português

minha colega da ucrânia pediu para que eu mostrasse no mapa onde ficava a cidade em que eu morava no brasil. perto do mar, ela disse com aquele sotaque arrastado. e já emendou mais uma pergunta antropológica de gringo made in guia do curioso: vocês falam português, né? sim. em todo o território? pensei em falar sobre as centenas de línguas indígenas existentes no território brasileiro e como essas matrizes linguísticas influenciaram nosso vocabulário, mas achei melhor responder que sim de novo para não alongar o assunto. mas ela realmente estava interessada em além-mar. onde mais se fala português? no brasil, em portugal e em alguns países da áfrica. apontei no mapa os países africanos e ela me olhou chocada com aquela cara de “a áfrica não é uma coisa só?”. pensei em falar sobre a colonização africana, depois o neocolonialismo no século XX, em como o continente foi retalhado pelas grandes potências e as consequências nefastas para as comunidades tradicionais de lá, mas um sorriso amarelo bastou. um mundo novo de possibilidades parecia ter se aberto para a guria. acho que naqueles um metro e setenta de vida ela nunca tinha pensado na famigerada língua portuguesa. o espanhol é a segunda língua mais falada do mundo, sabia? não, eu não sabia, mas suspeitava e até conjecturei uma vez que um dia o espanhol viria a ser o novo inglês, mas desencanei depois delembrar que na linha de sucessão dos impérios não tem nenhum de língua hispânica. espanhol é parecido com português, mas por que vocês falam português? a resposta era daquelas que você fala segurando para não rir: falamos português porque fomos colônia de portugal. ela me olhou de novo espantada como se por um momento ela tivesse lembrado que esqueceu que países dominam uns aos outros desde que o primeiro estado-nação existiu sobre a face da terra. ameacei a ficar chocada com, perdoe o trocadilho, a des-ocidentação daquela moça, mas parei quando lembrei que também sou um pouco desorientada sobre aqueles arredores orientais. a única escritora que eu conhecia de lá nasceu na ucrânia, tinha a língua presa e um sotaque recifense inconfundível. com extrema dificuldade a moça achou portugal lá naquela esquina ibérica da europa. nossa, como um país tão pequeno pode ter uma colônia tão grande? parecia a chapeuzinho vermelho encontrando o lobo mau lusitano: que colônias grandes você tem, manuel! são pra te espoliar melhor! procurei uma resposta plausível nas  grandes navegações, na expansão ultramarina ou na busca por especiarias. mas tem coisa que não tem explicação lógica passível de aceitação. mistérios da história, pensei eu…

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lembrar

“La memoria guardará lo que valga a pena. La memoria sabe de mi más que yo; e ella no pierde lo que merece ser salvado.”(Eduardo Galeano, Dias e Noches de Amor y de Guerra).

not only

*about the movie “Selma” (2015)

The most important thing about the film is that Selma is not only a city.

Selma is a country that claims for equality.

Selma is a entire continent that searches in its past a way to start over again.

Selma is a whole world in which you segregate, separate and judge people for your appearance, for your  skin color. The essence of each single smile or pain is never able to be seen.

Also Martin Luther King Junior is not only one man.

He is one desire, one fight that can never be fought alone.

He is each man in the bridge trying to reach what’s yours for right.

He is each man discriminated.

He is, until today, those young who die unable to breathe.

impítima

especialmente pro pessoal do impítima:

trata-se de um processo legal, mas que precisa de julgamento e comprovação de envolvimento do chefe do executivo nas tretas (não basta só estar desconte porque, convenhamos, todos estamos).

fora o caráter moralista que há por trás do discurso vazio da corrupção, se rolar mesmo o impítima da presidente, a linhagem de sucessão são os comensais da morte michel temer, renan calheiros e eduardo cunha (então, pense muito bem antes de fazer o que você está pensando em fazer).

e fica uma dica: quer lutar por melhorias no seu país, lutas que valem a pena mesmo? tem três pequenas coisas que estão fervendo na sua cara e você não está vendo – por que será?

lute contra a falta d’água.
lute contra o aumento nos transportes.
lute por melhorias de trabalho dos professores da rede pública.

(só não passe vergonha, por favor).

rima reta

– A menor distancia entre dois pontos é uma reta,

bradou o matemático, rei da geometria.

Passava por ali um ébrio e louco poeta:

– Deixe de zombaria, caro colega da faculdade

A menor distancia entre dois pontos é a saudade.

Candidatura

Eleitores e eleitoras,

Não quero que me vejam como mais um candidato a repetir as mesmas promessas genericamente esvaziadas. Se eleito for, quero ser lembrado como aquele que conseguiu vencer uma das nossas maiores e mais longínquas mazelas: a saudade. Essa tinhosa característica do nosso peito, da nossa língua e do nosso povo há de ser sanada de uma vez por todas. Sob o meu governo, prometo que nunca mais haverão de se perder os corações que já se encontraram; nunca mais haverá um único amante sequer a derramar lágrima de dor de lonjura. Não haverá um único cidadão que carecerá de estar ao lado de seu amor. Todas as barreiras de sentimentos distanciados serão desfeitas. Todos os casais apartados serão repatriados. Todos os sentimentos bons que se perderam no meu do caminho e se transformam em outra coisa, serão redefinidos novamente em puro e simples amor. Eu vos prometo, queridos eleitores, que todo carinho que se mede em polegada de tela de computador, será novamente medido por número de braços nos abraços. O poeta, rei, bedel e juiz dos contos de fadas de amor já dizia que pela sua lei a gente era obrigado a ser feliz. Pois lhes digo que para sermos felizes não há distância nenhuma que deva existir. Seja ela de terra, de céu, de mar ou de dor. Prometo-lhes que a palavra saudade entrará para o cânone dos verbetes e arcaísmos a ser usada somente como referência a um passado imperfeito e doloroso. Àqueles cujo sangue corre nas mesmas veias ou aqueles cujos sorrisos a vida os fez unir, peço-lhes um voto de confiança. Peço-lhes que juntos lutemos para extinguir esse mal que os ensinamentos linguísticos cabralinos nos fizeram aprender a nomear aquilo que aperta o peito e devora as esperanças. Todos unidos contra a saudade!

Muito obrigado!