O messias. Por: Helena Dicecca, Itaguaí, 2011.

PERSONAGENS

Amelie, a professora francesa

Virgília, a aluna prestativa

Marcela, a aluna atrasada.

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ATO ÚNICO

[A cena se passa em uma sala de aula com uma média de 20 alunos. Está chovendo e a professora francesa dá uma de suas primeiras aulas no Brasil]

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CENA ÚNICA

(Amelie, Virgília, todos os alunos na sala menos Marcela)

[Professora Amelie fala de seus primeiros momentos no país com bastante sotaque]

PROFESSORA AMELIE: Quando cheguei aqui, não entendia bem porque os brasileiros nunca se chamam por ‘senhor’ ou porque nunca usam o sobrenome das pessoas. Demorou muito tempo até perceber que o Jean Jacques de que tanto falavam meus colegas professores era na verdade o Rousseau.

SALA DE AULA: [risos]

PROFESSORA AMELIE: Toda vez que encontrava algum colega nos corredores na faculdade, eles me diziam “Passe em casa qualquer hora dessas”. E eu ia. E criava situações extremamente constrangedoras.

SALA DE AULA: [risos]

PROFESSORA AMELIE: Agora chega de causos de um estrangeiro no Brasil. Vamos à chamada.

[E assim, a professora chamava cada um dos alunos e anotava a presença. Até que chamou a aluna Marcela.]

PROFESSORA AMELIE: Marcela?

VIRGÍLIA: Falei com ela agora pouco e ela já está vindo.

PROFESSORA AMELIE [espantada]: Como assim já está vindo?

VÍRGILA [sem graça]: Ah, logo menos ela está na sala de aula.

PROFESSORA AMELIE: Nunca consegui entendi essa expressão em língua portuguesa “ela já está vindo”. Não é como no inglês ou no francês. O que significa exatamente essa expressão?

VIRGÍLIA: Significa que alguém que não está aqui pode chegar a qualquer momento e nós sabemos disso.

PROFESSORA AMELIE: Ah, é como se fosse um Messias, então?

VIRGÍLIA [entre risos]: Sim, sim.

[Alguns segundos depois, batem na porta da sala. É Marcela.]

MARCELA: Posso entrar, Professora?

[A professora responde afiramtivamente]

VIRGÍLIA: Eis que chega o Messias no meio de nós.

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FIM

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Basta um dia

Quiser eu que meu dia fosse apenas um eterno glissado progressivo. Que uma miséria cretina pudesse se transfigurar em algo prosaico e banal. E que esse algo prosaico e banal virasse um grande lance do destino.

Mas cá aqui dentro tudo pula. De flores lindas e coloridas contrastando com o verde das folhas no alto galho das árvores às folhas amarelas e secas craquelando no chão. Pula como se pulasse uma estação do ano em um mundo interno aquecido globalmente.

As desgraçadas euforias bipolares fazem com que meus dias sejam cada vez mais incompreensíveis. Em meu pequeno ritual noturno de deitar na cama e meditar a pequena oração “Hoje meu dia foi…”,  já não mais consigo responder a essa questão. A não ser por generalidades particulares tais como: confusos, estranhos.

De oitava em oitava, os mis, os fás e os sis dos meus atos corriqueiros fazem saltar meu temperamento. Agudizam minhas palavras enquanto que no compasso seguinte, agrava-se meu pesar.

Apesar da minha trilha sonora diária ser como um réquiem a me torturar, não quero que a música pare. Quero aprender o ritmo. Quero que a melodia me incendeie sem deixar bolhas. Ou que ao menos eu consiga marcar no pé todo o veneno de um pequeno dia.

Para não esquecer

Epistemologia das Ciências Sociais no século XX: funcionalismo, estruturalismo e qualquer outro ismo que conseguiu a incrível façanha de tentar superar os clássicos, mas que acabou sendo superado pela avalanche da histórica, antes que qualquer um dos clássicos o pudesse ser.

Decálogo de um contista perfeito

Por Horacio Quiroga

I
Crê num mestre – Poe, Maupassant, Kipling, Tchekov – como na própria divindade.

II
Crê que sua arte é um cume inacessível. Não sonha dominá-la. Quando puderes fazê-lo, conseguirás sem que tu mesmo o saibas.

III
Resiste quanto possível à imitação, mas imita se o impulso for muito forte. Mais do que qualquer coisa, o desenvolvimento da personalidade é uma longa paciência.

IV
Nutre uma fé cega não na tua capacidade para o triunfo, mas no ardor com que o desejas. Ama tua arte como amas tua amada, dando-lhe todo o coração.

V
Não começa a escrever sem saber, desde a primeira palavra, aonde vais. Num conto bem-feito, as três primeiras linhas têm quase a mesma importância das três últimas.

VI
Se queres expressar com exatidão esta circunstância – “Desde o rio soprava um vento frio” -, não há na língua dos homens mais palavras do que estas para expressá-la. Uma vez senhor de tuas palavras, não te preocupa em avaliar se são consoantes ou dissonantes.

VII
Não adjetiva sem necessidade, pois são inúteis as rendas coloridas que venhas a pendurar num substantivo débil. Se dizes o que é preciso, o substantivo, sozinho, terá uma cor incomparável. Mas é preciso achá-lo.

VIII
Toma teus personagens pela mão e leva-os firmemente até o final, sem atentar senão para o caminho que traçaste. Não te distrai vendo o que eles não podem ver ou o que não lhes importa. Não abusa do leitor. Um conto é uma novela depurada de excessos. Considera isso uma verdade absoluta, ainda que não o seja.

IX
Não escreve sob o império da emoção. Deixa-a morrer, depois a revive. Se és capaz de revivê-la tal como a viveste, chegaste, na arte, à metade do caminho.

X
Ao escrever, não pensa em teus amigos nem na impressão que tua história causará. Conta como se teu relato não tivesse interesse senão para o pequeno mundo de teus personagens e como se tu fosses um deles, pois somente assim obtém-se a vida num conto.