Os desastres de Sofia, de Nina e de Vera

As conjunções são todas insólitas, clamava o resto de vida que existia no prosaico.

De bendito a Benedito.

De Sofia a Clarice.

De cisne negro a cisne cinza.

Uma bailarina, um monstro, um lobo, o peso de um trabalho.

Um cisne, um lobo: a pena.

As conjunções se auto-revelam num efeito dominó.

A dor reverbera como um eco: acústico e imenso.

A bailarina tem nojo de quê?

Um lobo tem fome de quê?

“De chofre explicava-se porque eu nascera com a mão dura, e para que eu nascera sem nojo da dor. Para que te servem essas unhas longas? Para te arranhar de morte e para arrancar teus espinhos mortais, responde o lobo do homem. Para que te serve essa cruel boca de fome? Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa mais, meu amor, já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada.”

De onde sai a nova trova

Mote: Jóia que se perde no mar

Só se encontra no fundo.

.

Uma nascente tão bela e singela

porém solitária.

Quem poderia imaginar

Que tal vida desenbocaria num rio de águas turvas.

.

Um rio sem remanso, com pedras e corredeiras.

Mirar o horizonte e só seguir adiante.

Quando se tem as margens ao alcance

A descida é dura e lancinante.

.

Porém, agarra-se nelas

ao menor sinal vacilante.

Quisera eu que a vida fosse rio.

Bravo e arredio.

.

Vida que é vida se faz no mar.

É lá que se encontram todas as gotas

todos os suores, todas as lágrimas.

.

É lá que se aprende nadar

sem que a correnteza leve.

É na imensidão azul

que se sedimentam as dores,

dissabores de hoje e outrora.

.

Sem rimas, sem métricas.

Sem snorkel.

Ezequiel

E foi assim que, depois de uma vida inteira, descobri uma única palavra que me definisse: mimético. Na verdade não fui eu quem descobriu, e sim um médico que consultei e que explicou a minha situação.

Era como um sotaque que me impregnava por um tempo. Podia durar dias ou meses. Mas era mais grave que uma repetição fonética. Não era apenas o som que me incomodava, o pior era o que eu dizia, ou melhor, o que eu re-dizia.

Sem pensar, sem questionar, sem botar defeito nenhum. Era um vício de linguagem que ganhou uma proporção absurdamente conveniente. Era mais fácil que decorar a letra de uma música em tempos de não-internet. Eu nem precisava colocar a fita k7 pra tocar e ir pausando a cada frase que eu escrevia. Era mais simples do que isso. Bastava ouvir uma frase, repetí-la para mim mesmo uma única vez e logo depois já estava apto para ecoá-la em qualquer dimensão.

Mas eu também mantinha outro artifício na manga. Virei mestre em repetir trejeitos. Cacoetes, manias, bocas tortas se tornavam meus depois de meia hora de observação. Virou meu próprio tique repetir o tique dos outros. E como sempre fui assim, desde pequeno, não sabia se já havia existido algo puro em mim.

Um dia estava tirando um cochilo no meio da tarde e tive um pesadelo. Sonhei que estava numa sala de espelhos que tem naqueles circos que aparecem nos filmes. Entrei na sala e não conseguia ver o meu reflexo em nenhum espelho. Só via o rosto de amigos, conhecidos e familiares. Procurei por todos os cantos, por todos os espelhos retorcidos e nada. Acordei assustado e foi aí que resolvi procurar ajuda.

Me indicaram um médico que pelo nome da especialidade me pareceu ser um charlatão. Mas poderia ser a minha única solução. E foi. Expliquei-lhe minha situação e ele, bonachão que era, me tranqüilizou.

– Calma, meu querido. Você sofre de um mal muito comum nos dias de hoje. Chama-se Distúrbio da Personalidade Líquida. O tratamento é simples: vou receitar a você um tempo de repouso numa casa de campo distante de tudo e de todos. Os muros não vão deixar você ter contato com mais ninguém. A comida será passada por debaixo da porta e a manutenção da limpeza é por sua conta. Depois de um tempo de isolamento, livre do contato com as pessoas, você sairá de lá curado, sabendo exatamente quem você é.

– Muito obrigado, doutor. Não sei o que seria de mim sem o senhor – eu disse, de forma bonachona.

