última chamada

“atenção senhores
passageiros
desse mundo cão
atenção todas as casas de penhores
lojas de horrores
cabarés falidos
prostíbulos imundos
privadas públicas
hotéis chifrins
motéis de quinta categoria
casas de massagens suspeitíssimas
saunas de todas as faunas
e sociedades anônimas
junkies & bichos escrotos
o que de pior há

e atenção todas as tribos emergentes
ultra-elegantes
colunáveis e eternamente publicáveis
madames da mais alta sociedade
artistas hollywoodianos
coronéis de cem mil réis
e homens de hum bilhão de dólares
hóteis de luxo com cascatas
spas com cavalos alados
boates com lindas mulheres
mercedes, champagne e caviar
shopping-centers e edifícios inteligentes
o que de melhor há

estamos no mesmo barco
mesmo charco
mesmo arco
flecha única e certeira
no seu coração!

passageiros
desse mundo cão…”

carito

pelo arrependimento crônico ou pelo descabelamento?

se lembraram de mim, quem sou eu pra dizer o contrário?

“Cheguei em casa
Toda descabelada
Completamente arrependida
Do que aconteceu
Tomei cachaça
E fumei como
Maria fumaça
Completamente arrependida
Do que aconteceu
Não teve a menor graça
Tudo isso eu sei que passa
Mas não passou…
Eu não sou nenhuma santa
Toda bêbada canta”

(Silvia Machete)

http://www.youtube.com/watch?v=Tjb1_xSV9-Q

be-atriz

Seu maior sonho sempre foi ser uma artista. Oscilava entre querer ser cantora ou atriz. Acabou optando pela segunda opção porque sua voz não era lá daquelas que pudessem ter grande notoriedade. Fez cursos preparatórios, oficinas de dramaturgia, leu obras de renomados teóricos das artes cênicas. Mas papel mesmo, nunca conseguiu nenhum. Amargurava ver colegas seus menos competentes com papéis alavancadores. Se via deitada no quarto da pensão em que morava rodeada de bitucas e copos manchados de batom, e pensava que sua carreira já era decadente antes mesmo de ter começado. Tentou papéis no teatro, fez testes no cinema e até figuração na tv. Mas não deu nem pra comerciais de pasta de dente. Era fumante.

Certo dia, tocou o telefone. Era Ziel, um agente que conhecera numa festa. Ele sempre participava de trabalhos nada ortodoxos, isso ela já sabia. Pois foi algo inusitado que ele propôs: precisavam de um personagem para um livro. Um papel, finalmente. Ele assentiu com ressalvas. Não era bem um papel interpretativo comum. Eles precisavam mesmo era de um personagem. E para um livro. Confusa, mas desesperada que estava, quase concordando, perguntou qual era a história. Sobre desamores, ele respondeu. Mas todas as histórias são sobre desamores ou amores que não dão certo – até a cena final, claro. Ficou de mandar o roteiro com mais informações sobre a personagem. Disse apenas que deveria representar a si mesma com alguns toques de loucura, uma dosesinha de obsessão e sinais de paixonite aguda. Dormiu com pitadas de uma esperança desconfiada.

Ela recebeu o roteiro das mãos de um boy na manhã seguinte – era manhã porque tinha acabado de acordar, mas já passava do meio-dia. Logo nas primeiras páginas viu que realmente havia uma serie de amores, casos e paixões que não deram certo. Seu papel aparecia quase no fim. No terceiro capítulo. E viu que era mais uma coadjuvante. Como todas as outras personagens, era mais uma tola a cair de amores pela protagonista. Se compadeceu da condição cruel da sua personagem e ligou pro agente. Queria um papel de destaque, Ziel. Não sou como as outras. Calmamente, ele disse que o roteiro não estava fechado. Que a sua personagem ainda poderia ganhar destaque no decorrer da história. Mas que tudo dependia da sua atuação, empenho e dedicação para o desenrolar dos fatos. E quem é que escreve? A própria protagonista, a senhora Ficken.

Pediu o contato dela. Tivera algumas ideias na madrugada insone e queria se encontrar com ela. Depois de inúmeras tentativas através de mecanismos variados, ela conseguiu. Me encontre no show de jazz que haverá no fim de semana. Aguardou ansiosamente já que poderia ser a sua grande chance. Foi carregada de boas intenções, mas a senhora Ficken era puro distanciamento. Tentou diversas formas de abordagem, mas nada parecia funcionar. A tal mulher estava irredutível e a pobre atriz não conseguia convencê-la de que sua personagem era diferenciada. Mas a jovem era ambiciosa e não estava disposta a desistir perto de uma chance tão grande. Todos os dias, mesmo sabendo da possibilidade da não concretização do seu intento, ela conversava e discutia com a senhora Ficken. A vida imita a arte, a autora lhe disse. E quando percebeu, já estava completamente apaixonada por ela.

Soube mais tarde, depois de muita tormenta e sofrimento de amor, que essa era a artimanha usada pela senhora Ficken para conquistar todas as personagens. Ninguém sabia ao certo se era voluntário ou não. Fato é que havia um séquito de seres que já haviam se apaixonado, que ainda estavam ou que viriam a estar por aquela misteriosa mulher. A jovem atriz enfim, conseguira seu famigerado papel. Talvez não do jeito que queria, não como esperava nos seus mais tenros sonhos. Mas havia valido a pena só por aqueles ocasos compartilhados nas tardes de inverno.