a filosofia do copo suado

as rodelas de água iam secando umas sobre as outras. era suor de copo que brilhava no balcão de madeira e refletia nas suas extremidades todo o teto de possibilidades. toda semana sentado no mesmo lugar do bar. se olhasse com bastante cuidado, com uma lupa especial para acessar nanomemórias, dava pra perceber quantas rodelas de copo eu já molhei e sequei na mesma velocidade. eram dias presos em goles. eram sonhos vertidos em soluços. empurrando guela abaixo o medo de certas verdades mudas. naquela semi borda desenhada podia ver desenhos de aviões, bolas e castelos que viviam naquele baixo céu acima de mim. se esticasse o braço, eu poderia tocá-los. mas preferia ver uns rastros de sonho travestidos em uma psicodelia de cores distorcida nas rodelas de copo suado.

eleanor

desci apressada as escadarias na bedford. esperei impaciente o L que aquela hora da noite demorava mais do que de costume. entre jaquetas estilosas verde militar, cool under cuts e calças skinny vinho combinadas com botas de forro xadrez, eu enfiava meu sorriso de desgosto na echarpe amarela. assim que o primeiro trem apareceu entrei sem pestanejar para fugir da hipsterice exacerbada. na estacão seguinte percebi que tinha ido pra direção contrária. desci troquei de plataforma e esperei o próxmo trem. quando encostei na pilastra da estação, vi um músico do outro lado tocando um violão e aquelas gaitas de pescoço. foi então que chegou um bêbado muito bêbado. pegou o microfone do cara e começou a cantar eleanor rigby. a plataforma virou palco e nós, os hipsters solitários da madrugada, do outro lado da plataforma com duas linhas de trem entre a gente, não estávamos mais sozinhos. o arrepio do insólito nos uniu.

ecos

sempre achei que o umberto eco era o galeano italiano. ambos sempre me inspiraram a transitar entre os mundos com absoluta leveza e humor. aprendi com eles que era possível fazer poesia com crítica social e fazer crítica sem perder o lirismo. ficção e realidade passaram a poder viver dentro do mesmo eu. eu que vivia cindida entre ter que escrever sobre o que eu sinto e sobre o que eu penso, passei habitar em mim todas as escritas do mundo.

affogato

quando eu morri afogada naquela manhã, o mar estava cristalino. o calor era tanto que  fiquei lá mais tempo do que deveria. vi o verão virar eternidade naquela praia de areia fina. se eu soubesse que iria morrer naquele dia, pediria para ouvir chopin enquanto tomva um café com uma bola de sorvete de creme dentro. só para corroborar com a melancolia do momento. morri de bochechas róseas-queimadas e com olhos semicerrados fingindo ser óculos escuros. antes de me afogar, senti um leve afagar no cacho do meu cabelo que caía sobre o ombro direito. eu havia prometido ter  cuidado com o mar. mas ele estava irresistivelmente mais altivo do que de costume. parecia que não o via há meses. e foi como se eu nunca tivesse me secado. o mergulho de maiô preto-retrô foi de cabeça. mas não me fui sem antes lutar. bati os braços e as pernas desesperadamente como se tentasse escalar as ladeiras e as escadarias de uma vizinhança encravada numa montanha. com os olhos dentro d’água ainda pude pude ver os morros gêmeos sorrindo lá do alto pra mim. ainda pedi que me jogassem bóias, mas eles só me lançaram words, words, nothing but words.

a máquina de escrever

queria te contar da minha máquina de escrever. pois é, eu tenho uma. ela é verde, portátil e linda. comprei-a num brechó no centro da cidade. estava barata. e quando eu vi a máquina de escrever lá na prateleira empoeirada, nem eu sabia que um dia eu ia querer ter uma. até aquele momento. eu sei que pode soar um pouco hipster ou de um saudosismo tacanha, mas juro que não é. quando eu era pequena precisava esperar a minha mãe na escola que ela trabalhava pra pegar uma carona de volta pra casa. depois de brincar nas lousas e com os carimbos, nada mais parecia ajudar a passar o meu tempo. até que eu vi a máquina de escrever. sentei em uma delas. me ensinaram a colocar o papel, fazer margem, mudar de linha. achei uma engenhoca de duas cores muito interessante. e lá fiquei, por meses, anos. naquela época só me lembro de mandar cartas e bilhetes para as pessoas próximas. hoje mando cartas datilografadas na minha máquina para pessoas que moram longe de mim. um gesto. um carinho. uma forma de poder me fazer chegar aos poucos. o que se escreve numa carta não se escreve num email, num post ou num sms. a carta pressipõe um tempo e uma viagem interna mais intensa. a carta demora, deixa rastos, nomes e cheiros. e é assim que eu gosto de chegar.