a lixeira e o carnaval

tudo começou no carnaval. dizem que qualquer história que começa assim não tem como acabar bem. eu troquei minha máscara social por uma fantasia da re bordosa. haviam me convencido da ironia de já ir vestida de ressaca no carnaval. assim, a peruca, os óculos escuros, a vestimenta preta e eu voltávamos para casa sem lenço-sem-documento e lata vazia na mão. segurei a lata pelo caminho todo procurando uma lixeira, que só fui encontrar na esquina da minha casa. a lixeira foi um oásis no meio daquele silêncio pós-festa. há algo de muito melancólico no carnaval. um cansaço me arrebatou. achei que era a subida ou do peso da lata nas minhas mãos. mas a cada passo eu sentia o peso dos dias mal sentidos, dos filhos não concebidos, das escolhas impensadas, dos sentimentos não exteriorizados, da preocupação com o que não se pode controlar. a máscara por baixo da fantasia, o riso, o sexo, a face, o gozo. tudo se abateu sobre mim com força de punho. abri a lixeira e joguei a lata fora. não sabia que demônios haviam ali. eu era uma mulher de triste e poucos anos, sem qualquer estabilidade na vida e parada em frente a uma lixeira verde e fedida. ela cheirava mal como tudo o que porta vida. o cheiro é a história das coisas inanimadas. havia certeza naquele cheiro. uma autenticidade de, admiravelmente, saber quem se é. seu verde escuro que começava a clarear com os raios de sol me pareceram certeiros. quis os meus verdes de volta para ter controle sobre meus tons. tirei a peruca vermelha e quis ser eu e quis ser nua. peguei os restos da minha fantasia e joguei  fora. fechei a tampa da lixeira e chorei. agradeci mudamente pela epifania alcançada. me despedi da re bordosa bêbada, numa sessão de terapia em que a sarjeta era um divã. enxuguei as lágrimas e caminhei de volta pra casa esbanjando certo contentamento na sobriedade que constava apenas na minha roupa. hoje de manhã saí de casa me deparei com a lixeira, como todos os dias. porém, ela estava destruída. havia derretido por dentro e tudo o que havia nela, transbordava com cores pseudo-vivas. me marejou os olhos ver todo aquele chorume fétido e com potencial fertilizador. exalando a sua essência sem medo; carnavalizando o cotidiano com cores reais; se entranhando à luz do dia; vomitando sentimentos guardados, pensei que a lixeira também se cansa de ser.

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