Trava língua do cogito

Descarte

tudo como fez

Descartes.

Destarte,

desbaste

tudo o que

na vida

causa e não lhe causa

desgaste.

Desmate

tudo o quanto

possa e não possa originar um

desastre.

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De onde sai o Riobaldo

“Tive medo. Sabe? Tudo foi isso: tive medo! Enxerguei os confins do rio, do outro lado. Longe, longe, com que prazo se ir até lá? Medo e vergonha. A aguagem bruta, traiçoeira – o rio é cheio de baques, modos moles, de esfrio, e uns sussurros de desamparo. […]   Não pensei em nada. Eu tinha o medo imediato. […] ‘Carece de ter coragem…’ – ele me disse. Visse que vinham minhas lágrimas? Dói de responder: – ‘Eu não sei nadar…’ O menino sorriu bonito. Afiançou: – ‘Eu também não sei.’ Sereno, sereno. Eu vi o rio. Via os olhos dele, produziam uma luz. – ‘Que é que a gente sente, quando tem medo?’ – ele indagou, mas não estava remoqueando; não pude ter raiva. […] O chapéu-de-couro que ele tinha era quase novo. Os olhos, eu sabia e hoje ainda mais sei, pegavam um esquecimento duro. Mesmo com a pouca idade que era a minha, percebi que, de me ver tremido todo assim, o menino tirava aumento para sua coragem. Mas eu aguentei o aque do olhar dele. Aqueles olhos então foram ficando bons, retomando o brilho. E o menino pôs a mão na minha. Encostava e ficava fazendo parte melhor da minha pele, no profundo, desse a minhas carnes alguma coisa. Era uma mão branca, com os dedos dela delicados. ‘Você também é animoso…’ – me disse. Amanheci minha aurora.”

(Grande sertão: veredas)