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imaginei que seria uma noite qualquer. deitei para dormir e escutei alguém me chamando: ei, psiu, aqui! olhei na penumbra do quarto e um vulto se mexeu. era ela de novo: fada sônia. um ser bem peculiar, quiçá sinistro. não lembro quando foi a primeira que a vi. sempre aparece com histórias escabrosas. adora café à tarde de falar de suas aventuras pelo mundo. fada sônia tem o dom de contar histórias a ponto de entrarmos no seu mundo. fico me perguntando se tudo aquilo que ela conta é verdade. às vezes fala e cospe areia. outras, repete contações de outros carnavais. ela boceja, eu bocejo. ela não vai embora e eu fico. comprou agora um cigarro elétrico. fica com ele aceso a noite toda na minha cara. ela se mexe, é barulhenta e vê no escuro. hoje me perguntou por que eu não tinha medo dela. respondi que na pior das hipóteses ela ia embora com amanhecer. ela riu e beijou a minha testa. senti aquele frescor da madrugada que se despedia e pedia uma coberta pra encarar as primeiras horas do dia.

das faltas incomensuráveis

Para o Bruno

noite torta

(itamar assumpção)

na sala numa fruteira
a natureza está morta
laranjas, maçãs e pêras
bananas, figos de cera
decoram a noite torta
sob a janela do quarto
a cama dorme vazia
encaro nosso retrato
sorrindo sobre o criado
no meio da noite fria
está pingando o chuveiro
que banho mais apressado
molhado caíste fora
no espelho minh’alma chora
lá fora está tão gelado
sozinha nesta cozinha
em pé eu tomo um café
na pia a louça suja
me lembra da roupa suja
no tanque que a vida é