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– deu certo o sanduíche?
– deu e pelo jeito é cheesburguer.

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postes

pierre

Toda criança, em uma certa idade da vida, sonha em fugir com o circo. Aconteceu comigo, pode ter acontecido com você, mas nunca aconteceu com Pierre. Sua mãe dizia que ele vivia com a cabeça nas estrelas. Um dia, o circo partiu e ele, o futuro cuspidor de fogo, ficou. O gosto do inflamável em sua boca nunca satisfizera os seus próprios sonhos. Ficou porque em uma noite estrelada seguiu um gato e percebeu que não precisava mais voltar. Chovera levemente naquele dia. Sentou-se na calçada e os paralelepípedos brilhavam pelo reflexo dos lampiões acesos. Mas só metade deles. Vinha descendo a rua um velho senhor acendendo a outra metade, poste por poste, com a calma dos que não têm pressa em anoitecer. O velho tossiu. O gato assustou. Pierre se levantou. Ofereceu ajuda ao senhor em troca de uma sopa e um canto quente para dormir, a ele e ao gato. No dia seguinte, Pierre disse ao velho que assumiria seu lugar como acendedor de lampiões. Usou suas habilidades de cuspidor de fogo e encantou aquele velho e solitário homem. Todos os dias deixava o velho em casa ao cair da tarde e ia com o gato levar luz a toda a cidade. Pierre passou anos de sua vida nesse ofício. Sentia que era a única forma de sentir a luz das estrelas mais perto de si. Era como se ele próprio acendesse uma a uma. E em retribuição, elas o seguiam por toda a noite.

o bolo

era pré-escola. a professora avisou que faríamos uma homenagem para o dia das mães. minha empolgação foi momentânea, já que logo em seguida soube que iríamos encenar um teatro sobre uma receita de bolo. não conseguia ver relação entre uma coisa e outra, afinal minha mãe trabalhava fora (mas dentro daquela escola, aliás. era a diretora) e não era ela quem fazia os bolos em casa. fiquei triste e a professora veio conversar comigo. já não estava gostando daquela história de bolo festivo. ela me explicou que a maioria das mães cuidava da casa e, portanto, fazia os bolos para as crianças. fiquei mais tranquila pelo fato de fazer sentido para os outros e passamos para a próxima etapa: o sorteio dos ingredientes. cada criança ia ser um elemento da receita e ia ter que recitar um versinho sobre o papel dele no bolo. fiquei super animada. ficava pensando que legal seria ser o ovo ou a farinha. não, não, melhor seria ser o fermento, que iria fazer o bolo crescer! mas qual não foi a minha surpresa: depois de falar o meu nome, a professora abriu o fatídico papelzinho. nele estava escrito baunilha. bau o que? pela cara da professora, meu semblante não deve ter sido dos mais agradáveis. fiquei chocada. parecia que ela tinha falado uma palavra em outra língua ou um ingrediente tão estranho que ninguém conhecia. disfarcei porque não queria que a professora viesse me consolar mais uma vez – as crianças comentam… fui pra casa cabisbaixa e tratei de decorar aquele versinho idiota. minha mãe chegou à noite do trabalho e notou o meu silêncio. o que foi, filha? não podia dizer porque além de tudo aquela babaquice tinha que ser surpresa. mas depois de muita insistência, acabei falando. baunilha, mãe! você acredita? e eu nem sei o que é isso! ela riu. me levou na cozinha e me mostrou um potinho pequeno, amarelado e, provavelmente, vencido. no dia seguinte fizemos um bolo e eu fiquei encarregada de colocar as tais gotinhas de baunilha no bolo. acabou que decorei o versinho com menos desgosto.

De nanquim

A folha da janela irrompeu-se e ventou vento por toda a biblioteca abandonada. O danado do vento tirou o pó dos livros e folheou os clássicos suspenses que sugam, fez viver as famosas paixões de três dias, fez voar em moinho os destemidos cavaleiros e quando esbarrou na colcha de retalhos, pensou em ficar a fiar. Mas com sina não se brinca e ele saiu de novo a rodopiar. De tanto encanto que saía daquele mundo, o vento se deliciou de tal maneira que se tornou tornado. E quase sem querer derrubou o vidro de nanquim que há anos estava abandonado naquele canto de biblioteca. Quando viu derramar-se o mundo de nanquim, o vento logo reconheceu o eco das contações daquele velho poeta. Depois de séculos cravando brisas de aventura e desamor na memória do papel, ele agora era só pote e vento. A tinta escorreu no papel seco e o vento desenhou com ele história de infância. A dança foi tanta que o nanquim passou pela borda da folha e escorreu história na velha escrivaninha de madeira. O vento soprou mais forte o nanquim e ele borrou um mundo novo de histórias não contadas. Despediu-se do vento e lá ficou como sempre fizera: como se aquela fosse a única forma de ficar.