápido, economiza perna e ponteiro. Nesse caso específico, mirar o ponto, passar pelo raio e atingir o diâmetro é permitido sem muitas inquietações. Parece que o caminho fica mais leve nesse caso, com uma paisagem côncava que compensa o percurso retilíneo. É quase sempre um picote nas praças e aqui, pelo menos, não tem o problema das árvores.

Talvez não importe tanto o formato do caminho, mas sim a frescura das sombras.

A iguana e o camaleão

Fazia um lindo dia ensolarado. As nuvens rareavam no céu azul celeste celestial. O sol imperava impávido aquecendo os corações – e os animais ectotérmicos.

A iguana descansava suavemente sobre o galho da árvore. Tomando sua fresca matinal, ela sequer tomava conhecimento dos olhares observadores dos demais animais. Ela não sabia, ou se sabia, parecia não se importar com comentários sobre a sua feiúra e a sua esquisitice. Sabia que era única, que tinha as suas particularidades e que não ia ser um macaquinho de meia pataca que iria debochar dela. Muito dócil e paciente, a iguana, mesmo não querendo, sempre chamava muita atenção por onde passava.

Num galho não muito distante dali, o camaleão também desfrutava daquela manhã agradável. Porém, suas retinas giratórias estavam atentas a qualquer sinal de mudança no ambiente, para que se transformasse rapidamente naquela mudança, passando imperceptível por onde quer que estivesse. Atento e vestido de lunetas, o camaleão parecia nunca descansar no esforço supremo e sinestésico de dançar conforme a cor. A paranóia do olhar era paradoxal à placidez de sua tez.

De repente, uma sombra se interpôs entre o sol e a iguana. Tentando manter a sua temperatura corpórea, a iguana resolveu mudar de galho e para sua surpresa, deu de cara com o camaleão. Ou seria ela mesma? Assustada, a iguana nunca pensou que pudesse ver a si mesma de forma tão distorcida. Será que a iguana ser querer ser merecer ser um camaleão? Pela primeira vez em sua vida, a iguana se sobressaltou e não quis mais ser si mesma. Queria ser um algo outro que ainda não tinha cor.

O camaleão, de olhos atentos, notou certa agitação do ser que veio em sua direção. Ao contrário da iguana, o camaleão já estava acostumado às intempéries do ambiente. Seu corpo clamava por aquilo,  vivia para se defender de um si mesmo que nunca existia senão diante dos outros. E o si mesmo que aparecia era uma outra coisa que só fazia por se refletir no camaleão. Sua defesa, nesse caso, foi um ataque fulminante à iguana.

A iguana não suportou o choque. Tudo aquilo que durante anos ela despendeu energia para construir, para ser algo radicalmente diferente, foi-se pelo ralo. As novas cores do camaleão sugaram suas esperanças. Afinal, o que fazer quando os outros viram você?  E o camaleão, por sua vez, não tinha a intenção. Ele nunca tem, o pobre. Mas nenhuma ação é isenta de reação, já diziam as bolas de bilhar correndo no feltro verde. O problema é que o camaleão só vive pra se esconder no trem das cores.

Moral da história: um camaleão pode até querer, mas nunca dita as cores da estação (ou é fácil ser rosa no meios de galhos secos).