nobreza

todos sabemos que nos idos carcomidos do segundo império, quando todo mundo queria mandar dom pedro segundo para a casa do carvalho-orleans-e-bragança, nosso monarca ilustrado-eurdito-moderno-conservador tirou uma carta da barba: saiu distribuindo títulos de nobreza a rodo pra geral continuar apoiando ele mais um ‘cadinho. a classe dominante que não era boba nem nada e que nunca virou as costas pro mar, agararrou com unhas e dentes a chance de fazer parte da “realeza” e achar que ia ficar toda trabalhada no veludo verde. pois bem, se hoje lhe fosse concedido o benefício de um título de nobreza, qual título você escolheria? lembrando que precisa ter o título (visconde/viscondessa, conde/condessa, marquês/marquesa, duque/duquesa, barão/baronesa) e um outro nome a sua escolha (geralmente vinculado à sua origem ou ao seu ofício, mas não obrigatoriamente).

atenciosamente,

marquesa de arujá.

E.T.: juro que isso não é uma brincadeira irônica com as gentes diferenciadas e que detestam aeroporto lotado, que preferem a empregada que dorme no serviço, que acham estranho porteiro com carro e filho de faxineira na universidade pública.

a casa

como sempre, cheguei em casa dizendo aquele oi como se fosse o som da própria porta arrastando no chão ao se abrir. nenhuma resposta. coloquei as chaves no rack da sala e entrei curiosa. onde estariam todos? provavelmente ocupados demais vivendo suas próprias vidas enquanto eu só tentava evitar a minha própria. continuei chamando enquanto ia entrando, cômodo por cômodo. percebi que a luz do primeiro quarto não estava funcionando. preciso comprar outra lâmpada, não posso esquecer. mas eu sempre esquecia. pensei que eles podiam estar brincando comigo e talvez estivessem se escondendo para me assustar. mas se fosse isso já teria ouvido alguma risada ou algo do tipo. entrei no outro cômodo e algo me chamou a atenção. a mesa da sala de jantar não estava lá. nem as cadeiras. a sala me pareceu assim mais ampla do que de costume. que entranho, pensei. e o estranhamento foi tão grande que parece ter ecoado nas paredes da sala vazia. provavelmente levaram para alguma festa. mas por que eu nao estava sabendo dessa festa? comecei a ficar puta com tudo aquilo. abri a pora do segundo quarto. quer dizer, tentei. a fechadura tinha desaparecido. fiquei preocupada. podia ser assalto, mas quem rouba uma fechadura velha? empurrei a porta com a força dos ombros. o quarto estava com as janelas escancaradas. tinha chovido muito e o quarto estava alagado. mas não tinha molhado nada porque não tinha mais nada no quarto. minha cama, meu ventilador, minha mesa, meu guarda-roupas. me desesperei. aquelas coisas todas, durante um tempo considerável, foram um peso para mim, mas pensar na minha vida sem elas agora me deixava completamente perdida. corri para o quintal. nem sinal da cachorra nem da gata. aquilo era impossível. voltei correndo para a entrada. vou começar a procurar de novo. não, melhor: vou perguntar para os vizinhos. cheguei na entrada e as chaves estavam no chão. não tinha rack, sofá, videogame, nada. perplexa, vi meu reflexo na janela. abaixo da minha boca boquiaberta, meu corpo nu. minhas roupas tinham desaparecido. não posso sair na rua assim. preciso de um drink. mas como diz joão antonio, os porres só resolvem os problemas do dono do bar. água resolve. corri até a cozinha e quase fui atropelada por um carro amarelo. eu estava no meio da rua e todos me olhavam. quis chorar mais isso ia me despir mais ainda. sorri e fingi que era uma brincadeira. não adiantou. logo vieram os policiais correndo atrás de mim. quando me dei conta, estava na cadeia. senti um prazer absurdo no frio metal das grades em contato com as minhas mãos. segurei forte e aquela concretude reverberou pelo meu corpo todo. eu estava livre. achei um grampo no chão. comecei a escrever na parede da prisão todas as palavras que ainda não tinham desaparecido.

