a lagartixa

era uma vez, uma lagartixa muito feliz. ela vivia cercada de amor da mamãe lagartixa e de suas irmãzinhas. elas moravam numa bela casinha colorida, com janelas redondas, chaminé e com cerquinhas brancas. ao lado da casa delas tinha um lindo caminho florido que levava para uma frondosa floresta. todos os dias a lagartixa ia brincar no seu quintal sempre tão bonito!

um dia, a lagartixa cansada de ver sempre a mesma paisagem, perguntou à mamãe lagartixa o que havia depois do morro. a mamãe lagartixa assustou-se.

– nunca vá lá, minha filha. a vida lá é fria, vazia e solitária!

mas a lagartixa era um serzinho muito curioso. ao invés de acatar os conselhos de proteção da mãe, isso só atiçou ainda mais a sua curiosidade. no dia seguinte bem cedo ela se levantou antes de todo mundo e estava disposta a descobrir quais segredos estavam escondidos atrás da montanha.

ela caminhou, caminhou, caminhou e quando finalmente chegou ao fim, ela percebeu que sua mãe tinha toda razão. ela se viu diante de uma imensidão branca. parecia que o mundo tinha acabado. ela não via mais nada, só aquela imensidão solitária e triste.

ela continuou andando, ainda com algum receio. mas logo ela viu uma outra montanha e atrás dela frutas, flores e vasos sobre uma mesa. foi então que a lagartixa percebeu uma coisa importantíssima e talvez tenha sido a descoberta mais importante de toda a sua vida: ela não morava em um vilarejo. ela morava atrás de um quadro em uma parede!

ela ficou tão entusiasmada que correu pra sua casa, pegou sua mochila e se despediu de sua família:

– mamãe, estou me mudando para um museu. assim posso acordar cada dia em um quadro de um pintor diferente!

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Ao pé da letra

Era fim de tarde.

Vovó tinha feito pé de moleque.

De repente, veio um pé de vento

Que levantou até o pé da mesa!

– Acho que vai vir um pé d´água!

Melhor enfiar o pé na tábua

E tirar as roupas do varal,

Senão depois, só com pé de pato.

.

Era mentira isso que a vovó estava com pé na cova.

Ela cuidava de tudo na ponta dos dedos.

E ai de alguém se tentasse lhe passar o pé!

Não era qualquer pé rapado

Ou um pé de cana que ia fazer com que ela ficasse com o pé atrás.

.

Ela não era dessas que metia os pés pelas mãos.

Ainda era um pé de boi…

Fazia um bicho de pé que era uma delícia.

Não era mais assim um pé de valsa,

Mas ainda era o pé de apoio de muita gente.

.

Seus netinhos achavam que ela era um pé de coelho

De tão pé quente que ela era.

Só não podia enfiar o pé na jaca

E ficar em pé de guerra na casa dela

Que ela logo mandava todo mundo dar no pé.

Presentes para o dia das Crianças

Para o P.H.

Quando eu era pequena, li uma história de um herói e gosto dela até hoje. Encontrei o livro em uma biblioteca velha e abandonada. A história era muito legal e começava assim: “Era uma vez um herói muito especial…”. Eu gostava desse herói porque ele não era como os outros, por isso era especial. Ele não gostava de sair por aí matando dragões. Mas ele gostava de ler histórias de pessoas que saíam matando dragões. Ele também não gostava de conquistar outros vilarejos, mas gostava de escrever histórias sobre esses vilarejos.

Além disso, esse herói gostava de grandes desafios e de resolver todos os tipos de charadas. Era o herói mais esperto de todas as histórias! Ele gostava de inventar histórias que ninguém nunca tinha lido e de desenhar outras que ninguém tinha visto.

A história desse herói foi escrita num livro muito antigo e o nome dele só era revelado na última palavra da última linha do último parágrafo da última página do livro. Só que muitos anos se passaram. As folhas foram ficando velhas. Muitas páginas se perderam e outras ficaram rasgadas. E justo aquele pedaço da última folha do último parágrafo da última linha com a última palavra da história se perdeu. Até hoje ninguém sabe o nome daquele herói tão especial.

Eu li o livro muitas vezes e ficava tentando imaginar o nome daquele herói tão especial. Outro dia eu estava na biblioteca e deu uma ventania muito forte. Vários livros caíram da estante e muitas folhas ficaram voando pelo ar. Consegui pegar um pedaço que passou voando perto de mim. E tinha um nome escrito nele. Será que era esse o nome daquele grande herói?

Não sei se é o mesmo, acho que sim. De qualquer forma, tenho certeza que é o nome do meu grande herói.

***

Para o M.

Era uma vez um menino que queria aprender a voar. Tentou várias vezes, mas nunca conseguia e sempre caía de maduro no chão. Vivia todo esfolado e machucado! Chorava um pouco, mas logo ia tentar de novo. Um dia foi até um inventor que morava perto da sua casa e pediu para que ele o ajudasse a voar. Então, o inventor, que tinha uma voz bem grossa, perguntou:

– Mas por que você quer voar?

– Porque eu tenho pressa em brincar com quem está longe. O carro demora muito, a moto só cabe mais uma pessoa e a bike demora mais ainda!

– Mas só os pássaros sabem voar!

– E os aviões, os foguetes, os balões, a chuva e as nuvens também!

O inventor riu e disse que ia ajudar o menino voar. Mas em troca, ele ia ter que levar o brinquedo que ele mais gostasse para que o inventor pudesse fazer algo que voasse.

