é pique é pique

dos melhores presentes improváveis:.

– você poderia ser o avatar dessa geração

– queria estar com você agora.

– seu eu pudesse, te daria uma kombi.

– queria poder te dar um abraço hoje.

– se eu pudesse, plantaria uma alameda de acácias pra você.

circus

ingresso

não era um circo de horrores desses com mulher barbada, anões gêmeos e criaturas estranhas. era um daqueles simples, que de tão simples, aportavam em qualquer cidadezinha de interior. sentei na platéia com a esperança de poder ter algumas horas de entretenimento barato. mas o que se seguiram foram horas de enfado. o circo tinha apenas dois atores que ora se alternavam em cena ora contracenavam juntos. os números, de tão ensaiados, me pareciam reais e de tão reais, pareciam propositais para acirrar ainda mais os olhares dos parcos espectadores das arquibancadas. o número que mais me chamou a atenção foi o da prancha. numa altura incrivelmente elevada, um trampolim balançava a cada passo do artista rumo ao seu fim. embaixo, ao lado de um pequeno recipiente com água, estava a outra artista dramatizando a cena e implorando pra que ele não pulasse. aquele dilema se arrastou por muito tempo, ou ao menos foi o que me pareceu. fiquei pensando: e seu um dia eu fosse uma artista circense? e se largasse tudo pra ir embora com o circo? conseguiria eu, tola menina, chamar tanta atenção quanto o rapaz da prancha? seria eu capaz de subir numa altura tão grande? e se eu fosse o palhaço? haveria espaço pra tanto nariz naquele picadeiro? meu fluxo de pensamentos foi interrompido pela saraivada de palmas anunciando o fim do número. não vi como acabou, mas sei que eles ainda se alternaram muitas e muitas vezes durante o show. me deu vontade de sair da arquibancada, pegar o microfone, contar uma piada chatíssima de papagaio e jogar na cara deles que qualquer merda era melhor do que aquilo. resolvi sair antes do último número, se é que haveria fim aquilo. fui pra casa remoendo as horas desperdiçadas. curiosamente, de todos os circos que vi, o único que me lembro é justamente aquele que jamais queria tornar a ver.