Grande Praia

Se eu pudesse definir aquele lugar em poucas palavras, seriam essas: uma profusão de cheiros. A cada passo, a cada vez que minha cabeça mudava de direção, um cheiro novo se interpunha no meu caminho. Mas não era bem um cheiro novo. Conhecia todos aqueles cheiros. Sabia de onde vinham há décadas. Mas há décadas também não ia lá. Era como se os cheiros tivessem ficado em suspenso, esperando por mim.

Um bronzeador conhecido, um protetor solar famoso. Apesar de serem odores recorrentes em todo verão que se preze, a imagem que me vem deles à mente, quando os sinto no ar, é a da primeira vez que os senti. E foi ali, naquela praia.

Foi lá também que praticamente aprendi a nadar; aprendi a observar as ondas e saber a hora certa de mergulhar; aprendi os limites que o meu corpo aguentava no fundo, sem tocar os pés na areia; aprendi que ondas fortes de maré alta desmoronam castelos de areia; aprendi a beleza de, a partir do mar, olhar a areia e saber me localizar; aprendi que as pedras formam um ecossistema curioso de animais escondidos, mas também cruel com as bolhas de queimadura no pé e as raladas na perna depois da onda forte; aprendi que uma praia é uma parte de um todo da costa, graças à trilha que ligava uma praia à outra.

Mas o diferencial dela não é o sossego ou o aspecto idílico e intocável. Muito pelo contrário. É preciso um esforço para ir além de guarda-sóis amontoados, cangas estiradas, crianças correndo e um palavratório sem fim. Mas eu não precisei desse esforço. Quando coloquei os pés na areia, era como se eu criança estivesse lá, alheia a qualquer interferência e se preocupando apenas com o caminho entre a areia e o mar.

E que mar. Amplo, com ondas quebrando em várias etapas. Cercado por morros e florestas com o horizonte como limite. E  aquele cheiro inconfundível do mar. Cheiro de sal mesmo. Forte, intenso e inebriante. Aquela areia de papelão molhado perfeita, macia. Fiquei hipnotizada olhando para meus pés afundarem na areia enquanto as ondas vinham e voltavam no rasinho. Até a temperatura da água me pareceu extremamente familiar. Foi como se aquele mar fosse meu quintal de novo.

É sempre um deleite poder voltar à infância de alguma maneira. Mas dessa vez, foi o cheiro de um mergulho intenso que ocupou todos os sentidos do meu corpo.

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