Die Welle

E passou como nenhum outro platonismo havia feito antes.

Nunca a oscilação do vagalhão foi tão grande entre os extremos de um ser que sente.

Nunca amou-se e odiou-se tanto em tão pouco tempo.

Nunca tantas lágrimas arderam na pele tentando fazer sumir do peito a onda.

E foi então que o mar ressacado sossegou em quatro braços.

 

SSvm

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo, distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

Dança da desilusão

Num misto de euforia pela descoberta e desencanto com o resultado, enfim encontrei a razão profunda da desilusão de toda uma vida inteiramente perdida. O fiapo de quase vida  que um dia tive, se perdeu e escorregou pelos vãos dos meus dedos magros e compridos. Na dança, num remelexo, caiu. E embaixo, só tinha ralo.

E passou muito tempo para que o cheiro subisse. A vida putrefada ficou no limbo, entre o esgoto e o chão. E fedida, ela gritava: trouxe comigo todos os seus sonhos, sua bosta.

O que mais me incomodava era o cheiro da verdade em suas palavras. Uma senhora tão jovem, mas já tão embolorada e com tamanha sabedoria, como pode. Sim, ela levou o que de mais onírico havia na minha existência. Levou os planos e deixou os desenganos. Levou consigo a fita do meu futuro ampla e duramente planejado. Deixou algo que eu não esperava e que não havia pedido. É como se tocassem a campainha com uma marmita de chuchu cozido e não ordenado. Só faria uma correção em suas palavras: não é que eu seja, assim, uma bosta. Virei uma bosta depois que você levou meus sonhos, sua puta.

E me largou aqui, com esse naco de realidade que me sombreia. Esses rótulos grudados no meu corpo. Quando venta, eles aparecem com força de cola e ficam, como se meu corpo fosse a mais bela das prateleiras. Como se a minha vida fosse um supermercado de pequeninices mal acabadas.

E essa porra dessa realidade fez uma sombra tão grande sobre mim que não sinto aconchego. Sinto frio. As frestas de sol que passavam por entre os galhos, não passam mais, ou passam cada vez menos.

E presa ao tronco da árvore só sinto os calafrios de quem não consegue mais sonhar.

Perda total

O maior sonho de Aninha era comprar um carro novo.

E juntou o dinheiro depois de muito ralar.

Trava, direção hidráulica, freios ABS, vidros elétricos. Completinho.

Tirou o carro da concessionária e pegou a estrada para estrear.

Sua felicidade só não foi maior porque estava gripada naquele dia.

Dirigia como se estivesse flutuando!!

De repente, ela deu um espirro e o carro capotou.

Maldita direção hidráulica.

 

Amora

Eu sou gata.

Sou muito gata.

Sou muito mais que gata.

Sou mais gata que a gata.

Porque sou gata sem ser gata.

E isso me faz ser cada vez mais gata.

Ton sur ton

Siga o prédio branco, dizia a indicação na placa de trânsito. Olhei ao redor e só via gradações de cinza. Chão, cinza escuro. Paredes em cinzas variados. Na altura dos meus olhos, fumaças acinzentadas atrapalhavam minha visão e acima dela, o negro do céu era pontilhado apenas por postes alaranjados.

Naquela hora do dia em que a noite já era senhora, não era mais possível ver os grafites nos muros ou as copas das árvores. De natural, só o cinza. Acesos os pontos brancos, vermelhos e laranjas trilhavam idas e vindas que não me pertenciam. À margem disso, na calçada cinza, eu era mais uma daltônica engolida pela mais moderna das cidades.