Amarilla

Num certo dia de outono, Lilian atravessava apressada o Parque Palermo em Buenos Aires quando se deparou com os grandes amigos Borges e Bioy Casares sentados num banco conversando. Lilian não exitou. Era apaixonada por Borges e foi lá ter com eles. Ele carinhosamente agradeceu os elogios da devota leitora e, anglófono confesso, perguntou se ela falava inglês. Diante da afirmativa dela, disse que ela precisava ler Faulkner. Lilian agradeceu e partiu com a sensação de que aquele encontro seria uma lembrança daquelas quase eternas.

Pouco tempo depois, ela e o marido mudaram-se para Nova York. Ficaram anos vivendo lá e amargando, dia-a-dia, a saudade de Buenos Aires. No dia do nascimento de sua filha, Lilian olhou para o céu sépia daquela tarde e se lembrou de uma outra passagem da vida de Borges. Uma vez peguntado se depois de sua cegueira ele via tudo preto, Borges disse que não. Explicou que foi ficando cego ao longo do tempo, mas que a última cor que se lembra foi de ter visto um tom de amarelo vibrante no céu de Buenos Aires.

– E então, qual via ser o nome da menina?

Lilian sorriu e respondeu:

– Amarilla.

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green thumb

a professora estava explicando na aula o que era green thumb.

– é uma pessoa que gosta de cuidar de plantas e que nas suas mãos, toda sorte de seres verdinhos crescem lindamente.

ah, tá, massa. compreendido que não tem nada a ver com hulk ou algo do tipo.

– e quem aqui tem um green thumb? – perguntou a professora.

algumas pessoas levantaram a mão. ela apontou para a italiana ao meu lado.

– você tem um green thumb?

– tenho. muito! meu green thumb é deste tamanho – disse ela mostrando uma planta de mais ou menos um metro de altura.

– o que você planta?

e sem pestanejar, ela respondeu:

– I can’t say.

– como assim não pode?

enquanto a professora estava atônita entre não entender se era uma piada ou se realmente ela plantava alguma coisa ilegal, meia dúzia de gatos pingados ou os ditos “entendidos” – incluindo essa que vos fala – explodimos numa gargalhada inusitada.

e nem era 4:20.

la lechera

ontem, falando com meus pais pelo skype, por alguns minutos esqueci que tinha fone, tela, continente, tudo entre a gente. parecia que eu estava sentada na mesa da cozinha ouvindo minha mãe contar dos velhinhos que ela visitou, das tias doentes, da dona-não-sei-quem que precisava de uma oração porque fulano estava com problemas conjugais ou porque sicrano não conseguia emprego. e meu pai virando os olhos, reclamando que queria dormir, que as histórias dela tinham muitos detalhes e que ela não parava nunca de falar. ela retrucava dizendo que gostava de contar devagar para que as pessoas vivenciassem a cena como de fato ela ocorreu. era a deixa para a minha participação especial: “e pelo visto, em tempo real, né, mãe!”. e daí logo ela emendava, sabe-se lá porque, o assunto do vestido lindo que ela comprou (ela jura de pé junto que há nexo entre as histórias e que um dia elas vão terminar). ao que meu pai complementava que ela demorou horas e horas pra decidir entre as roupas e, por fim, ele mandava o já clássico “a cegonha jogou sua mãe na chaminé errada!”. e ela arrematando a história: “aí, seu pai falou as palavras mágicas ‘você gostou? leva!’ (que na verdade é tipo um: vai logo, pelamordedeus). ou seja, absolutamente os diálogos engraçados de sempre no pós-jantar. mas ontem desliguei o skype e fiquei com gostinho de quero mais. não pensei duas vezes. corri no armário da cozinha e achei escondido lá no fundo uma lata de leite condensado, artigo raro por essas bandas. calmamente, fiz um furo na lata e aquele leite viscoso escorreu pela tampa. fiz outro furo do outro lado para não dar vácuo, segundo as milenares técnicas dos formigões noturnos. tomei aquele gosto de infância, aquela travessura que eu e meu pai fazíamos às quartas à noite. era nosso segredo. quando nós dois já não aguentávamos mais, escondíamos a lata no fundo da geladeira pra minha mãe não descobrir – e para os meninos não encontrarem porque senão eles acabavam com tudo. fui dormir com aquele gostinho gostoso de saudade de todos eles!

sobre o tempo

abre aspas o tempo caleja a sensibilidade, e oblitera a memória das coisas fecha aspas. mestre machado, fiquei com vontade de tatuar a primeira parte da frase. mas no mudo pós-vírgula, só não se oblitera a vida porque temos a literatura. vou escrever mazoquistamente para não esquecer agora. mas ao fim, espero defenestrar todos os resquícios de memória daquilo de mim.

so-fucking-ju

serviço de utilidade pública: pra quem não sabe (como eu toda naif também não sabia), soju é um destilado de arroz sul coreano. ao que parece, depois de infinitas pesquisas pra tentar saber a placa do caminhão do quê nos atropelou ontem, é bastante popular here, there, anywhere. o bagulho tem rostinho de saquê, mas por parte de mãe é um filho de uma vodka. se eu trabalhasse no setor de publicidade do sensacionalista, o slogan desse troço seria: a um shot da hangover. fiquem longe, apenas.