quinto disco, última música do lado B

Lindeza

Coisa linda é mais que uma idéia louca
Ver-te ao alcance da boca
Eu nem posso acreditar
Coisa linda minha humanidade cresce
Quando o mundo te oferece
e enfim te das tens lugar
promessa e felicidade, festa da vontade
nítido farol, sinal novo sob o sol, vida mais real
Coisa linda, lua lua lua lua
Sol palavra danca nua, pluma tela petala
Coisa linda, desejar-te desde sempre
ter-te agora um dia e sempre, uma alegria pra sempre

(Caê)

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O apanhador de desperdícios

“Uso a palavra para compor meus silêncios
Não gosto das palavras
fatigadas de informar,
dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática:
Eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.”

(Manoel de Barros)

AWL

Essa noite sonhei que tinha um emprego, um casamento e um carro.

Quando acordei, vi uma sala cheia de espelhos quebrados.

Os estilhaços iam furando meus pés conforme eu corria procurando a saída.

A morte e as mortes de um medíocre escritor

O consagrado autor se levantou numa manhã ensolarada. Bem disposto e delicadamente inspirado, levantou e espreguiçou-se – algo que fazia apenas em noites bem dormidas e em manhãs promissoras. Saiu ao jardim e respirou o ar puro da manhã. Admirou mais uma vez a genialidade da natureza em misturar de forma sublime o céu azul com as folhas verdes na copa de uma mangueira. Decidiu que como aquele era um dia especial, iria tomar o  desjejum que mias gostava: queijo branco e café preto. Não apenas pelo contraste estético e pelo joguete das cores, mas pela confluência de sabores ímpares que pareciam explodir em êxtase dentro de sua boca. Se deliciou com aqueles minutos solitários e silenciosos. Encheu mais uma vez a caneca de café e se dirigiu à sua mesa de trabalho. Durante os anos, tentando e sendo escritor, adquiriu o hábito de escrever seus poemas em pé. Para fazer as tais e tão sonhadas paisagens com os sentimentos – assim como Pessoa – nosso escritor também percebeu que a energia fluía melhor no seu corpo quando estava em pé. Tratou, portanto, há alguns anos atrás, de procurar uma mesa antiga de arquiteto. Achou num bazar de móveis antigos. Pagou caro, mas nada que pudesse ser mesurado pelo grau de inspiração que aquilo lhe propiciava. Se aproximaria, assim, mais de seu mentor? De seu guardador de sonhos? De seu arquiteto de sentimentos? Naquele dia, debruçou em sua mesa, estirou um papel branco em sua frente e empunhou a caneta. Deu um gole no café e pensou em Fernando Pessoa. E isso o fez pensar nos seus próprios heterônimos. E, de repente, o que antes parecia ter sido uma saída de mestre para seus conflitos de linguagem e de desejo, pareceu-lhe agora algo grotesco e sem sentido. A genialidade cabe a quem cabe e não a quem quer que ela caiba em si. Seus heterônimos não passavam de cópias bem feitas de si próprio. A falsidade de suas palavras começou a pesar mais do que comum. Não era a primeira vez que ele tinha uma crise de identidade enquanto escritor. Tanto que numa dessas é que nasceram os tais outros eus. Porém, dessa vez o que antes poderia ser visto como uma crise necessária à sua existência de escritor e uma possível auto-crítica ao seu próprio método de traduzir sentimentos, colocou-se de forma aguda. Mais firme e impiedosa, arremessou em sua cara toda a falsidade escondida atrás daquelas palavras. Mais do que um fingidor, ele era um canalha, um falastrão. Um ser medíocre que queria apenas encher de circunlóquios os desejos mais diretos e imediatos. Nunca fora um poço de virtú, mas achou era chegada hora. Era o momento de jogar fora todos os heterônimos, seus eus-líricos, suas palavras vãs e seus afãs por sublimarem-se. Se é para meu bem e felicidade geral, digo que basta.