far

pareço legal mas uso o benefício da distância para falar verdades para as pessoas.

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hoje é dia de rock, bebê

ontem quando eu entrei no metro – sim, sempre no metro – vi vários caras que pareciam formar um grupo coeso, apesar de estarem sentados separadamente. carregavam instrumentos musicais, cabelos compridos e calvície. tudo ao mesmo tempo. não sei se voltavam de um festival, de uma apresentação ou de um encontro da ex turma da pesada. estavam lá, com aquela cara de clipe sem nexo pierrô retrocesso meio blues e rock n’roll. fato é que todos deviam ter começado suas carreiras nos meados lisérgicos da década de 70, aspirando à profissionalização e sonhando ser imortais como keith richards. acabaram casados, com filhos, tomando uma budweiser aos sábados à noite e dedilhando um led zeppelin sem amplificador no porão de casa. logo um deles questionou o outro o por quê da escolha de uma determinada linha de improvisação. ao que o outro respondeu dedilhando no ar as escalas, enquanto fazia um solo com as cordas vocais. eles iam conversando tentando se ver, um em frente ao outro, enquanto dezenas de pessoas se aglomeravam entre eles procurando seu lugar ao sol – vulgo tentando se segurar nos mastros do metro. quando o trem chegou na times square, um deles botou o case da guitarra nas costas como quem carrega um rebento. agradeceu ao camarada pelas explicações. só faltou dizer: may the rock be with you.

Abraço

Sonhei você que tinha vindo me visitar e a gente foi a uma exposição. Depois apostamos corrida na estação do metrô pra ver quem chegava primeiro. Você ganhou, como sempre!!! E aí a gente ria muito e se abraçava. Acordei meio que chorando de saudade!

Para a minha Lili

bússola

chegamos aqui praticamente juntas. e nosso maior hobby era se perder na cidade. não que fosse uma escolha. era mais uma contingência mesmo. quantas e quantas vezes pegamos o expresso ao invés do local, pegamos uptown quando era pra ir sentido downtown ou simplesmente pegávamos a linha errada mesmo. isso rendia inúmeras risadas nas estações, geralmente de madrugada. ela dizia que eu tinha mais senso de direção que ela, que não tinha nenhum. pois, depois de alguns meses na cidade, as coisas se acalmaram um pouco. resolvi dar a ela um presente para que ela se lembrasse das nossas aventuras e também pudesse ajudar na sua localização. comprei um pingente em forma de bússola. dei o presente toda faceira. e não é que a bússola estava desnorteada? bom, que fique pelo simbólico ao menos…

ora poix

“Pelo quarto parecia-lhe estarem a se cruzar os eléctricos, a estremecerem-lhe a imagem reflectida. Estava a se pentear vagarosamente diante da penteadeira de três espelhos, os braços brancos e fortes arrepiavam-se à frescurazita da tar­de. Os olhos não se abandonavam, os espelhos vibravam ora escuros, ora luminosos. Cá fora, duma janela mais alta, caiu à rua uma cousa pesada e fofa. Se os miúdos e o mari­do estivessem à casa, já lhe viria à ideia que seria descuido deles. Os olhos não se despregavam da imagem, o pente tra­balhava meditativo, o roupão aberto deixava aparecerem nos espelhos os seios entrecortados de várias raparigas.” (Clarice Lispector, Devaneios e embriaguez de uma rapariga, em Laços de Família)

bloody mary

passara da hora de sair dali. o barulho daquele restaurante de chão cuidadosamente apastilhado já começava a não mais me incomodar. quando abriram a porta à minha frente senti o gélido da noite queimar meu rosto ainda se recuperando do choque de quentura de antes. me ajeitei dentro do meu próprio casaco e pisquei forte os olhos. meu único desejo era apagar absolutamente todas as luzes daquela cidade. tem momentos em que ser noite nunca é escuro o suficiente. evitei ao máximo pensar no drink indigesto de há pouco e procurei me distrair com as vitrines cafonas de roupas floridas celebrando a chegada da primavera, ou com a dinâmica do trânsito dos pedestres apressados nas calçadas. mas a definição de caminhadas de solidão é que elas sempre trazem sentimentos não requeridos. era uma questão de tempo até que eu começasse a repassar mentalmente em que momento eu deveria ter feito outra escolha. eu só tinha duas respostas possíveis. um fifty-fifty absolutamente arriscado e que optei pelo de quase sempre no menu: não diga não. minha língua ainda estava sensível, meu corpo ainda exalava aquilo tudo. quanto tempo levaria para aliviar aquela sensação de dormência que chegava até as pontas dos meus dedos? hot, ela disse. eu concordei com o entusiasmo óbvio dos que aparentam sempre não ter nada a perder. lá naquele canto escuro com cara de galpão abandonado com manchas de óleo de motor e com bugigangas sujas e ressequidas que é a minha mente, eu sabia que viria apimentado. quis me perder na tradução, na cidade, no sabor. a língua ardia. o enrubescimento do meu rosto por alguns segundos parecia compensar qualquer desconforto. quis engolir a lufada de ar que vinha dos túneis do metro e de alguma forma canalizar para sempre aquele vento dentro de mim. mas a saliva guela abaixo só levava o amargo de uma ressaca que sussurrava provocativa: spicy. eu havia tomado tanta água para diluir aquilo – aquilo que eu escolhi, aquilo que eu pedi, aquilo que eu me alimentei, aquilo que eu desejei – que meu corpo parecia agora dotado de uma inércia lânguida. quis me escorrer em vão pelos vãos dos carros. meu corpo parecia um copo de água sobre um amplificador que recebia os graves de um canhoto solo de baixo. respirei fundo, enfiei a mão no casaco para me proteger e atravessei a rua no sinal vermelho piscante.