Ao ilustríssimo Senhor S.M.

Pernas cruzadas na altura da canela. Pretenso despojamento.

Os braços apoiados largamente nos braços da cadeira.

Pendendo levemente para o lado direito.

Cerrando as pálpebras míopes e inclinando o queixo para frente, observando.

De quando em quando, leva a mão à boca na altura do queixo.

Pensando, franze a sobrancelha.

Os vincos da face se confundem com a barba por fazer. Grisalha.

Ouve com olhos de quem finge interesse.

Fala como quem fala o mais sublime da sapiência.

Não é pelo que se fala. É pelo conjunto da obra: a postura, o olhar, a impostação da voz.

As sobrancelhas em alerta:

constantemente arqueadas com o espanto de ouvir uma voz que não é a sua.

Um lindo fascínio pelos pares. Os díspares que aguardem na fila da hierarquia.

Não há como pensar que todos são iguais:

Cinqüenta reais dá pra comprar uma coca e um guaraná?

Qual o próximo passo para quem aspira ser um almirante?

Eis um pseudo-poema descritivo para você, meu querido S.M.

Bon voyage.

De onde sai um boy

De um peugeot irretocável. Preto ou prata, clássico, afinal ele não quer chamar muita atenção. Seu carro é 1.6, 125 cavalos, afinal ele não quer ter um motor como o de todo mundo. Tá vendo a aceleração dele? Teto solar e câmbio automático são fundamentais, acessórios top, afinal ele sabe utilizar a tecnologia a seu favor. O teto solar tem 6 variações, além daquela inclinada. Quer uma bala? Comprei no aeroporto de Roma mas não gostei muito.

Sabe, nunca fui muito ligado em política, mas agora comecei a me interessar: leio a veja toda semana. Sabe, não leio muito jornal, mas agora leio a folha umas três vezes por semana. Sabe, nunca consegui entender porque falam tão mal da educação em São Paulo. Sabe, voto no Serra porque ele é palmeirense. Sabe, Istambul não é Europa e muito menos Portugal. Sabe, não gosto de deixar meu carro na rua, não é nem por roubar, mas vai que riscam, né?

Não sou muito de balada – dizia enquanto chacoalhava e reluzia sua grossa corrente de prata. Os elos grandes na medida exata. Nem para ser delicado, nem para ser chamativo. Um bom boy sabe dosar para poder conquistar. Voltando às baladas: as melhores são as de Ibiza. Um paraíso! Bebidas, tecno, rap francês, mulherada, chapação. Um litro de red com energético só de esquenta.

Já foi a Malta? Eu nadei na lagoa azul! Filmei a Capela Sistina… do Da Vinci, né? Tirei umas fotos, não sabia do que exatamente, mas via um monte de turistas tirando e achei que podia ser uma coisa importante, vai saber. Mas meu, o mais legal de ter ido pra lá é agora peguei fluência em inglês para negócios.

Cabelo raspadinho máquina 3. Camiseta branca agarrada, gola redonda e mangas curtas. A corrente. Calça jeans puída de fábrica. Três riscos verticais da addidas no pé.

Um boy é todo forma e conteúdo.

A pastora e seus pontinhos

Um exagero. Sai do corpo, jorra pelos poros e paira acima da lucidez. Um tênue fio de resto de existência une um corpo ao outro. Um descontrole, uma falta de noção. Deslocamento tempo-espaço-vontade-atitude. Uma bolha que grita entre a diversão e a irritação.

Só passa quando assenta e pensa. Olhar segundos atrás é querer ser horas atrás. Querer pôr um maldito chiclete na boca. Ocupar a língua. Tua boca é uma faca! Corta o vento com palavras rudes. Atravessa seres errando o alvo. Alvo este que se faz numa re-flexão. Antes de voltar, ele atinge corpos ouvidos.

Num sonho árcade, seria ideal um campo aberto, gramado verde, com uma única árvore ao centro. E no meio de só isso, um único grito, lancinante. Daqueles de estranhar até às entranhas. Porém, o idílico se separa da realidade por pequenos pontos, pontilhados coloridos de amarelo, azul, vermelho, listrado. E os pontos viram bolas e caem. E pesam. Mais que a gravidade.

Palavras não curam o que conversas não saram. Bom dia, quero uma pílula para esquecer. Verbo lembrar me causa náuseas, arrepio nos cabelos, e infla uma moralidade terrível, assombrosa. Regras de conduta foram feitas para serem seguidas em prol do bom funcionamento da sociedade! Estava lá. Assinei o Contrato Social.

Mas a lembrança fica e ronda. Como uma mosca assustada. Espanta, sai, tapa, vaza, insetcida, xispa.

Que os relógios de Dali derretam a meu favor.