O menino correu para casa e foi procurar em seus brinquedos. Eram tantos que ele nem sabia por onde começar! Mexeu nos carrinhos, nos playmobils, nos legos e nada. Nenhum deles era o seu favorito. De repente, olhou lá no canto o seu jipe. Jipe de fazer trilha, de andar na terra, de correr e de passar na lama. Era esse, ele pensou!

Mas como já era tarde, resolveu voltar no dia seguinte na casa do inventor. Ficou tão feliz em ter descoberto qual era o seu brinquedo favorito, que dormiu abraçado com ele. De noite, ele sonhou que o seu jipe tinha ganhado asas e que ele poderia visitar todos os seus amigos distantes, brincar com seus primos, ir para praia e passear um montão.

Quando acordou, viu que seu jipe estava limpo e sem asas. No começo, ficou triste, mas depois pensou que o que ele mais gostava era de ver ele sujo de lama! Desistiu de ir até o inventor. Toda vez que tinha vontade de voar, era só fechar os olhos e imaginar seu jipe voador!

***

Para o J.V.

Bob era um cachorro muito esperto. Desde pequeno ele já sabia fazer todos os truques: sentava, dava a pata, deitava, rolava e se fingia de morto. Mas o que ele mais gostava mesmo era de ir buscar graveto. Era só jogar que ele ia correndo pegar e depois devolvia para quem tivesse jogado. Não importava onde o graveto caía. Ele sempre ia pegar todo contente.

Um dia, Bob estava passeando numa fazenda com árvores grandes e com lagos bem bonitos. De repente, Bob viu cair um galho de uma dessas árvores no lago. Logo pensou que alguém tinha jogado pra ele ir buscar e sem pensar, pulou na água. Porém, Bob tinha se esquecido que não sabia nadar! Apesar de ser um cachorro, nem nadar cachorrinho ele sabia porque nunca tinha entrado num lago antes. A sorte foi que quando o Bob estava quase se afogando, um menino passava por ali e viu que o cãozinho precisava de ajuda. Como ele era um ótimo nadador, pulou na água e conseguiu salvá-lo.

Bob ficou tão feliz que deu para o menino o graveto que havia pulado para pegar. E o cãozinho passou a segui-lo por onde quer que ele fosse. Se o menino ia pra escola, o Bob ficava esperando na porta da sala. Se o menino ia tomar banho, o Bob ficava deitado no tapete. Eles brincavam muito todos os dias e todos notavam a felicidade do menino e do cachorro!

Mas o menino estava preocupado, pois o Bob devia ter um dono e provavelmente tinha se perdido dele. Então, colocou cartazes em todos os postes da cidade e nada do dono aparecer. Enquanto isso, eles se divertiam até cansar e ficarem com a língua de fora!

O que o menino não sabia era que o Bob não quis ter um dono até conhecer aquele garoto com um coração tão bom e tão cheio de carinho! Por isso, o Bob nunca mais quis sair de perto dele e das brincadeiras que faziam juntos.

postes

pierre

Toda criança, em uma certa idade da vida, sonha em fugir com o circo. Aconteceu comigo, pode ter acontecido com você, mas nunca aconteceu com Pierre. Sua mãe dizia que ele vivia com a cabeça nas estrelas. Um dia, o circo partiu e ele, o futuro cuspidor de fogo, ficou. O gosto do inflamável em sua boca nunca satisfizera os seus próprios sonhos. Ficou porque em uma noite estrelada seguiu um gato e percebeu que não precisava mais voltar. Chovera levemente naquele dia. Sentou-se na calçada e os paralelepípedos brilhavam pelo reflexo dos lampiões acesos. Mas só metade deles. Vinha descendo a rua um velho senhor acendendo a outra metade, poste por poste, com a calma dos que não têm pressa em anoitecer. O velho tossiu. O gato assustou. Pierre se levantou. Ofereceu ajuda ao senhor em troca de uma sopa e um canto quente para dormir, a ele e ao gato. No dia seguinte, Pierre disse ao velho que assumiria seu lugar como acendedor de lampiões. Usou suas habilidades de cuspidor de fogo e encantou aquele velho e solitário homem. Todos os dias deixava o velho em casa ao cair da tarde e ia com o gato levar luz a toda a cidade. Pierre passou anos de sua vida nesse ofício. Sentia que era a única forma de sentir a luz das estrelas mais perto de si. Era como se ele próprio acendesse uma a uma. E em retribuição, elas o seguiam por toda a noite.

De nanquim

A folha da janela irrompeu-se e ventou vento por toda a biblioteca abandonada. O danado do vento tirou o pó dos livros e folheou os clássicos suspenses que sugam, fez viver as famosas paixões de três dias, fez voar em moinho os destemidos cavaleiros e quando esbarrou na colcha de retalhos, pensou em ficar a fiar. Mas com sina não se brinca e ele saiu de novo a rodopiar. De tanto encanto que saía daquele mundo, o vento se deliciou de tal maneira que se tornou tornado. E quase sem querer derrubou o vidro de nanquim que há anos estava abandonado naquele canto de biblioteca. Quando viu derramar-se o mundo de nanquim, o vento logo reconheceu o eco das contações daquele velho poeta. Depois de séculos cravando brisas de aventura e desamor na memória do papel, ele agora era só pote e vento. A tinta escorreu no papel seco e o vento desenhou com ele história de infância. A dança foi tanta que o nanquim passou pela borda da folha e escorreu história na velha escrivaninha de madeira. O vento soprou mais forte o nanquim e ele borrou um mundo novo de histórias não contadas. Despediu-se do vento e lá ficou como sempre fizera: como se aquela fosse a única forma de ficar.