gastro

feijoada. coxinha. nhoque da cassilda. doce de mamão. água de coco. pão de queijo da minha madrinha. salsicha com purê da ligia. banana de verdade. bolinho de arroz. sopa de feijão. torresmo. caipirinha de pinga. manteiga aviação. doce de abóbora. abacate com açúcar. doce de figo da tia antonieta. escondidinho. strogonoff do caio. licor de jabuticaba. empadinha. frango a passarinho. churrasco do véio. camafeu da tia dilina. queijo coalho na praia. bolacha de gergelim e queijo fresco da mel. manjar. fogazza da andressa. bloody mary da fafá. peruano de domingo. farofa. pão de linguiça da tia neta. panqueca. brigadeiro. salada da xili. master-chef-limpa-geladeira do rapha. risoto da vó jusi. capeletti da tia pita. berinjela de forno da luciana. macarrão à carbonara da minha mãe. cerveja do bruno. arroz doce. mandioca. mistinho todos os dias da mina. raspadinha na praça. polenta. quindim. guaraná. tapioca. garapa. o café do meu pai.

unraun

por algum motivo obscuro existente em alguma quebrada do meu cérebro, há semanas eu acordo cantarolando essa música.

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Uma tigresa de unhas negras e íris cor de mel

Uma mulher, uma beleza que me aconteceu

Esfregando sua pele de ouro marrom do seu corpo contra o meu

Me falou que o mal é bom e o bem cruel

Enquanto os pelos dessa deusa tremem ao vento ateu

Ela me conta, sem certeza, tudo que viveu

Que gostava de política em mil novecentos e sessenta e seis

E hoje dança no Frenetic Dancing Days

Ela me conta que era atriz e trabalhou no “Hair”

Com alguns homens foi feliz, com outros foi mulher

Que tem muito ódio no coração, que tem dado muito amor

E espalhado muito prazer e muita dor

Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar

Porque ela vai ser o que quis, inventando um lugar

Onde a gente e a natureza feliz vivam sempre em comunhão

E a tigresa possa mais do que um leão

As garras da felina me marcaram o coração

Mas as besteiras de menina que ela disse não

E eu corri para o violão, num lamento, e a manhã nasceu azul

Como é bom poder tocar um instrumento.

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(Caê)

Delivery

Nos letreiros de neon vendo meu corpo de desejo no Harlem. Nas calçadas agitadas em Midtown depois do degelo conto os passos através dos chicletes velhos grudados no cimento. Eu sou essa cidade que quando anoitece precisa se iluminar de felicidade artificial. Eu sou essa puta que não consegue manter um sorriso sem luz. Não tenho tweed. Não tenho uma longa história medieval de sucessos bélicos e filosóficos. Tenho ruas largas com faixas de pedestres, tenho bares com balcões ensebados de Lagers, IPAs e Pilsens servidas com o mau humor burocrático da temperatura ambiente. Tenho uma vida ofertada sem retorno. Um novo mundo sem história nos livros, só nas telas. Eu sou aquela que é moderna e decadente. Os telões da Times Square escondem os becos com ratos e pilhas e pilhas de promessas e juras de desejo amarradas em sacos pretos de plástico. Não tem glamour. Só o puro desejo que nunca basta porque descobri finalmente que a noite nunca termina. Quis ser cool no Greenwich Village soprando no ar a fumaça do cigarro eletrônico e recitando algum poeta maldito num accent completamente desconhecido. Achei que os óculos de acrílico bastavam. Shape of my foolish heart. Boto meu vestido de bolinha com All Star de cano alto preto de couro e observo tudo do East Village por cima do East River e chego até uma calça mostarda, uma camisa xadrez e um sapato bordô caminhando na orla de Williamsburg. O mundo anda hipster há décadas e só agora eu percebi. Talvez porque fico sentada à noite olhando as luzes pela janela esperando uma ligação. E estou sempre pronta a atender um delivery de madrugada em uma quebrada em Chinatown. Até que perdi a paciência dentro de um táxi na hora do rush na 5th Avenue. O indiano dirigia e mandei parar. Arranquei o salto e deixei no carro. Desci descalça as escadas do metrô. Fiquei na plataforma atrás da faixa amarela durante horas esperando o vagão do esquecimento. E tudo o que eu queria era escalar o paredão de pedra do Morningside Park. Queria chutar todas as flores que estavam na mandala do John no Strawberry Fields. Porque eu sou essa cidade insone que não sabe mais onde enfiar sentimentos que não existem mais. Porque eu sou tão puta quanto esses pontos turísticos: cristalizada, aberta, passiva e superficial. Eu grito de cima do Empire State: me usa, tira foto, publiciza e joga fora naquele canto de amenidades colecionadas. Um imaginário coletivo completamente desinteressante. A moral da história? Um fotograma vale mais do que mil palavras em uma língua que ninguém lê.

