Se canta, profana

De Salvador ao Rio.

De Gracinha a Gal.

Da panela ao horizonte.

De solo a duo.

Caê.

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Irmandade:

Caetano e Bethânia? Carcará.

Chico  e Gal? Lily Braun.

Bethânia e Chico? Quase tudo.

Gal e Caetano? Mais que tudo.

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Vaca profana

Errática

Autotune

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Em décadas.

[Caetano compõe músicas para Gal, a musa.

Caetano faz músicas para  Gal, a voz.

Gal canta as músicas que Caetano fez para ela, a musa.

Gal canta as músicas que Caetano fez para ela, a voz.]

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A musa canta, em-si,  de-si, para-si, para-todos.

Um si maior e retumbante.

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Dialética bem feita:

compositor e instrumentista.

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Sempre delícia.

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As faltas

Vazio é vazio é pronto.

Nada mais, porque não há mais nada pra ter.

Nem as lembranças, que são afastadas insistentemente.

 

Se a presença é necessária, a memória não ameniza o oco que retumba por dentro.

Faltam palavras, falatam sorrisos.

E faltam pensamentos instigantes.

 

Não há como vislumbrar um horizonte multicolor.

Nem rir do que é ridículo.

Não há como planejar o contentamento.

Nem esperar pelo único óbvio que é bom.

Não tem como esperar pela noite que cai,

nem pela manhã que entra no meio da conversa.

 

Falta o mais importante, o devir: falta o querer ser.

Porque senão, não há querer.

Nem ser.

 

Um salve à pior de todas as solidões.

Capítulo CXIX

“Quero deixar aqui, entre parêntesis, meia dúzia de máximas das muitas que escrevi por esse tempo. São bocejos de enfado; podem servir de epígrafe a discursos sem assunto:

 

Suporta-se com paciência a cólica do próximo.

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Matamos o tempo; o tempo nos enterra.

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Um cocheiro filósofo costumava dizer que o gosto da carruagem seria diminuto, se todos andassem de carruagem.

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Crê em ti; mas nem sempre duvides dos outros.

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Não se compreende que um botocudo fure o beiço para enfeitá-lo com um pedaço de pau. Esta reflexão é de um joalheiro. 

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Não te irrites se te pagam mal um benefício: antes cair das nuvens, que de um terceiro andar.”

 

(ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. )

Bruxa

DEDICATÓRIA DO AUTOR

“Pois que dedico esta coisa aí ao antigo Schumann e sua doce Clara, que são hoje ossos, ai e nós. Dedico-me à cor rubra muito escarlate como o meu sangue de homem em plena idade e portanto dedico-me a meu sangue. Dedico-me sobretudo aos gnomos, anões, sílfides e ninfas que habitam a vida. Dedico-me à saudade de minha antiga pobreza, quando tudo era mais sóbrio e digno e eu nunca havia comido lagosta. Dedico-me à tempestade de Beethoven. À vibração das cores neutras de Bach. A Chopin que amolece os ossos. A Stravinsky que me espantou e com quem voei fogo. À “Morte e Transfiguração”, em que Richard Strauss me revela a um destino? Sobretudo dedico-me às vésperas de hoje e a hoje, ao transparente véu de Debussy, a Marlos Nobre, a Prokofiev, a Carl Orff, a Schönberg, aos dodecafônicos, aos gritos rascantes dos eletrônicos – a todos esses que em mim atingiram zonas assustadoramente inesperadas, todos esses profetas do presente e que a mim vaticinaram a mim mesmo a ponto de eu neste instante explodir em: eu. Esse eu que é vós pois não aguento ser apenas mim, preciso dos outros para me manter de pé, de tão tonto que sou eu, eu enviesado, enfim, que é que se há de fazer senão meditar para cair naquele vazio pleno que só se atinge com a meditação. Meditar não precisa ter resultados: a meditação pode ter como fim apenas ela mesma. Eu medito sem palavras e sobre o nada. O que me atrapalha a vida é escrever.”

(Lispector, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998, p.9)

Ana

Um pouco cansada, com os livros deformando a mochila cinza, desceu mais uma vez aquela avenida grande e arborizada. Ela era seu Jardim Botânico. Um caminho que fizera durante anos no sentido contrário, agora, depois de quase uma década, podia vê-lo como que do avesso.

E como o avesso de um bordado é que mostra a destreza da costureira, o caminho de volta foi o que de mias profundo tinha feito até então. Pensou em como tinha sido o seu dia, de como era bom poder sair do trabalho com a sensação de que, apesar dos pesares, estava cumprindo seu dever. Pensou no que iria comer ao chegar em casa, pois para que o trabalho seja feito no tempo necessário, muitas vezes uma refeição fora de hora é imperativo. Pensou que deveria checar a agenda ao chegar em casa para não esquecer dos afazeres do dia seguinte. Senão, seria como um míope que perde os óculos, tateando nervosamente,  tentando lembrar onde estaria o desejado objeto metálico.

Quando levantou a cabeça, percebeu o caminho que estava fazendo. As mesmas casas, as mesmas árvores.  A avenida foi também o seu cego mascando chicletes, com sua goma na solidão. A cada passo, era como um movimento do maxilar. A cada mordida, um naco de sofrimento se dissipava. Pegou o chiclete para si. Mascou até doer a boca. Ruminou aqueles anos de um caminho que parecia não ter mais volta. Deglutiu aquele discurso torpe.

Olhando na calçada, viu o cego, a mulher do casaco marrom e a barata. Olhavam pra ela condescendentes. Suas existências se cruzaram, talvez, pela primeira vez, para fora das palavras. E alguma coisa tranquila se arrebentara dentro e fora dela. Quanto mais próxima da praça da esquina ela chegava, mais apertado ficava seu coração em perceber a sutil diferença entre notas e moedas, entre afagos e obrigações. Atou-se algo fundamental, enfim. E se achara, perdida nos escombros. Foi como se deparar com um tesouro verdadeiro no meio de um baú cheio de moedas de ouro.

No percurso corriqueiro, tinha se transformado numa pirata de si mesma, pilhando seus sonhos e seu passado. A vertigem de bondade que havia se apoderado dela ia se dissipar, ela sabia. Porém, aquele sopro leve levou consigo pesos incomensuráveis. Ao cavocar no rosto dos transeuntes, encontrou os espelhos epifânicos de sua vida.