Na hora da sede

Me dei conta, depois de muito tempo, que a água havia acabado definitivamente. Acordei sonolenta e entrei no banheiro. A descarga estava quebrada, droga. Peguei um balde para encher de água na torneira do tanque. A torneira também parecia estar quebrada, girando em falso, talvez. Tinha a mais plena certeza de que tinha pagado a conta de água. Não podia ser falta d’água. Claro, a água já tinha sido cortada outras vezes, mas por falta de pagamento.

Passei a tentar todas as torneiras da casa. Nada. Conferi as contas, os débitos bancários. Tudo estava nos conformes. Estranho, pensei. Poderia ser um problema na distribuição de água da cidade. Chamei a vizinha no muro e perguntei se na casa dela tinha acontecido a mesma coisa. Negativo, estou batendo roupa nesse momento.

Resolvi esperar. Logo aquela situação ia se normalizar. Poderia ser algum cano da casa ou algo do tipo. E esperei. Chamei o encanador. Nada de errado, dona. Liguei desesperadamente para a empresa distribuidora de água e nenhum problema foi detectado em sua rede, senhora.

Tentava economizar o máximo possível a água da caixa. E consegui por um tempo. Ao cabo de alguns dias, a fonte havia secado definitivamente. Nunca pensei que sentiria tanta falta de tomar banho, escovar os dentes.

Tinha sede. Minha boca já não tinha mais saliva. Se quisesse aplacar um pouco aquele desespero que passou a me rondar, saía de boca aberta na chuva. Mas era pouco, era migalha, já não me satisfazia mais.

E a pergunta sempre me rondava: como saber se a água não vai mais voltar? E se eu sair e ela voltar? E se eu não sair e morrer desidratada?

A angústia não conseguia produzir sequer uma lágrima. Passei a chorar seco.

Minha boca, sem saliva, já não conseguia pronunciar palavra qualquer.

Passei o resto dos meus dias encolhida num canto da casa, economizando o resto de água que me restava nas células. Afinal, ainda restava o meu corpo, a última grande partícula de vida a ser esmagada pela sede.

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Duplo

Subo até o mais alto degrau daquela escada em caracol. Ela tem degraus curtos e curvos. Não dá pra subir sem olhar para os pés, o que agudiza a fobia e a tontura.

Mas subo porque é preciso subir. É lá que está a mais linda, a mais pura das metáforas. Aquela que vai iluminar e esclarecer todo meu ser, aquela que vai traduzir todo duplo em mim.

De repente, meu telefone toca. Preciso descer. Fica, diz cândida a metáfora. Não posso. Mas você está prestes a conseguir. Não posso, preciso fincar logo os pés na terra.

Desço. Mas não páro de pensar na metáfora. Aplaco a loucura e a necessidade imperiosa do chão.

Mas ela não desfez meu duplo. Cá comigo ele levanta meus olhos para aquele alto degrau da escada. Fecho os olhos e lembro desse mesmo fatídico duplo arrastar meus olhos para o chão enquanto a metáfora me seduzia. Aposto que foi ele quem fez tocar o telefone.

Às vezes subo de novo, mas pelos míseros segundos, afim de aplacar as agruras que me acordam no meio da noite. E quando desço, desço para aplacar as mãos que me sacolejam durante o dia.

É a rotina. É o frio na barriga. É a raiva de ter que ir e vir. É querer acampar no meio da escada e rodar de tontura. É querer ter asas.

Se eu tivesse asas, não precisaria de uma metáfora.

Desculpe, querida metáfora, se expliquei-te por demais.

4 anos e 364 dias

Do amor, apesar de muito se falar, pouco se tem a dizer e a explicar sobre sua essência.

O gesto é amar e, dele sim, muito se pode falar.

Amar é estender a mão, é envolver uns braços num abraço carinhoso.

É poder dizer antes de dormir: boa noite, dorme bem, sonha comigo, te amo.

É poder ver um sorriso amarelo depois de uma piada sem graça.

É poder tentar fingir saber dançar para poder agradar.

Amar, afora o idílico do sonho do poeta louco, é conviver.

É tentar decifrar um olhar sem que nada se diga.

É como conciliar um dia de verão: sol de manhã e chuva ao fim da tarde.

É como apresentar a mesma peça durante uma temporada:

todo dia o mesmo texto, mas que sempre se apresenta de outras formas.

Amar é, apesar de toda insegurança e medo, saber dar e receber presentes.

É poder chorar de felicidade e de prazer.

É poder planejar, sonhar, voar e voltar para a realidade sem cair.

É poder saber que num canto recôndito, num lugar perdido numa rua de paralelepípedos, vive-se e mais nada.

Amar é simples. As complicações surgem diante da dificuldade de se entender algo tão simples. De algo tão palpável e singelo.

Amar é verbo intransitivo.

O frio na barriga é de olhar pra trás e ver a trilha formada na mata fechada.

O frio na barriga é de olhar pra frente é ver que o caminho não tem uma mão.

Tem duas.

Grande Praia

Se eu pudesse definir aquele lugar em poucas palavras, seriam essas: uma profusão de cheiros. A cada passo, a cada vez que minha cabeça mudava de direção, um cheiro novo se interpunha no meu caminho. Mas não era bem um cheiro novo. Conhecia todos aqueles cheiros. Sabia de onde vinham há décadas. Mas há décadas também não ia lá. Era como se os cheiros tivessem ficado em suspenso, esperando por mim.

Um bronzeador conhecido, um protetor solar famoso. Apesar de serem odores recorrentes em todo verão que se preze, a imagem que me vem deles à mente, quando os sinto no ar, é a da primeira vez que os senti. E foi ali, naquela praia.

Foi lá também que praticamente aprendi a nadar; aprendi a observar as ondas e saber a hora certa de mergulhar; aprendi os limites que o meu corpo aguentava no fundo, sem tocar os pés na areia; aprendi que ondas fortes de maré alta desmoronam castelos de areia; aprendi a beleza de, a partir do mar, olhar a areia e saber me localizar; aprendi que as pedras formam um ecossistema curioso de animais escondidos, mas também cruel com as bolhas de queimadura no pé e as raladas na perna depois da onda forte; aprendi que uma praia é uma parte de um todo da costa, graças à trilha que ligava uma praia à outra.

Mas o diferencial dela não é o sossego ou o aspecto idílico e intocável. Muito pelo contrário. É preciso um esforço para ir além de guarda-sóis amontoados, cangas estiradas, crianças correndo e um palavratório sem fim. Mas eu não precisei desse esforço. Quando coloquei os pés na areia, era como se eu criança estivesse lá, alheia a qualquer interferência e se preocupando apenas com o caminho entre a areia e o mar.

E que mar. Amplo, com ondas quebrando em várias etapas. Cercado por morros e florestas com o horizonte como limite. E  aquele cheiro inconfundível do mar. Cheiro de sal mesmo. Forte, intenso e inebriante. Aquela areia de papelão molhado perfeita, macia. Fiquei hipnotizada olhando para meus pés afundarem na areia enquanto as ondas vinham e voltavam no rasinho. Até a temperatura da água me pareceu extremamente familiar. Foi como se aquele mar fosse meu quintal de novo.

É sempre um deleite poder voltar à infância de alguma maneira. Mas dessa vez, foi o cheiro de um mergulho intenso que ocupou todos os sentidos do meu corpo.