noite sem

Você se fez, desde o primeiro momento, um mundo a se descobrir. E quanto mais me envolvia no seu doce-árido universo, mais me encantava. Com o passar do tempo, você se tornou minha incógnita preferida. Aquela que nem os maiores matemáticos, nem os mais sublimes psicanalíticos poderiam elucidar. E então, pobre mortal encantada, quem sou eu para resolver tal equação? Me resta – e não é pouco – a incrível tarefa de seguir suas pistas. E elas são confusamente coloridas. Nem sempre claras, nem sempre tranquilas. Mas me instigam num maravilhoso descobrir. E esse é o seu encanto – e, quiçá, o meu tormento. Tateando como numa noite escura-insone e desconhecida, mas cujos relevos já mostrados me levam a uma sempre nova emoção. O que você faz com os meus sentimentos nem o poeta mais louco-genial poderá interpretar. O fato é que isso me move e me faz rever sensações. Abre a possibilidade de visitar um mundo nunca dantes pisado. O seu silêncio, a sua condescendência mínima, que seja, me traz um viver desacomodado. Mas o que há de mais belo na vida senão o não-comodismo?  O que há de mais sublime que não o porvir? Queria poder te dizer em atos e palavras de uma maneira simples o que é em mim tão inconstante. O que me atormenta dia-a-dia que é trafegar por esse seu ser tão lindamente pantanoso. O que me move não é a certeza de te ter, mas a possibilidade de te entrar. E a cada pequeno passo isso se alumia dolorosamente. Não pense que é fácil. Só pense que eu quero a todo instante. E é um querer cada vez mais fundo, como se num poço sempre houvesse uma pá. A explosão do seu amálgama me fascina como extasiados estiveram os homens diante de grandes descobertas. Uma espécie de feeling que está mais do que na pele-pêlo. Ele me toca e me faz ir. E pra mim, em tantos ou poucos anos de existência – dependendo do referencial tempo-espacial – nunca se fez tão belo. Não, belo é pouco. Profundo é pouco. Incrível ainda é pouco. Esse turbilhão provocado em mim não me traz pequenices. Me jaz um antigo eu tão simplório e comedido. Me refaz num ser em constante construção, que é o que eu – e o que todos devemos vir a ser. Só penso que as minhas inconstâncias, singelas, espero, façam com que eu me faça e entender. Você me faz rever meus verbos, meus sempre adjetivos duplicados, meus substantivos tão instintivos que. por rima viciada na prosa ou por necessidade de sentir, fazem com que eu me seja e me olhe. E te olhe sempre. Você é meu ser instigador, meu sentimento amorosamente apaixonante. E se tudo foi rápido, foi também medrosamente sincero (e meus advérbios de modo que insistem em te classificar). Minha complacência diante do seu mundo que me espreita me faz brotar palavras nunca pronunciadas, lugares nunca visitados e universos intrigantes. Se eu não faço me clara nos ditames diários, nem nas palavras ditas rápidas e possivelmente mal interpretadas, me perdoe. Meu tempo é de noite. Minha noite é de vida. Minha vida são de pessoas. E não há nenhuma que me projete mais ao longínquo que você. Queria poder amanhecer você, como aquele acalanto madrugal sempre oferta. E que o meu riso – não aquele comunal, mas aquele abertamente alargado – possa te contagiar com todo o prazer que a vida ao seu lado me traz. Esvazie sua mochila na minha vida que eu hei de desabar meus pertences flutuantes em você. Os nossos corriqueiros gestos de gentileza se transformam sempre num acarinhamento que não cabe em ser nenhum que nos circunda – mas que ao mesmo tempo os transborda. Gosto de me sentir gostada e gosto de gostar do que gosto. Minhas maiores liberdades – mais idealizadas do que palpáveis – você consegue proporcionar com gestos simples. Enfim, cansei de usar um palavratório estranho pra dizer o que é uma conjunção de fatores harmoniosamente alocados em mim: amo você.

