celestial

duas estrelas eram vizinhas de imensidão. toda noite elas pegavam uma toalha xadrez e um saco de balas de doce de leite e deitavam no céu para olhar os planetas.

das cartas

 “J. estava com febre quando acordou e não foi à escola.
N., o irmão, quando estava indo, falou que ficaria com saudade dele.

J., algumas horas depois:  – Pai, o N. falou que ia ficar com saudade de mim.
Pai: – É verdade. Porque ele gosta muito de você.
J.: – Eu também tô com saudade dele.
Pai: – Daqui a pouco ele volta.
J.: – Mas eu acho que ele não tá com saudade de mim.
Pai: – Mas por que, J.?
J.: – Porque até agora ele não mandou nenhuma carta pra mim.”

porque eu nem me lembro quando foi a última vez que eu havia ganhado um poema de presente

“O tempo passa?
Não passa no abismo do coração
lá dentro, perdura a graça
do amor, florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.
O meu tempo e o teu
transcendem qualquer medida.

Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.
Pois só quem ama escutou
o apelo da eternidade”.

(Drummond)

em cima do teto

A seriedade dos espaços me faz pensar na longevidade das dúvidas. A necessidade da aparição traz o peso de um ciclo infindável. Subi no prédio mais alto daquela cidade vazia. Relutei em tocar no parapeito. Sugar os prédios não estava nos planos. Só de pensar já gelava minhas extremidades. Mas não havia mais escapatória. Ficar trancada num elevador de memórias já havia sido um caminho longo demais pra ser desperdiçado. Passei pelas mesas cuidadosamente ajeitadas apenas para quem sabe usar talheres e guardanapos de pano. Meu horizonte era o de fora, mesmo que eu negasse a lonjura que ele proporcionava. Não, eu não vou olhar pra baixo. Não me diga o que fazer. Sabe que farei o contrário só pelo prazer de fazê-lo e pelos motivos que bem me cabem mal. Não, não me prenda os olhos ao arranha-céu porque a vida é muito alta para se cair. Olhei pra baixo só para dizer que a viagem não havia sido em vão. Vi uma imensidão perdida na minha vertigem, lembrei do Hitch e balancei internamente. O que se há de fazer ao pé de uma para-peito além de olhar para um passado inescapável? Pensei em segurar na sua mão e pedir arrego. Mas quando olhei para ela, me pareceu outra. Velha e pequena. Não haveria de me confortar jamais. E vi nas minhas linhas tortas vincos indeléveis. Entendi que quem os sulcava era meu medo mimético. Espiei rapidamente uma vez mais para aquele lá tão distante. Definitivamente era longe demais para mim. Preferi buscar no chão alto o inconfortável, mas feito de adubo.