antropomorfização felina ao contrário

os felinos apresentam, em geral, comportamento egoísticamente carinhoso. querem atenção e afeto incondicionalmente. a hora que querem e do jeito que querem. procuram você para que sejam devidamente acarinhados. o problema é que o fazem esbanjando um charme sem precedentes. o grau de sedução é tamanho que você sabe de todas as artimanhas dele para conseguir o que quer e ainda assim você dá. sem pestanejar. não há explicação passível de entendimento. o ar interesseiro está estampado na cara do gato. e mesmo assim você cede. e o que você ganha em troca? a atenção que ele generosamente te faz o favor de pedir. gatos são independentes. saem a hora que querem, fazem o que bem entendem e voltam quando querem. e ai se forem questionados por alguém. eles mandam essa pessoa para a sibéria, para o isolamento completo, para a geladeira dos sentimentos até segunda ordem, o que pode demorar ou não. varia e é imprevisível. os gatos são caçadores. caçam muitas vezes pelo puro prazer de exercer as suas habilidades. não há funcionalidade no ato. apenas prazer em se exibir para si mesmo ou para os outros. presas são presas e nada além disso. há felinos que levam a presa para a casa. é uma forma de retribuição pela liberdade concedida.

Epístola de Amor(a)

Nova York, 10 de novembro de 2015

Minha querida Amora,

Nunca ficamos tanto tempo longe uma da outra. O máximo que ficamos separadas foram três dias e não esses quase trezentos. Tive a fantasia de que ao final daqueles três dias em que você havia cavado o colchão e comido uns livros meus foi porque você estava sentindo a minha falta. Hoje quem devora livros para amenizar a saudade que sinto de você sou eu.

Sempre tive cachorros. Desde pequena. Eles sempre fizeram parte da minha vida. Estavam sempre comigo apanhando amoras. Me espiavam enquanto eu subia no pé de acácia ou no de seriguela. Corriam feito técnico de futebol enquanto a gente jogava bola no campinho. Sempre tive. Amei todos eles. Inclusive o que cresceu junto comigo, que chorava quando eu chorava e me defendia de qualquer pessoa que chegasse perto.

Tive cachorros. Mas só tive uma companheira. Aquela que eu desdobro meus adjetivos para descrever o seu cheiro e seu temperamento festivo. Só uma eu vi crescer dentro de uma meia e a cada estação precisar de uma meia maior. Me lembro de ficar horas com você no quintal até que você aprendesse onde tinha que fazer xixi. Sempre inventei músicas para o seu bigode, para o seu esbelto corpo de salsicha e para suas unhas coloridas.

Foi num dia ensolarado de abril. Saíamos do banco, aquela coisa chata, burocrática, fria. Do lado, tinha um pet shop com cães abandonados. Você era tão pequena. Cabia na palma minha mão. Tinha ainda bafo de leite, patas cor-de-rosa e olhos azuis de cachorrinhos recém nascidos. Não imaginaria que você um dia ia adorar andar de carro, correr feito louca pela grama e ter os gatos como seus melhores amigos. Todos os seus bichos de pelúcia tinham nome. Mafalda, Rodolfo. E um dia todos eles explodiam em amor de espuma pela casa.

Sempre tão festiva, dizem que puxou a mim. Quanto mais gente em casa, mais feliz você ficava. Ou nós ficávamos? Quanto mais gente, mais carinho a gente recebia. Era lindo. Ao fim da noite (ou da manhã) estávamos exaustas e já esperando a próxima festa.

Ate que um dia você me apareceu com uma voz. Uma moleca linda falando gírias e reclamando sempre que a gata não queria brincar com você ou que ela tinha pegado a sua cama ou que eu não tinha te levado pra passear. Lembrei de você quando vi neve pela primeira vez e imaginei a gente brincando e correndo. Quando veio a primavera, lembrei da sua paixão pelos gramados verdes. O verão seria ideal para as nossas longas caminhadas. E acho que você ia adorar brincar com as folhas secas do outono.

Eu lembro da sua voz brincalhona e às vezes te imito baixinho pra acalentar meu coração. Mas só me faz sentir mais falta do seu cheiro de papelão, da textura macia dos pelos da sua orelha e dos seus olhos com lápis preto. Canto pela rua as nossas musicas e rio das nossas aventuras. Lembra aquele dia na praia? Lembra do seu primeiro namoradinho da rua? Ou de quando você fazia coisas proibidas com/e/ou perto das visitas?

Você sempre me surpreendeu. Um dia, talvez um dos mais tristes da minha vida, quando estava trancada sozinha no quarto escuro, você lambeu as minhas lágrimas e meu rosto inteiro. Conseguiu me fazer rir quando eu achei que nunca mais conseguiria fazer isso.

Você não gostava muito de crianças. Eles falam alto pra caramba, você dizia. Tinha medo de deixar você perto dos meus maiores tesouros, meus 3 sobrinhos. Mas não é que hoje recebo vídeos e fotos de você deitada com eles, brincando, pulando, correndo. Você é tão especial que consegue me surpreender e me encher de alegria mesmo estando tão longe.

Às vezes só queria poder olhar para o lado e ver você dormindo enquanto eu trabalho, ou deitando no meu pé enquanto eu escrevo, ou subindo no meu colo querendo brincar. Não vejo a hora de dizer “Vamos?” e ver de novo a sua cara de felicidade.

Eu tive cachorros. Mas só tive uma companheira. Meu cão com nome de fruta, minha princesa cachorro quente, minha buzina linda. Queria que você estivesse aqui para lamber o meu rosto agora.