As cores da Natureza

A Natureza sempre foi uma grande pintora. Andava sempre com o arco-íris, que era sua paleta de cores. Era reconhecida desde a Via Láctea até as galáxias mais distantes como uma das artistas mais renomadas do universo. Suas obras refletiam a sua mais expansiva alegria: a grama era de um roxo profundo; suas maçãs, de um azul royal incrivelmente apetitoso; mas seu maior orgulho era ter colorido o mar de um amarelo resplandecente.

Porém, um dia, a Natureza teve uma grande decepção amorosa. Ficou triste como nunca havia ficado antes e chorou muito. Chorou tanto que as suas lágrimas borraram todas as suas criações. Depois de alguns dias, todas as coisas perderam a cor e a Terra se transformou num branco intenso. Quando finalmente saiu do quarto, só conseguiu perceber que era noite porque a Lua, que era grande fã da Natureza, começou a conversar com ela. A Lua pediu pra que ela voltasse a pintar e que o mundo ficava lindamente colorido pelas suas mãos. A Natureza ficou comovida, mas disse que não se lembrava das cores que as coisas tinham antes. Calmamente, a Lua disse pra que ela não se preocupasse e que o mais importante era ela pintar livremente, de acordo com o que ela estava sentindo.

Se sentindo viva de novo, a Natureza pensou que a combinação do céu azul com as folhas verdes das árvores seria fascinante e o mar poderia ser a junção dessas duas cores. A Lua sugeriu que ela usasse o rosa para as rosas e o laranja para as laranjas, assim ela não se esqueceria das cores novamente.

Aos poucos, tudo na Terra voltou a ter novas cores. A única coisa que a Natureza não pintou foi a Lua. Estava tão grata pela ajuda no momento mais difícil de sua vida que decidiu deixá-la com aquele brilho cintilante e pintou o céu de preto para que a Natureza se lembrasse sempre da prova de amizade que foi dada pela Lua.

chuva celeste

Há muitos zilhões de anos atrás, o grande Planeta de Fogo se apaixonou pela belíssima Estrela de Gelo. Apesar de ser um amor impossível, ele lhe soprava fagulhas galáticas e em troca, ela piscava seus longos cílios fazendo nevar flocos brilhantes de neve.  Um dia, Estrela de Gelo amanheceu menos radiante e começou a tremer. Aos poucos, pequenos fragmentos coloridos começaram a tomar o céu ao seu redor. Todos se aglomeraram para ver a partida da Estrela de Gelo. Inconformado com a situação, o Planeta de Fogo, mesmo sabendo do risco, se aproximou de sua amada e a beijou. Imediatamente, todo o fogo de sua superfície se condensou e o Planeta de Fogo virou um enorme bloco de pedra. Logo após o primeiro e único beijo de amor, a Estrela de Gelo explodiu no céu numa das nebulosas mais incríveis já vista por todos. O Planeta de Fogo ficou frio e triste por dentro. Mas, ainda assim, de tempos em tempos, relembra o lindo amor que teve soprando fragmentos de si mesmo no céu, como fazia para a Estrela de Gelo. E foi assim que nasceram as chuvas de meteoros.

dos troncos

“Deus disse: Vou ajeitar a você um dom:
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.
Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águas tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras.”

(Manoel de Barros)

pneumático

Carlos era um trabalhador. Um pneu que rodava o país inteiro a serviço de sua empresa. Era dedicado e fiel. O tempo passou e Carlos foi se desgastando. Ficou velho e careca. Por isso, foi descartado pela empresa. Carlos ficou arrasado. Não suportaria tanto tédio. Quis se matar.

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Marina era uma linda e vívida criança. Adorava vento no rosto. Estava sempre solitária. Um dia caminhava pelo bairro e viu uma frondosa árvore. Em um de seus galhos, viu um balanço de pneu. Marina nunca mais se sentiu sozinha.