halloween

o dia era 31 de outubro. a cidade era san francisco. halloween na terra do tio san: esse pequeno carnaval mórbido que aquece os corações outonais nas gringa. eu tinha ido lá a trabalho – apesar de já ter andado de bondinho e cruzado a haight-ashbury. fato é que eu não estava no clima macabro-lúdico da noite. saí do hostel e, tropeçando em múmias e mortícias, cheguei até uma pizzaria comum, dessas que você fica no balcão de frente pra rua. sentei ao lado de uma família que ria e esbanjava purpurina e peruca colorida. quando dei a primeira mordida naquela pizza grande e barata, notei que tinham três pessoas na calçada. de relance percebi alguma coisa diferente na vestimenta delas. a palavra fantasia foi imediatamente substituída pela palavra trapo. eram mendigos. se disfarçavam entre frankensteins fictícios enquanto pediam dinheiro aos cegos transeuntes diante dos olhos dos pobres. queria cutucar a família purpurina ao meu lado e perguntar se eles não se importavam com aquela família de olhos. mas só vi pratos maiores que a fome e copos maiores que a sede. foi o dia em que eu, baudelerianamente, comi aquela pizza grande e indigesta vendo um desfile estático de pessoas vestidas de vida real.

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