prelúdio

entrei no coreto enquanto tirava o chapéu da cabeça. fazia um sol outonal com cara de fim de tarde, mesmo que não fosse. olhei as pilastras agora velhas e carcomidas com trepadeiras ressecadas e sem flores. acendi um cigarro com a esperança de que aquele chopin lancinante saísse de mim. quando assoprei a fumaça, ela se encontrou, esvoaçada, mas certeira, no balão vermelho que ficara preso no telhado do coreto durante 20 anos. olhei aquela imagem até meus olhos embaçarem de águas turvas. a distância que me separou do balão foi tanta que me doeu o pescoço. saí correndo em círculos pelo coreto. peguei uma flor de cada cor. era um buquê para mamãe. sentei no banco de madeira chacoalhando os pés enquanto segurava as flores numa mão e sentia o cordão fino do balão na outra. me sentia eufórico. voltava a correr feliz e entrava dançando no centro do coreto, repetindo mentalmente aquela melodia. foi quando uma das flores caiu no chão. me abaixei para pegá-la. quando levantei, a noite já chegava. vi os lampiões se acenderem automaticamente iluminando o banco de madeira com recados de namorados talhados nas ripas podres. as plantas morreram porque eu esqueci de voltar.