V.A.

Sejam bem-vindos a mais uma reunião do nosso amável grupo.

Hoje está uma noite linda, fria, mas linda.

Só por hoje, meus queridos, repitamos o nosso mantra:

Mais um dia. Somos Viventes Anônimos.

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Mais um dia em que consegui abrir os olhos no escuro e me levantar.

Mais um dia calcei o chinelo, mentalizando que pisava com o pé direito.

Mais um dia sorvi um gole de café amargo;

olhei para a cara do meu chefe e concordei mais uma vez com o que ele dizia;

engoli aquela comida barata e sem gosto;

sorri para pessoas estranhas;

exercitei meu corpo só para que ele não me deixasse na mão dia desses.

Mais um dia em que vi a vida acontecer na novela.

Mais um dia jantei sozinho e esperei o dia amanhecer.

Mais um dia de um Vivente Anônimo.

Obrigada por fumar

– Só o jornal hoje? Não vai levar o cigarro?

– Parei de fumar.

Até agora não sei quem mais se espantou com aquela frase: a pequena senhora da banca de jornal que há pelo menos 15 anos me vendia o par matinal, ou eu mesma, que depois de 30 anos resolvi assumir minha condição de ex-fumante.

– Nossa, que bom. Nunca é tarde não é mesmo?

– Essa coisa de me matar aos poucos estava indo rápido demais e não estava gostando do resultado, disse pensando alto. Ela me olhou estranhando minha morbidez.

– O importante é que você tem força de vontade.

– Humm, acho que não tenho não. Penso em fumar o tempo todo. Sinto muita falta.

E era verdade. Tomar um café se tornou simplesmente o ato de tomar um café, literalmente. Não havia mais uma pausa, não havia mais fumaças e cafeínas grudadas no esmalte do meu dente. Não tinha mais 10 minutos longe de tudo e de todos só para pensar. Não tinha mais o momento em que eu viajava no caminho da fumaça  (bom, pelo menos para isso ainda poderia acender um incenso. Ótimo.).

– Mas você já fez muito em parar. Agora é só se manter forte que você consegue.

– Não consigo sozinha, já tentei mas não consegui. Estou tomando remédio.

Ouvi um Ahh… ressoante que não distingui se era um leve espanto porque eu não tinha tido força de vontade o suficiente para fazer sozinha ou se era uma interjeição que representava que meu caso era mais sério do que ela pensava.

Resolvi que era hora de cortar a conversa logo. Aquela senhora estava me deprimindo na mesma dosagem da ausência do cigarro. Sim, não era apenas a nicotina. Afinal, aquele adesivo escroto cumpria essa função, além de denunciar minha seleta condição. Continuando, a questão era mais funda: era o ritual, era o pertencimento do cigarro aos meus dedos, por pouco tempo, por uma pequena eternidade. Eu lhe dava a chama da vida e lhe tirava a hora que bem entendesse. Quase sempre era no talo, no filtro, no último sopro, como deveriam ser todas as mortes. O pequeno e fedorento cemitério de bitucas continha pequenas existências, pequenos microcosmos, pequenos pensamentos sinceros, profundos e voláteis.

Todos os meus melhores pensamentos pensados no tempo de uma tragada, haviam ido embora, junto com meu mau hálito, minha falta de ar; junto com o mau cheiro da casa e com os cinzeiros nojentos. Os insights programados de 20 em 20 cápsulas haviam desaparecido junto com a vontade súbita de fumar depois do primeiro gole de cerveja. O desespero por sair no meio da noite, procurando um bar qualquer ou a conveniência de um posto de gasolina havia esvaziado minhas noites em busca de alguma coisa. E se não tivesse  aquele do maço preto? Vai o com gosto de veneno de rato mesmo.

Era a forma aspirar para o fundo dos meus pulmões toda a ansiedade.

Resta saber o que fazer com o ar puro que entra todo segundo dentro de mim.

Na garrafa

Será que por aqui você receberá meu recado?

Não suporto mais mensagens sem resposta, meu querido diário mudo.

Não quero mais ouvir a voz da mulher da secretária eletrônica.

Não quero mais pensar que a bina não deixou você atender o telefone.

Não quero que A cidade nos separe.

Não quero que a vida nos afaste.

Nunca me senti tão distante de você, em um momento tão difícil.

A única coisa que eu queria ouvir era: oi gorda.

Preciso de você na minha vida. Preciso sentir que faço parte da sua.

Preciso saber o que você anda ouvindo, lendo, pensando, falando.

Hoje assisti cordel encantado. Aposto que você assistiria comigo.

Você está se alimentando, se cuidando? Pensando em mim?

Lancei minha mensagem ao mar.

Será que por aqui você vai ver em letras garrafais:

ESTOU COM SAUDADES…