defunto autor

sqn é a morte da ironia.

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frances ha vera he

“Debaixo d´água tudo era mais bonito mais azul mais colorido só faltava respirar. Mas tinha que respirar. Debaixo d´água se formando como um feto sereno confortável amado completo sem chão sem teto sem contato com o ar. Mas tinha que respirar. Todo dia. Debaixo d´água por encanto sem sorriso e sem pranto sem lamento e sem saber o quanto esse momento poderia durar. Mas tinha que respirar. Debaixo d´água ficaria para sempre ficaria contente longe de toda gente para sempre no fundo do mar. Mas tinha que respirar. Todo dia. Debaixo d´água protegido salvo fora de perigo aliviado sem perdão e sem pecado sem fome sem frio sem medo sem vontade de voltar. Mas tinha que respirar. Todo dia.”

(Arnaldo Antunes)

FrancesTub

 

fantasia

bobo

Era mais um dia, mas eu havia prometido que seria o último. Enquanto me maquiava em frente ao espelho, pensei em quantas vezes disse e redisse a mesma coisa nessa mesma posição, com a mesma sensação. Foi-se o tempo em que os bufões eram bem vistos por aqui. Outrora eles ouviam minhas críticas e riam com desespero de verdade. Hoje faço cover de mim mesmo para entreter esses nobres vazios e desiludidos. Os holofotes que já me trouxeram alento, hoje só reforçam que quem brilha é o ouro sobre a cabeça. Um bobo, no sentido mais chulo da palavra. E pensar que aprendi a usar o riso como quem chacoalha guizos para chamar a atenção dos que se entretêm com pouco, que de tão pouco é quase nada. Ele havia me ensinado os truques necessários, como quem senta na cabeceira de uma mesa a contar anedotas inverossímeis. O ridículo de ofício passou a ócio cotidiano. De emancipação se transformou em uma prisão repleta de não-seres. A habilidade, o estudo e a dedicação para apenas ser um ser patético, pronto para despertar uma gargalhada infame. Se ele, se eles soubessem quanta raiva havia por trás das mirabolâncias com as palavras, eu jamais teria ficado tantos anos nesse papel boçal. Havia fingimento demais naquelas caras lavadas e sujas de hipocrisia vendo escorrer a minha acidez sorridente. Se a ironia lhes veste bem, que dispam, pois, as suas máscaras. Terminei a maquiagem. Coloquei o chapéu e saí pela porta. O grotesco não está em mim.

cada qual cabe em si

acordei cedo e tratei logo de tomar um café rápido com as crônicas. me fez rir do prosaico sem banalizar a vida dos transeuntes que nem se lembram mais que há motivos pra sorrir das desgraças cotidianas. fui direto pra reunião com a enciclopédia. não podia atrasar um segundo com a minha nova chefe. era a manda-chuva do lugar e sabia de tudo um pouco, apesar de já estar um pouco obsoleta. mal me dei conta e já era hora do almoço. combinei com uma amiga de anos que estava passando por maus bocados, como sempre. uma novela com um dramalhão sem fim, um diz-que-não-disse que, para minha sorte, foi interrompido pelo meu telefone que tocava. atendi e já nas primeiras palavras imaginava as mãos gesticulando no ar para contar aquela tragédia. a cada ato eu tentava antecipar seu fim grandioso, mas há sempre surpresas em ligações como essas. a verdade é que eu passara o dia todo esperando para encontrar aquele velho romance que não via há muito tempo. desde que nos conhecemos, foi pura identificação. ele era pura sensibilidade e de uma densidade que sempre me deixava comovida. saí de lá com a sensação boa de me sentir plena ao lado de um velho amigo. mas no fundo, o que eu mais queria naquele momento era chegar em casa, colocar o pijama e ler um belo e intenso roteiro de cinema.

sonho são

peguei o trem do sono e havia lombadas nos trilhos. desci na estação do sonho. a fila para os pesadelos era enorme. enfiei duas pálpebras na máquina de chuva. desci com os pingos d´água nas folhas e escorreguei com as gotas no vidro da janela. o trem flutuou quando ouvi a chuva cair no solo.