Nem todo canto é gregoriano

Fico me perguntando que os tempos estão tão absurdos que precisamos de Gregório Duvivier para dizer o óbvio. E com isso não quero dizer que as questões levantadas por ele não sejam relevantes. Pelo contrário. Seu papel engraçadinho cheio de bom mocismo enquanto articulador de questões que estão na pauta do dia como aquelas mais progressistas e liberais é super importante – a saber, o chamado G5 da crítica virtual-social engloba: legalização das drogas, parto humanizado, redução da maioridade penal, direitos iguais aos homossexuais e laicização do estado. Mas não esqueçamos: Gregório fala da elite para a elite e a adequação da sua crítica parece sofrer daquela síndrome do “tamanho fluminense” que acometeu também José de Alencar dois séculos atrás (e por fluminense eu quero dizer zona sul carioca e/ou linha verde-amarela do metrô paulistano). Talvez seja hora de ser de Gregório ser mais de Matos e menos Alencar.

o sorvete

Dizem que quando bate aquela angústia que não se sabe de onde vem nem pra onde vai, o melhor a se fazer é tomar um porre de sorvete. Pois juntei o resto das minhas forças pra calçar o sapato e chamei o elevador. Dadas as circunstâncias, achei anacrônico esperar que algo me levasse para algum lugar. Desci as escadas e nos encontramos no terceiro andar. Tive a certeza de quem estava no caminho certo. A pedida foi vanilla, como de costume, mas na volta resolvi mudar a rota. Nunca tinha passado por aquela rua e quando virei a esquina em frente ao parque, ouvi um som de piano. Parei e procurei por janelas acesas como quem fareja no ar uma boa sensação. Aí eu e o sorvete ficamos lá nos derretendo enquanto o piano do vizinho nos fazia uma serenata às avessas.

Sem fiança

Eu a perdi no meio do caminho. Estava nas minhas mãos e eu deixei cair. E pior e como sempre: nem sei onde foi. Estava comigo, me acompanhando em todos os bares que eu frequentava sozinha. Comentava os espetáculos musicais que eu ia por mim mesma. Segurava a minha mão durante os filmes de terror que eu via sem mais ninguém no cinema. Ontem fiquei com dor nas costas de tanto procurar por ela nos cantos das calçadas, nas sarjetas, nos fundos das lixeiras. Voltei pra casa acabada. Ela tinha sido meu escudo e minha porta de entrada durante anos. Sem ela eu ficaria sozinha e amargurada por não conseguir trabalhar nem me divertir. Se eu conseguisse sair não ia mais rir nem emitir minha reles opinião formada sobre tudo. A partir de agora eu cancelaria encontros que eu mesma marquei. Jogaria fora o café que eu mesma fiz. Sujaria de propósito as roupas que eu lavei. Tudo para corroborar com o sentimento que a sua falta me faz. Pode ser só uma fase, parecia que ela me dizia soprando o vento pela minha nova janela. Eu gritei de volta se eu tinha que lutar contra o medo ou esperar ele passar. Ela não me respondeu porque eu estava cercada por um paredão de tijolos e cimento que só ecoava o meu próprio desespero. Eu estava trancada dentro da caixa acústica dos meus próprios demônios. Fiquei presa e sem fiança. Pensei em escalar as escadas de incêndio mas o que mais o vento surdo poderia me soprar lá do alto a não ser que a vertigem é a mãe de todos os Minotauros que chacoalham os labirintos mais remotos? A vantagem de se estar perdido é que o caminho é a resposta em si.

ombros

Tem uma foto da gente que eu gosto muito, mas só a trouxe pra cá de memória. É aquela que você está de costas me segurando ainda bebê no colo. Eu estou olhando para a câmera com o rosto sobre o seu ombro. Dizem que ao sair do berçário eu reconheci imediatamente a sua voz quando você perguntou por mim. Eu não me lembro. Dizem que você trocava as minhas fraldas e fazia as minhas mamadeiras enquanto a mãe estava trabalhando. Eu não me lembro. Mas me lembro de um dia que o Bino brigou pela milésima vez com aquele cachorro grande da fazenda. A gente correu de Verdona pro hospital veterinário. No caminho, eu chorava segurando ele no meu colo. Você passava a mão no meu ombro e dizia com a calma de sempre que ele ia ficar bem. E ele ficou. Por causa daquela foto, eu passei a estar sempre no seu ombro. Por causa do seu carinho, eu sempre sinto a sua mão no meu ombro dizendo que vai ficar tudo bem. Obrigada, pai!