incógnitas

pessoas-equações que habitam a mente de um corpo inerte:

inequação inexata em um plano indecente.

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sentido passível de compreensão só em croata:

consoantes infinitas para designar seu coeficiente alucinógeno.

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o resultado é uma equação de quinto grau

explodindo em uma supernova na minha canela.

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                                                                                                                                                                                                                                            Para C.D.

alô torcida do flamengo, aquele abraçaço!

“Dei um laço no espaço,
Pra pegar um pedaço,
Do universo que podemos ver.

Com nossos olhos nús,
Nossa lentes azuis,
Nossos computadores luz.

Esse laço era um verso,
Mas foi tudo perverso,
Você não se deixou ficar.

No meu emaranhado,
Foi parar do outro lado,
Do outro lado de lá, de lá.

Ei! Hoje eu mando um abraçaço!

Um amasso, um beijaço,
Meu olhar de palhaço,
Seu orgulho tão sério…

Um grande estardalhaço,
Pro meu velho cansaço,
Do eterno mistério.

Meu destino não traço,
Não desenho, disfarço,
O acaso é o grão-senhor.

Tudo que não deu certo,
E sei que não tem conserto,
No silêncio chorou, chorou…

Ei! Hoje eu mando um abraçaço…

Ei!”
(Caetano Veloso)

conto de fadas errado para a criança errada

– Era uma vez…

– Por que toda história que os adultos contam começa com “era uma vez”?

– […] Porque é pra dar a impressão de que essa história se passou há muuuito tempo atrás. Posso continuar?

– Pode.

– Então, era uma vez, num reino distante, um rei e uma rainha que tiveram uma linda filha. E para comemorar, chamaram todas as fadas para visitar a linda princesa. Menos uma delas, uma bruxa que ficou muito brava e resolveu lançar um feitiço sobre a criança.

– Não gosto de bruxas.

– Por que não?

– Porque elas são feias e más.

– Nem todas são assim…

– São sim. Tem a da Branca de Neve, a do João e Maria e essa aí que você tá falando.

– Ah, mas é que as bruxas são deixadas de lado, ninguém acredita nelas, acham que elas só fazem maldade. Mas algumas faziam feitiços como as fadas, só que não eram reconhecidas por isso. Posso?

– Pode.

– Então, ela disse que quando a princesa crescesse, ela ia espetar o dedo em uma roca e…

– O que é uma roca?

– […] Uma roca é um instrumento que serve pra fiar.

– Fiar?

– É, transformar algodão em fios pra fazer roupas.

– Tipo uma máquina?

– Isso, só que naquela época não tinha máquina. Era manual. Entendeu?

– Aham.

– Bom, aí o rei ficou desesperado e mandou queimar todas as rocas do reino pra que a filha nunca tocasse em uma. Só que a bruxa foi muito esperta e guardou a última roca do reino no alto de uma torre escondida de todos.

– Quantas torres tem um castelo?

– […] Depende. Pode ter muitas. Depende da riqueza do rei. Quer que eu continue?

– Sim.

– Muitos anos se passaram até que a princesa cresceu e se transformou numa linda jovem. Um dia, caminhando pelo palácio, chegou até a tal da torre e encontrou uma velha senhora que estava fiando numa roca. A princesa, muito curiosa, tocou na agulha da roca enfeitiçada e dormiu durante 100 anos.

– Impossível.

– Por que impossível?

– Porque ninguém dorme por 100 anos.

– Mas a roca estava enfeitiçada.

– Mesmo assim. É impossível ela dormir durante 100 anos inteiros porque senão ela morreria de fome.

– […] Ok. Você venceu. Vamos jogar bola?

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