summer

O verão nas bandas de cá é um evento em si mesmo. Essa coisa de ter estações do ano mais bem definidas muda a vida das pessoas de uma forma muito intensa. Sair de casa e se deparar com aquela combinação fantástica de céu azul e grama verde que a gente de tanto ver se acostumou, faz parte do sorriso das pessoas nessa época do ano. As crianças correm e brincam. Os adultos são simpáticos e se divertem. Picnics, barbecues e happy hours nos rooftops são programas quase obrigatórios para curitir o verão. As bicicletas estão por toda parte. As pessoas deitam na grama no fim de tarde só por deitar mesmo. Nos parques tem música ao vivo, filmes ao ar livre e idas à praia. A cidade toda se transofrma para recebr o verão como se fosse uma coisa mágica e efêmera, que é, de fato. É difícil explicar pra um gringo que a gente tem 300 dias de verão e não 65.

Para Anna

“Aprendendo a usar aspas como sua mãe:
Uma criança pergunta a outra:
-você pode voltar aqui no meu aniversário?
Então a outra responde gesticulando aspas e diz:
– “talvez”.

Ana foi traída. Ana disse que não transa há 5 meses. Ana se rastejou aos pés do marido por 1 ano. Fez tudo o que podia e não podia. Fez tudo mesmo, com “f” maiúsculo. Ana namorou dois homens. Não deu certo. Namorou uma mulher. Não deu certo. Mas ainda morre de amor por ela. A mãe de Ana morreu em quatro dias e ela teve que cuidar da irmã mais nova de 13 anos. Isso já faz dois anos. Ana tem uma filha e é casada com um homem que tem outra cultura. Ela acha que ele é mais rígido e sério. Ela é mais brincalhona, viva, impulsiva. Mas as amigas do marido da Ana disseram que ele sorri mais hoje. Ana tem um relacionamento aberto, mas nem por isso é um relacionamento mais fácil e mais feliz. Ana fuma de vez em quando. Ana fuma muito. Tem Ana que até já fumou maconha e tem Ana que fuma até hoje. Ana bebe, mas também come. Ana trabalha.
O sofrimento de Ana trouxe pra perto dela todas as outras Anas. Ana se sente culpada por sair a noite, por ter sido traída, por não ter transado, por ter sido largada. Ana se sente culpada por ser mãe e se sentir sozinha.
Durante horas as Anas conversaram sobre vida, filhos, contaram histórias tristes e riram delas. Fecharam os bares (apenas dois) e ficaram até acabar a festa. Não, não foi muito tarde. Ana está sozinha e deve ficar com as crianças no fim da noite, no dia seguinte, no outro, no outro, no outro, no outro, no outro, no outro.
Ana é Ana todos os dias.
Ana aprendeu que quando uma Ana cai, vem outra Ana pra ajudar. Isso, a Ana que foi traída vem e te levanta pela mão, se for preciso pelo braço e, se ainda assim não conseguir, Ana carrega. Sim, a Ana do “Fez tudo com ‘f’ maiúsculo” pra voltar pro marido – mas só voltou depois que estava segura e uma outra Ana vivia dentro dela, aliás, é essa Ana que dá exemplos hoje.
Ana aprendeu um truque: como não deixar seus filhos irem dormir no meio da noite com você, sem avisar, é claro. Vocês conhecem a “mão peluda do corredor?” Não? É assim:

-Mãe posso ir dormir com você no meio da noite?
-Pode, mas cuidado com a mão peluda do corredor…

E a criança nunca foi dormir com os pais no meio da noite. E sim, essa criança é normal, não leva traumas profundos da mão peluda do corredor.
Ana ensinou pra Ana que o limite do banco é muito parecido com o limite da vida. Na verdade, Ana mostrou que não se deve chegar ao limite das coisas, pois há um valor para se pagar por ele. É como no banco: o limite da sua conta não é um bônus de crédito, um presente. Você deverá pagar por ele e com juros. Não vá até o limite, ele será cobrado.

