em cima do teto

“o céu é onde deus mora. o espaço é onde os planetas moram.”

(p.h, 8 anos)

– para lembrar do que vale valorizar a valer –

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talismã

“minha boca saliva porque tenho fome
e essa fome é uma gula voraz
que me traz cativo
atrás do genuíno grão de alegria
que destrói o tédio
e restaura o sol
no coração do meu corpo
um porta-joia existe
dentro dele um talismã sem par
que anula o mesquinho, o feio e o triste
mas que nunca resiste
a quem bem o souber burilar

sim,
quem dentre todos vocês
minha sorte
quer comigo
gozar?

Minha sede não é qualquer copo d’água que mata
essa sede é uma sede que é sede do próprio mar
essa sede é uma sede que só se desata
se minha língua passeia
sobre a pele bruta da areia
sonho colher a flor na maré-cheia vasta
eu mergulho e não é ilusão
não, não é ilusão
pois da flor-de-coral
trago no colo a marca
quando volto triunfante
com a fronte coroada de sargaço e sal
sim,
quem dentre todos vocês
minha sorte
quer comigo
gozar?”
(waly salomão)

o cavalo do cigano

e o cavalo marujo roçava os beiços no prato fundo de cerâmica com açúcar quando vi a sombra duns camarada no chão de pedregulhos.

– tarde, seu brás.

ele respondeu sem alterar a voz e sem levantar a cabeça. dar de comer ao cavalo era sagrado, ainda mais um agrado como aquele depois de um dia intenso de trabalho do pobre.

mas já num tinha gostado do tom de voz dos cabras. o sotaque num era de gente de bem. resolvi arresponder mó de que podia ser causo de coisa importante. naqueles dias num era bom falar de atravessado com pessoa alguma, vá se saber.

– soubemos lá na biquinha, lá na entrada da cidade que é o senhor que mexe com cavalo aqui nessas bandas. tenho um cavalo ótimo que o senhor há de gostar de ver.

– pois olhe, senhor, o dia já tá quase se pondo e a última coisa que eu gosto de fazê nessas hora é dá de comer ao marujo, acender meu cigarro de palha e tirar as botina lá no quintal de casa que a ana já deve tá me esperando com uma bela de uma sopa de feijão. então, o senhor me perdoe, mas hoje num há de ser o dia.

o rapaz ainda tentou. disse que ele estava de passagem pela cidade e que amanhã bem cedo iam partir para outro lugar. o cavalo era bom e ele não tinha como levá-lo na viagem. algo como um problema em uma das carroças. seria uma pena se ele não o visse. um puro-sangue, vistoso, forte e bem domado. o homem usou toda sorte de argumentos para convencer o velho senhor a pelo menos ver o cavalo.

brás nunca gostou daquele tipo de gente. ciganos. como é que se vive indo de um lugar pro outro sem casa? e bem feito que iam perder o cavalo se não vendesse hoje. onde já se viu viver cá e lá que nem vento, topando de porta em porta. mas meu finado pai-que-deus-o-tenha sempre dizia que negócio bom é negócio que num se espera, mas se fecha. resolvi dar um voto de confiança pro mambembe.

montaram todos os três na carroça e subiram pela avenida ladeada de coqueiros. já quase escurecia. brás queria dar cabo dessa história logo. ana já devia estar com a sopa no fogo. apearam e brás avistou o cavalo de longe e logo se espantou. era um cavalão, como se dizia. pêlo vistoso, corpo musculoso, porte de garanhão. chegou perto do animal e puxou o cabresto. fez o animal andar em círculos e passeou com ele pelo acampamento. surpreendentemente, parecia ser um ótimo cavalo.

– e então, seu brás? não lhe disse que era um bom animal? ainda sinto ter que desfazer dele.

o velho não respondeu. ainda faltava a prova final. algo que havia aprendido ainda em criança e que havia feito dele um ótimo comerciante de cavalos. talvez fosse coisa única nessa vida pra se gabar de si. levantou os lábios do cavalo e examinou dente por dente. mexeu cá e acolá, levantou a cabeça do animal e por fim deu dois tapinhas no pescoço do cavalo.

– quanto cê qué por ele? se não fugir do preço do mercado da região pro porte dele, o negócio tá fechado.

***

abrir o pão ainda quente com as mãos e ver a manteiga derretendo dentro dele era coisa que brás gostava de fazer desde criança. era quase um ritual sagrado que repetia todos os dias, pelo menos duas vezes: no café da manhã e na janta. em ambos os horários o céu sempre estava quase claro. foi quando bateram na porta com insistência. o moleque entrou correndo esbaforido.

– seu brás, seu brás. eles voltaram. os ciganos voltaram. eles estão aqui de novo!

– arre égua. corre lá e chama o compadre. manda ele trazer aquele balde de tinta que eu deixei separado no canto do balcão da farinheira. é hoje que vamo acertar essa pendenga.

– brás, onde cê vai, homi de deus? vai se meter de novo com esses ciganos? deixa isso pra lá. cê ficou meses jururu por causa daquele mardito cavalo.

– me deixe, ana. hoje aqueles tipo vão vê comé que se faz negócio. e não esquece de abrir o vinho pra mó de comemorar!

saiu e deixou a mulher ainda confusa e enxugando as mãos no pano de prato. ela ainda se perguntava o que é que é que tinha acontecido com aquele cavalo. tampou as panelas pra esperar o marido e sentou na cama com o terço na mão. vinho, ora, e nem era natal…

***

– passa a mão na frente da cara dele pra ver se ele não tá cego.

– oxe, cavalo tá cego não. o senhor me perdoe, mas num faço essas coisas não, vici.

o homem riu. não era afronta pessoal. lembrou de todo mundo na família contando aquela história do cavalo do cigano. o moço ali na sua frente, coitado, não devia estar entendendo nada mesmo. achou até que haviam duvidado da honestidade dele.

– desculpe, moço. é que meu tio, há muito tempo, comprou um cavalo cego de uns ciganos.

– eita, mas ele num viu que o bicho tava cego?

– parece que era quase noite e não percebeu. quando chegou no dia seguinte é que foi ver. voltou ao acampamento e os ciganos tinham ido embora.

– ara, e que que ele fez co cavalo cego?

– parece que esperou um tempo até os ciganos voltarem pra cidade. num fim de tarde, pintou o mesmo cavalo e pediu pro seu compadre ir lá e vender o mesmo cavalo, para os mesmos ciganos. dizem que depois disso, os ciganos nunca mais voltaram.

– que cabra arretado, sô!

– e como esse não está cego, o negócio  está fechado.

 

para o meu tio que adorava vinho, cavalos e histórias

ah, o amor fraterno

– você que gosta de ler, viu que morreu o joão ubaldo, o rubem alves e o suassuna?
– pois é, muito triste mesmo…
– justo agora que eu ia começar a ler a obra deles.
– não seja por isso. vá comprar numa livraria que ainda tem.
– ah, não. não ia ficar tranquilo em saber que estou lendo e eles não estão mais entre nós.
– então aproveita e cancela a sua assinatura da veja! porque o roberto civita também já morreu.