De onde sai a fuga

Foi numa noite que começaram os primeiros barulhos. De dentro daquele enorme guarda-roupas embutido, viviam conjuntamente sapatos, casacos, calças, camisas, vestidos e toda sorte de vestimentas e adereços.

Tinha uma porta, em especial, que quase nunca era aberta. Era ali que ficavam as roupas que já estavam fora de moda ou que não se usava mais. Porém, com o passar do tempo e a velocidade das coleções, aquele setor do guarda-roupas ficou cada vez mais abarrotado. As roupas começaram a ficar apertadas nos cabides e nas gavetas. Lá dentro, na desordem do armário embutido, não havia mais nada de poético no paletó que enlaçava o vestido.

Depois de muitos anos escondidas, apertadas e já cheirando a mofo, decidiram que já era hora de fazer alguma coisa. Não dava mais para ficar numa camisa de força. Foi quando a saia jeans puída da fórum decidiu sair. A camiseta preta de banda rock concordou. A saia azul marinho de tactel disse antes tarde do que nunca. A calça preta, o boné xadrez, a blusa florida: outras peças acataram a decisão e acharam que aquele era o momento. E foi assim que o levante começou. De um simples burburinho fruto da indignação, o barulho passou a ser de socos e pontapés nas portas de madeira.

Algumas peças saíram com mais facilidade. Outras menos. A calça cinza abriu a porta com força, mas não saiu. Passou a ver o mundo lá fora pendurada no cabide. A saia jeans saiu, mas seu passante enroscou na fechadura. O movimento pendular do esforço de sair e da inércia em voltar persiste no movimento da porta. A saia de tactel saiu, mas às vezes, volta pro mancebo ou pra fechadura da porta.

Ainda assim, muitas outras ficaram. Acharam que o escuro era sinônimo de conforto. Nada que uma apertadinha na prateleira não se resolva por mais um tempo. Além do que, a moda sempre vai e volta. Elas ainda podem sair quando a moda permitir, dar uma volta, aproveitar a noite e voltar para o embutido assim que os problemas começarem.

O armário continua fazendo barulhos à noite e assombrando os desavisados. É quando as roupas recomeçam os cochichos…

Incude

De repente o dizer, que tantas possibilidades tinha de ser o grande alicate capaz de quebrar de um só picote a corrente com a bola de metal, acaba se tornando uma grande, pesada e metálica bigorna.

Um anúncio, uma frase: uma tentativa de se fazer dizer a qualquer custo ou um simples lapso de felicidade? A segunda opção seria linda, caberia bem, se não fosse tremendamente falsa (ou seria apenas um momento de felicidade por poder se fazer dizer?). A primeira, com isso, se torna cara. Ela passa a custar a iminência do fracasso anunciado. Pode ser um exagero diante da equação social da possibilidade: sim, fifty fifty. Só que sucesso anunciado não existe, existe presunção. Mas fracasso anunciado nasce com a própria palavra, é o princípio do verbo. E tem até torcida organizada.

Uma anunciação que tem que acontecer. Deve acontecer, afinal foi dita, foi antecipada. Contou-se com a galinha antes dos ovos: só pelo fato de se dizer algo. Uma bigorna que se materializou com rapidez e força inimagináveis. Quando ela aparece no meio da sala, comprometida com o sucesso, você percebe que os ovos da galinha eram de ouro, assim como o silêncio. E a bigorna fica lá, parada. E eu olho para ela, pensando: um peso inútil, ocupando mais espaço do que sua real função. Aliás, que função seria essa a não ser mirar em um papa-léguas e cair na cabeça de um coiote?

Com seu perdão, Bandeira, mas meu lirismo parou e foi averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo: Bigorna s.f. 1. Peça de ferro em que se malham e amoldam metais; 2. Incude; 3. Ossículo do ouvido. (todos os créditos ao meu querido dicionário Priberan de português de Portugal! Se ele tivesse páginas, elas estariam amassadíssimas).

Tanto trabalho, incluindo uma citação livre, para saber de que se trata. Para tirar aquilo dali é preciso um misto de força e claro, molejo. Mas só vale a combinação disso. Por exemplo, não dá pra ter força para empurrar, sem molejo. Não daria em nadica de nada. Poderia também aprender a forjar metais. Nunca mais compraria uma faca sequer no 1,99. Mas também posso domesticar a bigorna ao ponto que, se desse, colocaria uma coleira nela.

Não posso arrastar nem puxá-la. A bigorna vem comigo. Até que se dê a realização do fato anunciado. Diante disso, há uma possibilidade dupla: ou eu ganho super poderes levanto a bigorna acima da minha cabeça e, num impulso, jogo-a pra fora do meu raio de visão; ou ela fica e se transforma num fantasma, num espectro sempre rondando minha lembrança.