ora poix

“Pelo quarto parecia-lhe estarem a se cruzar os eléctricos, a estremecerem-lhe a imagem reflectida. Estava a se pentear vagarosamente diante da penteadeira de três espelhos, os braços brancos e fortes arrepiavam-se à frescurazita da tar­de. Os olhos não se abandonavam, os espelhos vibravam ora escuros, ora luminosos. Cá fora, duma janela mais alta, caiu à rua uma cousa pesada e fofa. Se os miúdos e o mari­do estivessem à casa, já lhe viria à ideia que seria descuido deles. Os olhos não se despregavam da imagem, o pente tra­balhava meditativo, o roupão aberto deixava aparecerem nos espelhos os seios entrecortados de várias raparigas.” (Clarice Lispector, Devaneios e embriaguez de uma rapariga, em Laços de Família)

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run

“Stuck inside these four walls,
Sent inside forever,
Never seeing no one
Nice again like you,
Mama you, mama you.

If I ever get out of here,
Thought of giving it all away
To a registered charity.
All I need is a pint a day
If I ever get outta here
If we ever get outta of here

Well, the rain exploded with a mighty crash
As we fell into the sun,
And the first one said to the second one there
I hope you’re having fun.

Band on the run, band on the run.
And the jailer man and sailor Sam
Were searching every one
For the band on the run,
Band on the run

Well, the undertaker drew a heavy sigh
Seeing no one else had come,
And a bell was ringing in the village square
For the rabbits on the run.

Band on the run,
Band on the run.
And the jailer man and sailor Sam
Were searching every one
For the band on the run,
Band on the run

Yeah the band on the run,
Band on the run

Well, the night was falling as the desert world
Began to settle down.
In the town they’re searching for us everywhere
But we never will be found.

Band on the run.
And the county judge who held a grudge
Will search for evermore
For the band on the run,
Band on the run”

(Paul)

Galeano, querido Galeano

Eduardo Galeano, o poeta da história, o historiador dos homens simples e um dos únicos seres sentipensantes desse mundo. Obrigada por sempre me encher de poesia, sentimento e esperança. Sigamos todos a Galeanear.

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“Janela sobre o medo:

Uma manhã, nos deram de presente um coelhinho da Índia. Chegou em casa enjaulado. Ao meio dia, abri a porta da gaiola.

Cheguei em casa ao anoitecer e o encontrei tal como o havia deixado: gaiola adentro, colado aos arames, tremendo de susto de liberdade.

* * *

Ao fim e ao cabo, somos o que fazemos para mudar o que somos.”

meu sol

“Como cento e quarenta sóis o sol-pôr resplandece,
Julho bem entrado,
um calor
pesado
na dacha.
Curvava-se o cabeço de Púshkino
para o morro de Akúlov,
e no sopé da colina –
uma aldeia
torcendo-se em telhados de casca.
E atrás da aldeia –
um buraco,
e a esse buraco, certamente,
descia o sol todas as tardes,
lentamente.
E no dia seguinte
de novo
a inundar o mundo
erguia-se vermelho.
E dia após dia
terrivelmente a irritar-
-me
lá estava
ele.
E assim enfurecendo-me um dia,
de raiva fiquei pálido
e gritei:
‘Vai-te!
Chega de preguiçar no Inferno!’
E prossegui:
‘Parasita!
Entre as nuvens sem fazer nada
e eu aqui – há tanto tempo
sentado a desenhar cartazes!’
E ainda:
‘Espera!
Escuta, ó cabeça doirada,
porque não deixas essa vida,
e não vens até minha casa
tomar chá?’
O que eu fiz!
Estou tramado!
Para minha casa,
como um boi manso,
estendendo os raios-passos
andou o sol nos campos.
Não quero mostrar receio –
e retirar-me de costas.
Mas já estão no quintal os seus olhos.
Já anda no meu quintal.
Pela janela,
pela porta,
pelas gretas
escorre a massa do sol,
tudo invade;
e tomando alento,
começou a falar:
‘Afasto-me do fogo
pela primeira vez desde a criação.
Chamaste-me?
Então vamos ao chá,
ao chá, poeta, com geleia!’
Eu estava com lágrimas nos olhos –
meio louco de calor
mas apontei-lhe o samovar:
‘Então,
senta-te, astro!’
O diabo tirou da manga a minha audácia
de lhe gritar –
desconcertado,
sentei-me no meu canto,
temendo o pior!
Mas os estranhos raios do sol
Correram, –
e a minha tensão
esquecendo,
sentei-me, a conversar
com o astro calmamente.
Falei disto,
daquilo,
da horrível ROSTA,
mas o sol:
‘Muito bem,
não te zangues,
encara as coisas com simplicidade!
E eu, julgas
que brilhar
é fácil?
Experimenta!
A mim
disseram-me que fosse brilhar,
e eu brilho com toda a gana!’
Demos assim à língua até ao escurecer –
isto é, até à noite passada.
Que escuridão esta!
Em ‘ti’
há eu e tu, coragem.
E não tardámos
a ficar amigos.
Bato-lhe no ombro.
E o sol também:
‘Tu e eu
somos camaradas!
Vamos, poeta,
olhemos,
cantemos
neste mundo tão chato.
Eu ponho a minha luz solar,
e tu – a tua
em versos.’
As paredes de trevas,
as prisões da noite,
sobre a terra serão esmagadas pelos nossos dois ataques.
A desordem de versos e de luz –
brilha naquilo que atinge!
Cansa-se então,
e quer
dormir,
esquecer no sono.
De repente – eu
com toda a força brilho –
e de novo o dia nasce.
Brilhar sempre,
brilhar em toda a parte,
até ao dia em que a fonte da vida se esgote,
brilhar –
e é tudo!
É o nosso lema – meu
e do sol!”

(Maiakóvksi)