Duplo

Subo até o mais alto degrau daquela escada em caracol. Ela tem degraus curtos e curvos. Não dá pra subir sem olhar para os pés, o que agudiza a fobia e a tontura.

Mas subo porque é preciso subir. É lá que está a mais linda, a mais pura das metáforas. Aquela que vai iluminar e esclarecer todo meu ser, aquela que vai traduzir todo duplo em mim.

De repente, meu telefone toca. Preciso descer. Fica, diz cândida a metáfora. Não posso. Mas você está prestes a conseguir. Não posso, preciso fincar logo os pés na terra.

Desço. Mas não páro de pensar na metáfora. Aplaco a loucura e a necessidade imperiosa do chão.

Mas ela não desfez meu duplo. Cá comigo ele levanta meus olhos para aquele alto degrau da escada. Fecho os olhos e lembro desse mesmo fatídico duplo arrastar meus olhos para o chão enquanto a metáfora me seduzia. Aposto que foi ele quem fez tocar o telefone.

Às vezes subo de novo, mas pelos míseros segundos, afim de aplacar as agruras que me acordam no meio da noite. E quando desço, desço para aplacar as mãos que me sacolejam durante o dia.

É a rotina. É o frio na barriga. É a raiva de ter que ir e vir. É querer acampar no meio da escada e rodar de tontura. É querer ter asas.

Se eu tivesse asas, não precisaria de uma metáfora.

Desculpe, querida metáfora, se expliquei-te por demais.

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