De onde sai um Nael

Um Nael é rarefeito,

é um não-ser e é outro.

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Nael é ponte. É caminho de dois mundos.

É o pilar da ponte de tédio.

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Nael é o que existe

entre literatura e sociedade.

Nael entre & e hífen,

razão e emoção.

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Nael é tese-antítese-síntese.

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Um Nael que se preze

fica na fronteira

entre o cigarro dos adultos

e a bala das crianças.

(ou entre o cigarro das crianças e a bala dos adultos)

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Nael que é Nael escreve pra entender

e entende pra esquecer.

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Monsieur Nael c’est moi.

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Um dedal

Às vezes, meio que sem querer, me lembro dela. Um cheiro que não sei de onde vem, uma foto, um comentário, uma roupa, ou qualquer objeto que tenha divido sua existência comigo e com ela.

Dividimos muitas coisas durante muito tempo: o quarto, o guarda-roupas, a televisão (eu queria ver Doug e ela novela), caminhadas com o Bino e um grande e fatal resfriado.

Não sei se a compreendi como deveria. A distância, a morte, a memória e a saudade têm um efeito obnubilador sobre as coisas. Um toque de fantasia aqui, uma mudança numa frase dita ali, e logo os fatos se transformam em algo confortável para os ânimos. Aplacam possíveis erros, amenizam sentimentos, recolocam palavras mal ditas. Mas afinal, os fatos não são uma construção disso tudo ao mesmo tempo? Pelo menos é essa impressão que tenho quando lembro dela.

Talvez ela não saiba, mas foi fundamental no meu quesito paixão pelos livros. E foi justamente por isso que me lembrei dela da última vez. Me deparei com um livro grosso de contos. Capa amarela.

– Vó, por que meus irmãos recebem as suas mesadas em notas e eu ganho em moedas?

Depois de alguns dias, ela me chamou no quintal. Escondia alguma coisa na mão. Segurou meu braço e transferiu para a minha mão uma nota de cinqüenta reais. Fiquei chocada. Nunca tinha segurado tanto dinheiro em toda minha vida. Recusei, disse que era muito, que eu nem sabia o que fazer com aquilo. Foi então que me arrependi de ter feito aquela pergunta. Ela insistiu, disse que eu era sua companheira, que a gente fazia muitas coisas juntas e que eu fazia muitas coisas por ela.

Guardei-o por um tempo. Mas logo achei o que fazer com ele. Foi aí que comprei o meu primeiro livro. Aquele grande, de contos e de capa amarela. Tenho um carinho especial por ele até hoje. E fez crescer minha paixão pelos livros e pelos contos.

E também me fez lembrar de uma mulher forte, que aguentou muito. Era fácil ser chata perto de um fanfarrão. Era difícil conciliar as excentricidades dos filhos. Mas era muito fácil agradar de todas as formas todos os netos. Com brincadeiras, com mesadas, com puxões de orelhas.

Uma vez, tive piolho. Sentada na sua cadeira verde, ela passou o pente fino na minha cabeleira inteira. Está doento, periquita? Não, vó, pode continuar. À noite, no quarto, adormecia ouvindo-a rezar bem baixinho. Tenho saudades do mingau de chocolate. Mas sei a receita da melhor farofa do mundo. Tenho saudades da sua camisa cor-de-rosa. Mas ainda guardo e uso sua camisa xadrez de flanela. É como se tudo isso estivesse, hoje, dentro do seu quarto de costuras, onde gostava tanto de ficar. É lá que guardo as melhores lembranças de minha avó.

Quando a saudade aperta, compro uma caixa das suas pastilhas de menta favoritas. O frescor muitas vezes me faz chorar.

Todos os olhos

Joca era um cara bacana. Tinha todos os atributos de um cara considerado sério.

Era honesto, trabalhador, bom coração, media as palavras, se portava bem em público, tinha uma vida regrada. Até quando sorria era sério. As pessoas não chegavam a ajustar o relógio na sua passagem diária por elas, mas ele era um cara um tanto quanto sistemático com horários, responsabilidades e afazeres.

Em um dia insólito, a pálpebra do Joca começou a cair. E passavam os dias e ela continuava caindo. Até que ela caiu.

– Mas, doutor, o que eu faço?

– Sinto muito. Você perdeu seu olho. Se quiser poderá usar um olho de vidro.

Que castigo. Um homem tão correto como ele, porque haveria de merecer tal fado?

