a bêbada e o equilibrista

ele caminhava desolado pelo meio fio. encontrar trabalho não estava fácil. a única profissão que exerceu a vida toda estava por ser extinta. era um meteoro destruindo o sabor jurássico das pequeninices da vida. chacoalhava a cabeça de tempos em tempos para não ter que ouvir o diálogo de antes. a voz dela era ardida e cruel. foi recrutado, contratado, pago e ainda teve que aguentar a crua realidade entrar pelos vãos das rugas que já se formavam no canto dos seus olhos. nem as lágrimas que rolaram depois fizeram com que isso deslizasse memória abaixo. beleza no cotidiano só existe nos poemas do bandeira. aceite e suma, foram as últimas palavras dela.

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lembrou-se da primeira vez que havia visto tal ofício. ficou encantado. era um adolescente perdido e que havia encontrado um acalento para sua existência. passou a se aprofundar no tema. recorreu a todos os manuais compostos em versos para que pudesse se aprimorar da melhor maneira possível. estudou, sentiu, amou. ajustou olhos e poros para que ficassem atentos a qualquer sinal boniteza. anos depois, saiu à rua e ficou absolutamente embasbacado quando viu uma planta. não era bonita nem feia. era apenas uma planta que nasceu na calha de uma casa abandonada. uma mulher passava pela rua tristonhamente olhando os próprios passos. ele chamou-a, apontou para o alto e compartilhou aquela descoberta. sem força nem vontade ela olhou. e logo esboçou nada além de puro contentamento. ela seguiu seu caminho com a brisa refrescando a curva do seu sorriso. pronto. ele já estava apto para seguir seu ofício. dali em diante ele seria um caçador de belezas do cotidiano.

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eles se entreolharam pela primeira vez em uma manhã de domingo de sol. ela viu o velho com dificuldade pela fresta das pálpebras pesadas de rímel amanhecido e sentiu apenas desdém. ela sabia quem ele era. sentia cheiro de poeta frustrado no ar. eles ficaram assim por alguns minutos, um analisando o silêncio do outro, como dois cachorros farejando a história recíproca dos seus descaminhos. ele tentou. mostrou seu rol de metáforas. falou dos olhos dela que pareciam um retrato da fase azul de picasso. falou do sol que entrava pela janela e fazia uma sombra engraçada quando tocava as peças do tabuleiro de xadrez. e falou mais uma dezena de coisas lindas que poderiam ser repetidas num filme cult francês ou um poema em prosa de algum modernista da quinta geração latino-americana.

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ela ria com escárnio. nunca tinha ouvido tanta baboseira melodramática em toda a sua vida. havia perdido a paciência já fazia tempo para esse olharzinho diminuto. a obliquidade do cotidiano era algo desprezível. acusou-o de todos os nomes possíveis e lamentáveis. gritava e babava toda sorte de desvarios sobre como aquelas metáforas esdrúxulas de rodapé de apartamento pequeno burguês jamais seriam nada além versos alienados. aceite e suma. o cuspe se confundiu com as lágrimas.

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ele saiu. ela se partiu. antes de ir, deixou um caderno pautado sobre a mesa. sua sombra foi fagocitada pela do tabuleiro. desesperada, ela vomitou ali mesmo suas memórias de unhas roídas.

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T.O.C.

A Lis tem duas pequenas obsessões que nem o tempo nem a distância fizeram com que ela abandonasse: meu despertador e eu mesma. A primeira e mais estranha é que ela não suporta ouvir meu despertador e o fato de eu não levantar imediatamente após ele tocar. Não sei se é pelo barulho irritante por si só ou se ela tem toques compulsivos e ansiosos pra começar logo o dia – o que pra ela significa dormir, obviamente. Só sei que ela fica desesperada. Mia e bate na porta do quarto com seu relógio de ponteiros em punho “é tarde, é tarde, é tarde”. Mas ela não sabe a maravilha da procrastinação programada que é o dispositivo da soneca, coitada. A segunda obsessão dela, talvez por vingança ao toque do despertador, é que tenho a sensação de que ela sempre tenta me enganar. Chega de mansinho e finge que não é com ela, mas está sempre à espreita pra aprontar alguma comigo. Notívaga que só, pula “disfarçadamente” na minha cabeça à noite para dormir “escondida” na cama. Me olha compulsivamente enquanto mexo no presunto, usando a técnica milenar do Pai-Mei felino que faz cair coisas das mãos dos humanos com o olhar. Cheira o lixo quando eu viro as costas e quando me viro rapidamente pra ela de novo, ela está sentada lambendo a pata, como se a obsessiva fosse eu, veja só. Eu já avisei que quem tem polegares opositores sou eu, mas ela insiste. Todos os dias. Ser zuada pela minha própria gata, eis a minha sina.