mas pra que tanto mar?

A moça de pescoço comprido entrou esbaforida na imensa sala de memórias que mais parecia ter sido construída por outras pessoas. Pintadas, esculpidas, arquitetadas como peças singulares que existiam em tons de sépia sempre que ela fechava os olhos bem forte. Ela olhava pelas memórias penduradas no chão em cavaletes de vidro. Parecia que sua vida era um sonho carolliano encenado de ponta cabeça. Continuava andando pelo teto de paredes de vidro. Uma regressão quase involuntária para se lembrar daquela noite quente de inverno. Devia estar por ali, no canto direito, atrás das tragicidades coletivas e compartilhadas em silêncio pelos viventes doentes. Ou estaria na lateral esquerda, ao lado daquelas memórias fotográficas que congelam sua mente com a falsidade dos sorrisos armazenados? A moça de pescoço comprido começou a ficar impaciente. Parecia estar em uma estação de metrô em hora de pico. Tropeçava em pessoas, em cavaletes de vidro e não conseguia achar o que procurava. Mas ela sentia. Quis fechar os olhos e andar instintivamente pelas quinas de vidro. Quis tropeçar em uma e derrubar todas as outras para abrir uma clareira na desordem caótica dos seus sentimentos. E viu, entre vãos, mas viu. Era lá.  Ela exasperou. Quando finalmente se livrou de toda a tralha em sua frente, viu o cavalete daquela memória. Mas estava vazio. Deu a volta, espiou, tocou de leve a quina e percebeu uma pequena ranhura que vazava água. A mulher do pescoço comprido esgueirou-se um pouco mais e provou. Tinha sal. Devia ter vazado daqueles olhos vazios como um mar visto de cima. Quando passou a mão novamente pela rachadura, ela aumentou e começou a estilhaçar o resto do vidro como um raio intempestivo a rasgar milhões de sonhos. O mar vazava primeiro por um conta gotas de desespero. À noite, na cama, era esse som de mar pingando que ouvia no escuro. Uma tortura chinesa que insistia em importunar sua insônia. Ela se sentou no chão, feliz por ter aberto o furo. O barulho iria embora. Nunca pensou que para consertar um buraco, mais do que fechá-lo, o ideal seria arreganhá-lo para que ele se tornasse outra coisa que não fosse um buraco reformado. Cruzou as pernas e esperou aquele mar vazar com o ímpeto que ele tinha dentro dela. A força das ondas dentro das paredes de vidro fez estourar uma imensidão de verdades inditas. A espuma de lágrimas transbordou pelos jardins suspensos da babilônia fria. Ela quis ficar de olhos abertos e ver o espetáculo incólume. Mas a moça de pescoço comprido pensou que arder o olho é coisa que (o)(a)mar faz.

a conquista

a conquista, para determinados seres e para quase todos os colonizadores, é uma forma de domínio que objetifica para poder subjugar. colonização e machismo seriam duas faces da mesma moeda?

john donne parece ter percebido isso no século XVI. aí uns séculos depois o augusto de campos traduziu o poema do inglês, o péricles cavalcanti musicou, o caetano gravou um trecho naquele disco marromeno lindo que é cinema transcendental e eu, de semi-férias, brisei.

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“deixa que minha mão errante adentre
atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.

minha américa, minha terra à vista
reino de paz se um homem só a conquista

minha mina preciosa, meu império
feliz de quem penetre o teu mistério.

liberto-me ficando teu escravo
onde cai minha mão, meu selo gravo

nudez total: todo prazer provém do corpo
(como a alma sem corpo) sem vestes

como encadernação vistosa
feita para iletrados, a mulher se enfeita

mas ela é um livro místico e somente
a alguns a que tal graça se consente
é dado lê-la”