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ângela

desci do ônibus e quando segurei na alça da mala vermelha, ela arrebentou e voou toda sorte de coisas que estavam lá dentro. estranhas entranhas, pensei enquanto me desviava de alunos uniformizados que saiam da escola rumo ao ponto de ônibus. foi quando me voltei e vi que estava em frente à sua casa. continuava a mesma. um retrô moderno que era a sua cara. vi um certo movimento na sala através das enormes portas de blindex. caminhei lentamente pelo gramado da entrada tentando não derrubar mais nada da minha mala. desviei do tanque retangular cheio de lodo e entrei na casa. vi uma série de pessoas que não via há anos. percebi que era uma festa com o pessoal da minha turma. fiquei na dúvida se havia chegado na hora certa ou na nora errada. cumprimentei a todos, mas sempre esticando o pescoço pra ver se você aparecia. fui te encontrar apenas no quintal, sentada, meio só, tomando um cowboy. sorriu em me ver, mas parecia esperar pelo pior. veio sozinha? não entendi a pergunta, mas disse que sim. não beba nada que não seja do meu copo. minha felicidade em te ver refletia uma apreensão que eu não sabia de onde vinha. me puxou no canto e perguntou se eu já estava sabendo. eu, cada vez mais confusa, me sentia agora conversando com uma foragida ou uma pessoa investigada pela ditadura. não sei se quero falar sobre isso, ela disse. eu não me importei. só queria te ver, ângela. pode deixar que eu pergunto para as meninas mais tarde e elas me contam o que aconteceu. o seu não foi tão ecoante que me assustei de verdade. quando percebi, já estávamos longe das pessoas da festa e confesso, me senti levemente importante quando disse que elas não estavam preparadas para o que você iria contar, mas eu sim.

– tudo começou quando soube que eles haviam falado aquelas coisas de mim. com a calma que só os momentos de ódio me dão, fui até o alcebíades e pedi uma guilhotina. dei uma festa aqui em casa com a justificativa de reunir todos da velha guarda novamente. coloquei um calmante na bebida e posicionei a guilhotina ao lado do tanque da entrada. aos poucos cortei a cabeça de todos que estavam aqui. o alívio vinha conforme via as cabeças caindo no tanque já vermelho. vem, me ajuda a levar isso aqui pro quintal que essa lâmina é pesada.

o menino que jogava futebol

futebol é coisa de menina, dizia seu pai enquanto arrumava seus óculos redondos. vai estudar. e lá ia ele para a biblioteca. vez em quando espiava pela janela e via as meninas da vizinhança jogando uma pelada. tentava se focar. nascido em frankfurt, johan wolfgang von… GOOOOOL! e corria novamente para se debruçar no para-peito. certo dia, sua irmã fora viajar e ele não pensou duas vezes. correu até o quarto dela e pegou sua bola. levou para a biblioteca e começou a treinar embaixadinhas. disfarçadamente, claro. pitágoras, tum, parmênides, tum, demócrito, tum. trocava de perna. platão, tum, aristóteles, tum. o pai, orgulhoso, colava o ouvido na porta da biblioteca e dizia a todos: esse menino vai vingar nessa vida! ao fim de uma semana, o menino já mostrava sinais de avanço filosófico. cabeceava com os iluministas e escorregava pelo ombro com os existencialistas. empolgado com seu desempenho, narrava até a final do campeonato: smith toca pra ricardo, mas é interceptado por saint simon que rouba a bola e lança hegel. ele mata no peito, dribla feuerbach e cruza pra marx que pega de voleio e GOOOOOOL! a vidraça quebrada foi um detalhe, afinal, não se faz revolução sem uma fuga na mão.

bituca

– usa a história da bituca.

– que bituca?

– a da bituca no clitóris. nunca falha – disse ela dando mais um trago no cigarro e prometendo a todos os transeuntes resolver suas pendengas financeiras, familiares e sexuais. fala pra sua mãe que você virou lésbica porque foi molestada e depois o cara te queimou. confia em mim. não só vai colar como ela ainda vai fazer um almoço de confraternização pra sua namorada.

eu ri e pensei que não precisaria de tanto.

***

depois da milésima briga com a minha mãe, dissertando sobre a possível normalidade da vida gay-lés-bi-trans-trava e sobre a provável aceitação disso para o oh-deus-todo-poderoso-do-rolê, suspirei e usei minha cara adquirida numa oficina de fim de tarde na escola de artes dramáticas:

– mãe, já te contei a história da bituca?