 

Voar, voar

Um ônibus que voa não poderia ter somente vantagens. Rapidez, médio conforto, serviço de bordo, vista para as nuvens, vista panorâmica das cidades e das paisagens.

Apesar dos pesares, andar de avião é um pouco chato e burocrático demais. Documentos checados uma, duas, três vezes. Mala pesada, bagagem de mão no raio-x, detector de metal, fila de espera. Uma rapidez que se vende e se compra, mas por vezes não se realiza. O traslado demora, a espera é longa, o aeroporto é longe, o estacionamento é caro, o táxi também e o ônibus não oferece muito mais vantagens.

Mas tudo isso é suportável. Faz-se em nome da comodidade, rapidez e eficiência que, ainda com todos os agravantes, é maior do que qualquer outro meio de transporte. O que incomoda de verdade é aquele papo mórbido logo após afivelar os cintos. É como se dissessem: olha pessoal, a gente vai fazer o possível, mas vai que… puf! Olha pessoal, o avião é rápido e tal, mas vai que… cabrum! Olha pessoal, é o meio de transporte mais seguro do mundo, mas vai que… crash! Olha pessoal, não queremos que nada aconteça, mas…

Saídas de emergência, máscaras de oxigênio (inevitável lembrança de o clube da luta), assentos flutuantes e kits de primeiros socorros disponíveis nas laterais da aeronave são orquestrados pelos comissários uniformizados e sincronizados.

O lado politicamente correto diz: é importante saber de tudo isso antes de se aventurar numa viagem dessas, em caso de emergência é sempre bom saber o que fazer e é dever da companhia aérea informar tais procedimentos. O lado aperta o foda-se diz: que papo besta, mal sentou na poltrona levemente reclinável esperando o rango e já vem com essa conversa de que o avião pode cair?

Claro, parte da culpa, como sempre, pode vir da indústria cultural e da sua singela gerente: hollywood. Ninguém melhor do que ela para explorar catástrofes, dramas humanos e… desastres de avião. Quando se olha pelo corredor da aeronave e vem a sensação de que “eu já estive aqui antes”, vem logo a lembrança do teto se abrindo, o vento cortando, pessoas morrendo, gente gritando, o avião caindo. Sim, macabro. Mas não inventei nem o avião nem os filmes catastróficos. Só usei ambos em conjunto.

O mais interessante é que todo o medo e toda a paranóia que vem junto com o fato de se assentar em uma poltrona que é flutuante – mas que é melhor você torcer para não usá-la – é o frio na barriga da decolagem. Uma delícia, digno das melhores visitas aos parques de diversão na infância.

Mas passa logo, assim como a viagem. Logo logo começa toda a epopéia da volta pra casa. Ah, Ícaro, se você soubesse como pode ser enfadonho voar…

Na fila

Na fila da farmácia, vi uma mãe e duas crianças. A menina, de uns 6 anos e o menino com uns 4.

Falavam e andavam o tempo todo: Mãe, compra isso,mãe, compra aquilo? Pensei que seria mais um daqueles episódios em que ia ficar irritada com a chatice entre pais e filhos.

Por sorte, me enganei e gargalhei demais na fila, sozinha.

A mãe, se mostrou espirituosíssima no trato com os filhos. E os filhos, com suas perguntas infinitas.

Entre um olha, mãe, a pastilha do vovô e outro produto conhecido, a menina disse: mãe, compra protetor solar? Ao que ela rapidamente respondeu:

– Não posso nem ver isso na minha frente. A vó de vocês lambuzou tanto vocês disso que acho que não vamos precisar por um bom tempo.

Sorri baixo.

E a menina continuava andando pelas gôndolas da farmácia: mãe, compra tinta de cabelo pra você! E a mãe, afiada:

– Filha, eu sei que estou com os fios brancos aparacendo, mas hoje não vou no salão nem pensar…

Ri achando graça.

Já estavam no caixa, quando a menina pegou um pacote de fio dental e quis saber se eles precisavam daquilo.

– Não, filha, temos um desses em casa.

– Acho que não, mamãe. O que temos não é desse, por aqui está escrito que ele deixa os dentes brancos.

Gargalhei muito alto.

A mãe olhou pra mim com aquela cara de “o que que eu faço com essas crianças” e saiu de mãos dadas com eles, explicando sobre os dentes brancos.