era quase dia

Bem de perto, para ninguém ouvir, cochichei no seu ouvido não quero que seja só um selinho. Não queria que ninguém ouvisse e que só ela sentisse o meu sussurro desejoso dela. Riu sem graça num misto de espanto e curiosidade pra ver o que mais viria depois daquela pequena revelação. Diante daquilo, resolvi apostar alto na esperança que minha cartada, tão longamente planejada durante noites em claro sonhando com o corpo dela colado no meu, não fosse em vão. Já fazia um tempo que nossos olhos não mais se encontravam. Parecia ser uma tentativa mútua de evitar o inevitável. Sabíamos do perigo que seria se uma de nós resolvesse dar, enfim, o passo decisivo. Seria apenas necessário um milésimo de segundos para que aquele encontro, aparentemente etéreo, nos fizesse sacudir uma gama de desejos internos tão durante escondidos e camuflados ao longo daqueles anos. Eu sabia, ela sentia e ninguém mais no mundo poderia perceber. Era um segredo gritante compartilhado no mais profundo silêncio de nós duas. Naquela noite entorpecidamente animada, achei que era hora de dar um basta no platonismo. Um pouco para fazer transbordar o desejo contido, um pouco porque a reciprocidade era palpável. Deu-se, pois, num impulso de sedução estrategicamente moldado pela atmosfera etílica que nos rondava. Ela riu com culpa e com vontade de entrar no jogo. Seus olhos inebriantemente semicerrados eram sustentados agora por umas maçãs do rosto deliciosamente coradas, o que a deixava ainda mais sexy. A concretude daquele desejo era impossível, bem sabíamos. Convenções sociais, histórias conjuntas, passado nebuloso. Tudo parecia nos levar para lados opostos. Mas a situação, de insustentável que estava, pedia medidas drásticas. Não consigo mais pensar em outra coisa que não seja a sua boca deslizando pelo meu corpo inteiro, disse lenta e provocativamente. Ela me arregalou uns olhos arfantes e incrédulos. Resolvi continuar porque não havia mais alternativa possível para aquela situação. Você sempre me aparece nua e a vontade que tenho é de tocar seus lábios, seus seios e por dentro da suas coxas, de leve e bem devagar, até que eu consiga te sentir molhada. Quase pude ver seu coração palpitando de querer sair de dentro do peito. Inesperadamente, respondeu com a boca colada no meu ouvido: não vai nem precisar esperar, já estou molhada.  Alguém quer cerveja, perguntou uma voz que pareceu ser vinda de outra dimensão para sugar momentaneamente aquele transe. Demorei para desviar o meu olhar do dela e disse sim, sem mover um músculo sequer. No momento que senti meus pés tocarem a terra firme, desviei o olhar envergonhada. Levantei e quase quis me arrepender de ter sido tão invasiva. Fui até o banheiro para respirar e pensar um pouco. Não sabia mais com que cara eu iria encará-la de novo. Respirei fundo e perdi a noção do tempo que havia ficado trancada ali dentro. Sabia que tinha voltar, encarar e esperar a noite virar dia. Abri a porta do banheiro e me deparei com ela do lado de fora. Um misto de susto e excitação me assolou o peito enquanto ela me empurrava para dentro, fechando a porta trás de si. Encostou as minhas costas na parede e disse com os lábios grudados nos meus você não poderia ter feito isso comigo. Me beijou intensamente deslizando profundo a sua língua na minha. Seus dedos corriam pela minha nuca e subiam pelos meus cabelos me fazendo arrepiar. Mordia os meus lábios como se quisesse sugar todo aquele desejo que saía de dentro de mim. Enfiei minha mão por baixo da sua blusa e segurei os seus seios que de grandes e enrijecidos, quase podia lhes ver a cor. Ela roçava seu sexo em mim deliciosamente me fazendo gemer no seu ouvido. Gozamos juntas entre espasmos e tremores e gritos abafados.

parto

disponível em: http://manualdominotauro.blogspot.com.br/search?updated-max=2012-09-24T10:49:00-07:00&max-results=7pari meu sentimento, com cuidado para ele não se desmanchar. afinal, ele me faz saber quem – ainda – sou. ao menos por um tempo, quero mantê-lo por perto, em cativeiro, pra que eu consiga discernir entre o que foi e o que sobra. um dia, quando meus braços cheios de bíceps e tríceps estiverem inchados o suficiente, farei como as índias de uma aldeia do norte do país: vou me pendurar no galho de uma árvore frondosa e vou parir meus sentimentos. quero sentir a força dos meus braços trêmulos e do meu ventre pulsante expulsando aquele mar de banalidades pesadas para o chão. quero ver de camarote, lá de cima, tudo se espatifar feito cristal caro fino feito folha. quero saborear cada momento em câmera lenta e enquanto eles caem, quero pensar em cada pequeno gesto aparentemente inocente e corriqueiro, que fez com esses sentimentos se transformassem num monstro de mil cabeças. quero ouvir seus gritos e quero rir de sua desgraça. quero sentir a vingança de próprio punho: eu te criei, eu te pari, eu te destruí.