a paixão segundo CL

cl

contrariando o espaço-tempo que a racionalidade pura e científica insiste em ditar, eu os vi. primeiro de relance, depois como um imã. me retorceram a boca do estômago e me deram vontade de chorar calafrio e falta de ar. negando, arfando e me deliciando.

estavam lá, puxados e perdidos.

Eu Poêmo no Inverso de mim

Para e com o Victor

.

O que sobrou de eu

nesta perdição desvairada e à deriva,

inteiro sem norte alguma sorte?

.

Quando passarear isso tudo,

os olhos estarão voltados pra trás

admiravilhando o rastro da destruição.

[Rastro delicioso e traumático

de uma aurora boreal apocalíptica]

.

Aurora,

vem raiando e anunciando o terrô!

ÔôooôôÔ!

bloco do sanatório geral já raiô!

ÔôooôôÔ!

.

Venha você também, que a minha mente já foi!

Entoe madness hinos pela eternidade afora.

(ou pela via irremediável da destruição adentro)

.

Ele, o poema, tem tom.

Às vezes ele escorre escapando em ilustração,

que nem grito gritado no batimento do pulmão.

[é re-ler e é re-ver pra feder o tímpano!]

.

– Donde que um oco cria, dona moça?? Eco de alma entorpecida?

– Uai, o oco reverbera ecos dissonantes, sô.

buk

ó musa dos meus versos chulos!

tu extrapolastes os olhos capitulados

e a ressaca em mim virou ser puro.

.

ao mundo junkie me curvo

como um ser desesperado.

acatando o que vem do escuro

do meu peito arrebatado.

meu pequeno vazio

certo dia anoiteci enluarada e com uma vontade louca de compartilhar a minha existência com um outro ser. saí na rua em busca desta pequenice que pudesse me servir de companhia para as horas mais herméticas. encontrei-o, pois, num canto. estava só mas com uma visível vontade de se acoplar a outro ser. peguei-o e resolvi chamá-lo de vazio. seus tons escuros logo se misturaram com um certo sorriso colorido que eu escancarava em fotos noturnas. meu pequeno vazio se achegou a mim e eu, sozinha que estava, me afeiçoei a ele. passamos a conviver cotidianamente. nossa existência passou a se confundir, mas eu não me importava. estava tão feliz de tê-lo comigo que prometi, mais a mim do que a ele, que preencheria meu pequeno vazio com tudo o que estivesse ao meu alcance para que ele ficasse bem. saíamos juntos bar em bar. queria alegrá-lo ebriamente. mostrei a ele as loucuras e vaidades dos secos e molhados que a vida noturna pode oferecer. no começo, foi suficiente. aquele ainda miúdo vazio se contentava  e eu, regozijava por ter conseguido preenchê-lo no rolê passa a régua e dá pro santo.  porém, meu vazio cresceu, como crescem todas as criaturas bem alimentadas. e ele foi ficando cada vez maior. no começo, senti orgulho por ter criado um ser  pleno. depois, ficou difícil lidar com o vazio. suas exigências eram cada vez mais complexas. tentei de todas as formas sanar suas necessidades. tentei amores forjados, dores idealizadas, corpos penetrantes, toques suavizantes. mas nada havia de fazer aquele vazio ser preenchido. não pela quantidade. ele simplesmente não se contentava com qualquer coisa. não bastava ter uma ideia mirabolante e jogar no vazio. ele queria mais. ele queria completude. ele queria coisas significativas. ele queria amor. procurei nas esquinas mais sujas, nas caçapas de sinuca, nos cases xexelentos de violeiros de rua, nos chocalhos das crianças,  na arte requintada dos grã-finos, nos filmes culturets, nas ruas modernas e soturnas. mas ele jamais se alegrava. com o passar dos dias, nossa convivência tornou-se impossível. fazia tudo por ele e não recebia o mínimo de contentamento daquele ser que criei com tanto afinco. um dia, cansada de tantas cobranças e requisições desmesuradas, decidi abandoná-lo. não na sarjeta para a fada da calçada como fazem com o que não tem mais utilidade. minha formação cristã jamais me permitiria tal feito. decidi apenas conviver com aquela imensidão que havia se transformado o meu vazio. todos os dias quando me olhava no espelho, via o buraco que havia em mim. convalescia por alguns míseros segundos e aceitava nossa existência contígua, como uma casa geminada sogra-nora. deixei para que o tempo se encarregasse de encher aquele vazio. não sem dor mas com um silêncio que significava o limite do meu dispêndio de energia.

http://www.youtube.com/watch?v=XU6UdVI9B7I