Saigripe

Claudinha nasceu em uma cidadezinha do interior mineiro.

Sempre comeu comida caseira, tomou remédios caseiros, ia na benzedeira e fazia simpatias.

Cresceu e foi para a cidade grande: São Paulo.

Depois de um tempo, cansada da rotina e da vida burocrática, abriu um bar.

Seu drink de maior sucesso era composto de pinga, mel e limão.

Ch(a)(e)ga

Queria fazer suar sangue. Queria que a batida soasse como um sino grande, velho e potente.

Queria que a unha na pele ardesse feito brasa incandescente e que deixasse um rastro rubro. Queria que o roxo fosse uma chaga, que fosse a minha chaga.

Queria que ela doesse o peso de uma cela, fria e alagada. A cada tremida no corpo, um resto de memória boa que se transformou em sofrimento.

A escuridão do sentimento traz consigo vontades sombrias e nefastas.

Será o fundamento do sublime sentir fazer querer amar e sofrer na mesma proporção?

Será o sujeito a primeira pessoa do singular ou sujeito indeterminado o agente do verbo enclausurar?

A cela, no seu quadradismo, faz tudo querer ser igual.

Mas jamais serei o que fui depois de tremer sozinha e calada.

Sorrio saudade em três atos

O jambeiro. Os ipês sem flores.
O espelho pastilhado. Os corrimãos amarelos repletos de fios.
As peredes cinzas. O verde sobressalta aos olhos. O azul do prédio docente ainda vige.
Muitos e milhares de bancos.
O jambeiro está em flores em frente ao espelho d’água refletindo o amarelo dos corrimãos nas pastilhas azul escuro.
O cinza é cenário. Ressalta as cores. As imagens sobressaltam.
Me sento no banco em frente ao espelho. Olho, olho, olho.
A íris se colore com a memória.
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Acabei de ouvir nossos risos ao longe, acabei de ver nossos olhos brilhando ao longe, acabei de ver nossos dentes adolescentes à mostra debaixo de um pé de jambo lindo e carregado.
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Lindo demais ver as palavas se transformando em imagens multicoloridas na minha cabeça!
Os meus dentes já não são tão brancos, meu sorriso não tem mais a mesma amplitude. Meus olhos são mais míopes, minhas olheiras mais fundas. Meu grupo de terapia agora é o eu sozinho.
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Tudo se foi e o jambo – oco e com gosto de perfume – ficou.
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“Todo pensamento deveria lembrar a essência de um sorriso”
(Éloge de l’Amour – Jean-Luc Godard)
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(T.L.M.F.P.M.V.H.P.C.)