gozo em te ver tão cara a cara assim

ah, o imperativo do gozo.

se antes havia repressão, agora é só pressão.

quanto, quem, como, onde, por que?

um séquito de uma população economicamente ativa

se questionando sobre a quanti/quali da

população sexualmente ativa.

se não há mais critérios para o sexo

não há de haver espaço para o amor.

como conciliar hedonismo corporal

com obsolescência sentimental?

me passe a manteiga, marlon.

quem sabe assim escorrega-se sem atrito

o uso dos corpos alheios como forma

de corresponder aos anseios e necessidades

do sexo na modernidade.

se jogue no mar e se embrenhe na lama, lucia.

aprenda a dizer não mesmo quando o imperativo social diz sim.

aprenda a dizer sim quando a mente diz não.

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na caixa

a vida segue nas entrelinhas como uma planta busca um facho de luz na cortina furada da janela. os espaços vagos entre uma linha de realidade concreta e outra são constantemente preenchidos pela imaginação esquizofrênica de um ser que sonha com cobertas ao longo do dia, e realiza esse sonho à noite para adormecer em outro mundo. é uma virtualidade forçada que faz a realidade querer se projetar numa tela. ao se projetar, salta aos olhos em arrebates periódicos, o que faz a vida virtual-sacal ser constituída por espasmos de aflição. a palavra substitui o tête-a-tête, mas como saber se há leveza no sorriso ao olhar um quadro de chagall? como saber se há complacência sincera ao ouvir um verso de cartola? quem me responde é a cabeça que cria, a cabeça que move e a cabeça que faz girar o sonho uníssono de sentimentos conflitantes. acredita-se na descrição impessoal contraposta à concentração desmedida de atributos. nutre-se o sonho para que a realidade, ausente e distante, não desfaça seus anseios criados intencionalmente.

equívocos linguístico-acadêmicos

sempre achei que lucien goldmann fosse uma mulher.

.

sempre achei que ortega y gasset fossem duas pessoas.

(como deleuze e guatarri).

.

sempre tive dificuldade em pronunciar corretamente lukács.

[lukács – lúkacs – lukáti – lúkati – lukáxi – lúkax – lukáx]

para um ser ausente

o mestre caeiro me disse pra raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, desembrulhar-me e ser eu. foi o que eu fiz. eu tinha um segredo, só meu, assim como um professor coloca whisky disfarçadamente na sua xícara de café antes de entrar na sala de aula, assim como a dona de casa coloca seu vestido mais bonito e sai sem calcinha num dia de verão. mas ele foi revelado e o que eu mais temia aconteceu: descobriu-se que eu te amava. e que todo o meu ódio escondia uma admiração profunda. que toda a minha raiva era o puro creme da negação de que compartilhávamos histórias e sentimentos. foi como num sono bêbado, tateante, abri a janela de uma tarde de outono. e lá estava um passado colorido com as tintas que possuíamos, com lágrimas que cabiam e com brigas que podiam. o mundo redemoinho veio e nos roubou a inocência. nos levou para pontos extremos de uma estrada de ferro abandonada. cada um em uma estação olhando o horizonte vazio. sei que você me espera com uma piada pronta pra me irritar. assim como eu te espero como uma ironia pra te alfinetar. como fazer com que os alteres se sentimentos colecionados ao longo do tempo sejam removidos para que sobre apenas um jipe velho escrito “nenê cucanha”? quero sentir a sua sombra como proteção e não como supressão. quero amar suas fraquezas, não porque são fraquezas, mas porque são suas. quero te amar sinceramente não porque todos amam – ou fingem amar – mas porque eu te reconheço no meu riso e nas minhas máscaras. você me ensinou um jeito de viver mas que ao viver, me separou de você.

– na terra de gigantes, és o mais belo e tens o avesso de um aprendiz de ponto cruz. talvez sua perfeição desejada e não atingida me faça te ver como um monstro de coração de pelica.