Imagine

Ah, Brás Cubas.

Se seu emplastro tivesse sido feito,

eu não precisaria entender nada direito.

.

Se ele fosse um sucesso,

e viesse com garantia,

me pouparia intermináveis horas de terapia.

.

Seria uma vida plena.

Sem mazelas, sofrimento ou dor.

Pois pra ficar bonito, não basta rimar vida com amor.

.

Sou hoje uma louca hipocondríaca.

Brás Cubas, e agora?

Resolvo tudo ou jogo fora?

.

Troco o emplastro

pelo resto de lucidez que me resta.

Na esperança que ele apare essa aresta.

.

[Enquanto isso,

a música retumba:

You may say I’m dreamer…]

Irritadiço

Mal o dia despontou e a tortura começou. (Tem dias que o som do despertador parece mais chato do que usualmente. Ainda mais quando se dorme menos: hoje foi esse dia.)

No resto do tempo, a irritação ficou por conta da pressão. Faça isso, faça aquilo. Venha hoje, venha amanhã.

Uma grande e enorme panela onde tudo o que é  irritante pulula. Cada vez há mais e mais agitação. O destampar da panela fez explodir uma lágrima.

Se eu pego a tal da esperança e todos os sentimentos coloridos que ela carrega, enfio num saco, amarro com fita e jogo em alto mar. Só contribuiu para que a pressão de outrora ficasse pior e mais pesada. A esperança de um céu azul celeste celestial se foi como num fim de tarde no verão: desapareceu diante da força e da opulência de uma tempestade.

Desculpe, mas hoje precisava chover. Como se o pedido de desculpas antes de uma notícia ruim aliviasse qualquer coisa. Desculpe, mas você vai morrer. Desculpe, mas não posso te contratar. Desculpe, mas você foi multado.

O dia ainda teimava em não terminar. A noite é uma estranha senhora, mas cuja previsibilidade também chateou: foi aí que quando a irritação já parecia não ter mais por onde, veio o tédio. Irritantemente incômodo. A desanimar qualquer tentativa de entretenimento. Uma raiva por não ter vontade de nada. Zap, zap, zap.

Queria apenas que a objetividade do tempo se restringisse a um adiantar de ponteiros.