E durante semanas Joca se debateu com isso, negando sua condição e negando mais ainda o olho de vidro. Até que percebeu que não tinha escolha. Acatou o olho de vidro.

Foi até a casa do artesão que lhe mostrou o quão complexo era seu ofício. Desde a confecção da esfera, passando pela coloração até chegar ao polimento do olho. Joca ficou encantado. Particularmente com os fios de lã que eram usados para imitar os nervos do olho. Foi aí que Joca se deu conta que andava com uma verdadeira obra de arte no rosto.

No começo foi estranho. Às vezes era como se sentisse uma saudade, uma fisgada de algo que perdera. Mas aos poucos se acostumou com a reocupação, com a densidade diferente e até com os olhos curiosos das outras pessoas.

Joca, sistemático que era, tirava o olho de vidro todas as noites para dormir. Colocava-o sobre o criado-mudo e, na manhã seguinte, recolocava-o. E assim foi por muitos anos. Fazia parte da rotina de Joca. Já não sentia mais falta do velho olho e às vezes já nem se lembrava mais de como era antes do olho de vidro.

Muito tempo se passou. Joca começou a sentir a idade avançar. As costas entrevavam, a memória falhava, os tremores apareciam e seus dentes caíam.

– Mas, doutor, o que eu faço?

– Sinto muito. Você terá que usar dentadura.

E foi assim que sua rotina passou a ser duplamente condicionada: antes de deitar, tirava o olho de vidro, punha no criado-mudo e depois, tirava a dentadura e punha no criado-mudo. Ao acordar, colocava o olho de vidro e depois a dentadura. Nessa ordem. Fazia sentido para Joca, afinal, um veio antes que o outro. Portanto, um merecia ser colocado antes que o outro, oras.

E por mais alguns anos Joca viveu sua vidinha. Gozou do prestígio de sempre ter sido um homem íntegro e bem educado. Sua disciplina e rigor com sua saúde e seu bem-estar lhe renderam ainda muitos anos de vida. Claro que já não mais com o mesmo vigor nem com a mesma lucidez. Mas ainda assim, muito melhor que muitos da mesma idade dele por aí.

Um dia, Joca engoliu o olho de vidro.

 

As equações estão todas erradas!

Era quinta série. Vários alunos nervosos com o resultado a ser apontado pela professora de matemática. E depois do susto, a menina iria representar a escola na olimpíada regional de matemática.

E foi, com medo, sabendo que haviam pessoas que poderiam se dar melhor naquela empreitada, afinal, nunca fora afeita aos números. Por um mero acaso, no dia da avaliação, acertou os resultados, garantindo seu passaporte.

Obviamente, ela preferia uma olimpíada de história, mas já que estava lá, fez o que tinha que fazer. Ou melhor, o que deu pra fazer. As contas eram difíceis. Algumas não sabia nem por onde começar.

Acabou saindo da prova com a sensação de dever cumprido e, quiçá, sonhando com uma premiação. O que não aconteceu, mas voltou pra escola cheia de orgulho e motivação.

No dia seguinte, a professora de matemática resolveu aplicar a prova da olimpíada para a sala da quinta série. De equação em equação, qual não foi a surpresa e embaraço dela: as equações da menina estavam todas erradas.

Foi o suficiente para a classe inteira debochar, ridicularizar e até questionar a escolha da professora.

Por que ela, afinal?

Por que a dificuldade em resolver uma equação de emoções é ainda tão difícil? – dizia buscando no olhar da professora a resposta não-matemática dos seus erros.

E explicava sem cessar. A equação parece simples: para parar de sofrer é preciso entender. Para entender é preciso racionalizar. E por que  é que, então, o resultado não bate com o gabarito?

É porque sua equação está errada, berra a professora de matemática, sem dizer onde está o erro.

Acácia astral

Hoje é o primeiro dos últimos dias.

É hoje o início do fim da era astral.

Um mês de uma espécie de TPM anual.

– Mas é cultural…  – clama o cético tanoeiro.

Você, metade gente, metade cavalo, responda: as estrelas descem à terra e a astralidade se curva à racionalidade ou a irracionalidade curva-se diante da dica do destino?

Com Adorno ou sem adornos, é tempo de se recolher e contemplar os primeiros galhos de acácias que despontam em meados da primavera.
Cachos amarelos e límpidos. Pinceladas  carregadas de tinta. Lentas e pontilhadas.

São as minhas acácias que caem dum cacho feito um pranto.

Hoje é o primeiro de muitos cachos.