Uma croniqueta da night

Era sábado à noite. Resolvi ir a uma boate (nomenclatura antiquada) ou melhor, numa balada (muito juvenil). Enfim, fui a um lugar fechado com um DJ e um monte de gente bebendo e dançando.

Quando cheguei e vi a enorme fila que estava para entrar no lugar, previ: é a catástrofe se anunciando pela noite.

Uma hora na fila vendo desfilar meninas com seus modelos que, de tão na moda, me pareceram falsos demais (ou fakes, para demonstrar que sou antenada com as novas tendências). Os meninos e suas roupas, trejeitos e conversas cada vez mais iguais.  Ainda nem tinha conseguido entrar e já tinha me irritado com as pessoas, com as conversas, com as brincadeiras torpes (exemplo: um garoto que empilhou as latas vazias de cerveja no telhado e elas quase caíram em mim).

Fila atrás de fila. Fila pra entrar no primeiro portão, fila pra entrar no segundo portão, fila pra pegar pulseira, fila para o banheiro, fila para fumar, fila para pagar, fila para o bar. Eram os momentos que me faziam pensar em quantos pisões dos saltos altos das meninas do Cambuí eu tinha levado, somado às  trombadas dos moços bombados do Alfaville.

Quando eu achava que nada de pior poderia me acontecer (depois de já não aguentar mais ouvir funk depois da terceira música), fui ao banheiro. Não levei bolsa porque achei que ia tocar umas músicas legais, eu ia querer dançar e ela ia atrapalhar. Enfiei cartões, carteira de motorista, cigarro, chave do carro e elástico de cabelo nos bolsos da minha calça jenas. Abaixei a calça (olha a desgraça se anunciando mais uma vez) e o maço de cigarros caiu no chão. Abaixei pra pegar e percebi que a minha carteira de motorista e os meus cartões de crédito tinham caído dentro da privada! Não sabia se ria ou se eu xingava. Acabei fazendo os dois ao mesmo tempo enquanto lavava todo mundo na pia.

Depois de tudo isso, juntamente com muitos adolescente suados porque o ar condicionado estava quebrado, um mojito muito doce e um sono bocejante que me acometia, achei que por bem era hora de ir para casa e evitar o que poderia ser evitado.

No caminho para casa (sim, eu sei, parece não ter fim), a fatídica equação verão + chuva + asfalto porcaria superfaturado = cratera cheia de água e indistinguível na madrugada etílica, não poderia resultar em coisa boa. Sim, pneu no chão.

Ainda tentei encontrar algum lugar para matar a minha fome. Pensei que a salvação da noite poderia estar num lanche bem gordo e suculento do Burguer King. Em vão.

Cheguei em casa, deitei na rede, acendi um cigarro e esperei o dia amanhecer.

Pedro Machuca!

Da série: referências.

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” – Levante-se – repetiu o professor – e diga-me seu nome.

O novato articulou, com voz indistinta, um nome ininteligível.

– Repita!

As mesmas sílabas indistintas fizeram-se ouvir, cobertas pelas vaias da classe.

– Mais alto! – gritou o mestre – Mais alto!

O novato, tomando então uma resolução extrema, abriu desmesuradamente a boca e lançou, a plenos pulmões, como se estivesse chamando alguém, esta palavra: Charbovary.”

(Flaubert, Gustav. Madame Bovary. São Paulo: Abril, 2010, p.15).

Já no jardim de infância

Ainda me lembro como se fosse hoje, com algumas nuvens nebulosas da memória, a primeira vez que a vi. Ela era linda e graciosa. Fiquei encantada e poucas coisas na vida me fizeram pensar tanto nela durante tanto tempo. Aquela imagem, à porta da escola infantil perseguiu meio imaginário, meus dias e meus sonhos, até que hoje, mais de 20 anos depois, lembrei dela de novo. E acordei fula. Detestei que o despertador tenha tocado. Queria ter ficado a manhã toda lembrando dela.