O que aprendi com Ana? Aprendi que Ana sou eu e eu sou Ana. Aprendi que nossas subjetividades estão sendo cada vez mais resgatadas pelo trabalho: acorda – as vezes nem dorme – faz o café, levanta as crianças, troca as crianças, leva as crianças pra escola, trabalha, busca as crianças da escola, faz janta, dá banho nas crianças, faz a tarefa com as crianças, brinca com as crianças, toma banho, faz as crianças dormirem, briga com as crianças, chora um pouco, faz um sexo mesmo que não queira no começo, porque as vezes ele fica bom depois – ah, tem um homem o tempo todo ali.

Dorme, acorda – as vezes nem dorme – faz o café – ah, tem um homem o tempo todo ali – levanta as crianças – ah, tem um homem o tempo todo ali – troca as crianças – ah, tem um homem o tempo todo ali – leva as crianças pra escola – ah, tem um homem o tempo todo ali – trabalha, busca as crianças da escola – ah, tem um homem o tempo todo ali – faz janta – ah, tem um homem o tempo todo ali – dá banho nas crianças – ah, tem um homem o tempo todo ali – faz a tarefa com as crianças – ah, tem um homem o tempo todo ali – brinca com as crianças – ah, tem um homem o tempo todo ali – toma banho, faz as crianças dormirem – ah, tem um homem o tempo todo ali – briga com as crianças, chora um pouco, faz um sexo mesmo que não queira no começo, porque as vezes ele fica bom depois – ah, tem um homem o tempo todo ali.

Aprendi com Ana, aprendi comigo, que quanto mais não temos tempo, menos conversamos com os outros e acreditamos que estamos sozinhas e que nossos problemas são só nossos. Entendi com Ana que não se deve esconder sua história e suas desgraças, porque é isso que querem de nós, que sejamos Maria, Neusa, Fabiana, Kátia, Joana, Thaisa, Márcia, Emanuela, Carolina, Jaqueline. Mas somos Ana. Somos todas Ana e somos fortes como Ana. Somos fortes porque a mesma realidade nos permeia. Ana foi traída e ensinou pra Ana que não se deve chegar até o limite porque se paga pelo limite. Ana ensinou pra Ana que gostar de mulher é normal e Ana nunca tinha visto uma Ana morrer de amor verdadeiro por uma mulher assim. Ana ensinou pra Ana que ela queria muito voltar pro marido, mas Ana, segurando a mão de Ana, disse que só voltou quando uma outra Ana voltou a viver e gozar e rir e se colocar e se ajudar. Ana disse também: nós te amamos Ana e estamos do seu lado sempre que precisar e na decisão que tomar. Ana riu muito. Ana chorou muito. Ana fechou um bar e só foi embora no final de festa. Mas Ana não chorou por causa disso, porque ela saiu forte e ela saiu ANA.

Ana aprendeu que um filho não é pesado, só é mal distribuído. Aprendemos que eles não sabem usar aspas nas palavras e rimos e eles nos fazem felizes.

Aprendemos que há Anas nas periferias que não conseguem ser Anas dos condomínios – os novos subúrbios modernos – mas que sentem e sofrem como Ana e que tem maridos, namorados e filhos como Ana. Umas levam seus filhos pra escola à pé, outras de ônibus, outras nem levam mas…– ah, tem um homem o tempo todo ali.

Aprendi com Anna que nada acontece na véspera e que a cozinha também pode ser um espaço de muita resistência feminina. Lá é onde a Janaína, a Paula, a Jéssica, a Catarina, a Rosana, a Renata, a Vanessa, a Vera se juntam e formam Ana. Também tem o bar, a sala de aula, a escola, a faculdade, o fundo do poço.

Aprendi, sobretudo, que é lindo ser ANA.”

(Melina Casari <3)