domingo

Quando eu era criança, domingo tinha um ritual todo particular. O dia amanhecia tardio e silencioso e o sol parecia mais quente que o normal. Era como se até ele quisesse tirar o dia para brincar entre os galhos dos pinheiros que margeavam a rua da minha casa. Era o único dia que estávamos todos em casa no mesmo horário – o que não queria dizer que todos estariam acordados na mesma hora, claro. Mas eu e meu pai tínhamos uma espécie de rota planejada para os domingos. Acordávamos, tomávamos café da manhã – leite com achocolatado doce que minha mãe comprava de kilo no Makro para mim e café com leite para ele; para os dois, pão fresco com manteiga. O leite era da vaca mesmo, tinha acabado de ser tirado e, consequentemente, acabado de ser fervido. Às vezes eu chegava na cozinha e ainda podia sentir o cheiro do leite queimado nas grades do fogão. Era fruto daquela famosa piscada fora de hora que fazia o leite derramar por todos os lados. Depois disso, subíamos na CG vermelha (ou já era na NX roxa e verde?) e o roteiro nem era mencionado: domingo de manhã era dia de visitar as vaquinhas no sítio do vizinho. Meu pai, sempre muito cauteloso, ia devagar pelo caminho e, quando chegava na guarita, virava à esquerda na estrada de terra, margeando o alambrado. De longe eu já morria de euforia em ver as árvores altas que anunciavam a chegada, a cada poste mais próxima. Aquele lugar me dava uma paz tão inexplicável que só a sombra gigantesca daquelas mangueiras poderia entender. Às vezes eu nem descia da moto. Só ficava olhando aquelas lindas vacas procurando sombra e grama. Tudo parecia tão simples que poderia facilmente significar felicidade. Me lembro que um dia chegamos lá e elas não estavam. Chorei. Quis que o domingo passasse logo para domingo chegar de novo e eu poder ver pelo vão do alambrado as vacas na sombra das mangueiras. Na volta para casa, o resto do pessoal já tinha acordado. Na TV da sala, sintonizada na Cultura, sempre estava passando o programa da Inezita Barroso.

dyva

outro dia estava fazendo compras no mercado e começou a tocar like a prayer. não teve uma viva alma que não estava cantarolando com a dyva. parecia um flashmob não combinado. me senti em um próprio clip da madonna.