Ao chegar à escola, logo procurava por ela. Se não estivesse no meio das outras, era porque ainda não havia chegado. Aí, me postava no corredor e ficava esperando o tempo que fosse necessário. Toda vez que a porta azul royal de metal se abria, meu pequeno coração se enchia de esperança. É agora, pensava comigo. E na maioria das vezes não era. Quando estava quase desistindo, eis que ela aparecia triunfante. O corredor se iluminava todinho fazendo recolher minha pupila e meu corpo todo. Exaltada, tentava me posicionar da melhor maneira no corredor para que a pudesse ver no melhor ângulo possível. Sentia o corpo todo palpitar a cada passo em minha direção (ou melhor, era assim que eu gostava de pensar toda aquela situação, apesar de no fundo saber que ela passaria por mim e trataria meu olhar como ignóbil). Logo que aquele êxtase me assolava, depois dos míseros milésimos de segundos que os meus olhos se encontravam com ela, a diretora já me dava uma sacudidela e perguntava por que eu não estava brincando com as outras crianças. Corria, com medo da exposição. Preferia manter minha admiração no anonimato.

Sentava no balanço, alheia a tudo. Não queria saber da caixa de areia, nem da gangorra. Nada fazia sentido debaixo daquele céu. Só ficava lembrando daquela visão e de como tudo era mágico e bonito. Logo a professora chamava para entrar na sala de aula e eu deixava de pensar nela. Pelo menos até o dia seguinte. A diretora logo percebeu a minha permanência no corredor em detrimento das brincadeiras no parque. Passou a fechar a porta, o que me fez ficar alguns dias cabisbaixa e pensativa. Precisava mudar a minha estratégia.

Mas não foi fácil. Saíamos em horários diferentes e nossa hora do lanche também era outra. Matutei durante dias e semanas um jeito de poder vê-la de perto mais uma vez que fosse. Até que um dia, não sei por que cargas d’água, todos os alunos foram dispensados mais cedo e ao mesmo tempo. Não podia dispensar uma oportunidade como aquela. Podia ser a última – e de fato, foi –, já que o ano estava acabando e ela, provavelmente ia mudar de escola. Para espanto da professora, agarrei minha mochila em tons borrados de desespero e corri na frente de todos. Furei fila, pisei no pé, acotovelei meio sem querer, meio pra abrir caminho e cheguei, enfim, até o corredor.

Ela era linda. Parei suada e arfando diante dela. Roxa e não muito grande. Quadrada e com as bordas arredondadas, tinha uma alça embutida. Mas o que a destacava dentre todas as outras do mundo eram seus desenhos. Não tinha  nenhum super-herói, nem nenhuma boneca famosa. Eram apenas placas de trânsito. Em alto relevo. Da mesma cor do plástico. Eram placas e siga, pare, vire à direita, proibida conversão e afins. Simples assim. Que de tão simples, me fazia sorrir involuntariamente. Me desanuviava o cenho sem grandes esforços, me enchia de alegria e contentamento.

Depois de muito olhá-la e admirá-la, dias e dias, amontoada entre as outras lancheiras horrorosas que ficavam na escola – provavelmente incluindo a minha (digo provavelmente porque nem me lembro como era a minha), resolvi meio tímida, meio apreensiva com uma pitada de coragem súbita, ir ter com a sua dona e pedir para ver de perto, tocar a tão sonhada lancheira. Senti, depois de grande, uma sensação parecida com aquela, a da situação limite, quando parece que não resta mais nada a fazer nessa vida do que agir ali, naquele momento.

De nervosa que estava, minha abordagem pode não ter sido das melhores. Levei um não ecoante, algo parecido com um safanão que dissolveu no ar as minhas esperanças ainda nem juvenis. Resultado: não consegui ver com as mãos, da maneira como esperava, a tal da lancheira. Ironia do destino, anos depois me tornei amiga da dona da lancheira. Obviamente, ela não a possuía mais. Quando perguntei sobre a lancheira, ela me respondeu: não me lembro dela.