de onde sai a cor do amor

“quem sopra as asas

também é vento,

é imensidão.

gratidão por ser tão

enorme, tão linda!

por manter o coração,

seu e dos outros,

sempre arejado por

ventos de liberdade!

amor!”

.

(ganhei da filha, enquanto comia pétalas rosas com hashi, preparadas pela mãe.

um combo de explosão de amor.)

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de onde sai uma tulipa

e era uma manhã de um ano dois mil qualquer.

e me desenhou tulipas debaixo de uma mangueira.

e me embrenhei nos lençóis e ainda era dia.

e ouvi caetano vendo seu lápis na mão.

e soube das histórias da musa da belas artes.

e vi seu traçado firme delinear meu corpo.

e eu era uma garota sem entender o movimento.

e meu olhar era plasticamente assustado.

e arte do acaso me fez curiosa com aquele naco de vida.

e minha loucura, ainda comedida, disse chega.

e seu perfume ainda me encontra pela eventual calçada.

e a lembrança emoldura as flores e os ardores.

.

as tulipas ainda são aquarelas diluídas pela memória do  e se.

de onde sai um facho de luz

que dizer sobre os olhos que fitavam,

luminescentes na embriaguez da noite?

focos de desejo translúcido e indubitável.

me enfiaram dentro de uma câmara fotográfica.

inverteram minha imagem e jogaram meus pés na cabeça.

abriram o diafragma e eu gritei:

eu quero que se revele o borrão que há em mim.

e pelo toque das mãos, a condução leve, solta e livre

me (e)levou ao alto pra que de mais perto eu pudesse ver a lua.

e seu reflexo nos corpos me pareceu contumaz e libertino.

meu embeveceu a ponto de um ponto de lágrima beirar o abismo dos olhos.

me fez querer corar, correr, clamar.

me deu sede de algo imbebível.

me deu fome de um sentimento crepitante.

e o oriente-ocidente dos olhos separados por um rio,

se uniram no escuro de um dia amanhecido.

.

o que dizer sobre os sons que urgiam em chamar, acordar e levantar o dia?

[ônibus, buzina, telefone, passarinho, carro, freada, gato, cachorro, porta]

nada fazia sentido, nada fazia tirar o transe.

tudo conclamava em vão(s).

preenchidos pelo limite febril existente entre um poro e outro.

certeiro, errante, arrepiante, eterna busca

cujo encontro se dá na aurora de um dia que já quase cai.

um ciclo de dia na noite.

um ciclo de lua no corpo.

.

são covinhas desenhando a boca de luz-luar.

é um veludo que rouba da pele a maciez sem par.

são acácias que emolduram a porta de uma famigerada despedida.

é um sono que insiste em não bater.

são seus e tão eus que consternam a alteridade.

é um gosto de espera que aflige e modera.

.

um socorro mudo que emoldura o semblante, enraíza a mente e percorre o corpo.

De onde sai uma aula de história

Era uma vez, um casal que morava num pequeno sítio no interior da Itália. Eles plantavam tudo o que precisavam para viver em suas terras. Um dia, eles ficaram sabendo que estava tendo uma guerra e que muita gente estava morrendo. O marido disse para a esposa que achava melhor que eles fossem embora dali. Mas pra onde?, ela disse. E então ele contou sobre um país, do outro lado do oceano que era lindo, tinha trabalho para todos e era uma terra de paz e prosperidade. Como ela estava grávida, eles resolveram ir o quanto antes.
A viagem de navio era longa rumo à América e no meio do caminho, nasceu sua filha. Ao chegarem ao Brasil, se instalaram numa pequena cidadezinha onde se plantava muito café.
Os anos se passaram, a menina cresceu e começou a ajudar na venda de secos e molhados. Lá vendia-se de tudo: farinha, arroz, pinga, panos… Algum tempo depois, ela conheceu um homem e acabou se apaixonando por ele. Se casaram e tiveram 6 filhos: 2 homens e 4 mulheres. Quando o mais novo desses filhos tinha 5 anos, seu pai morreu e ele ficou com a mãe e com as tias.
Ele começou a trabalhar muito cedo numa empresa que vendia sementes na sua cidade. Quando era jovem, conheceu uma moça muito bonita. Ela tinha ido estudar fora e agora tinha voltado e era professora na cidade. Um dia, seu cunhado foi para os Estados Unidos e ele pediu para que ele comprasse uma calça jeans e uma jaqueta jeans para ela. Ela adorou os presentes e os dois começaram a namorar, apesar da mãe dela não gostar muito da ideia.
Alguns anos depois, no dia 17 de dezembro, eles se casaram na Igreja Matriz. Logo nasceu o primeiro filho do casal e a avó dele, aquela que havia nascido no navio vindo pra cá, disse que poderia morrer feliz pois já tinha alguém para levar o nome da família adiante. Um mês depois, ela faleceu. Dois anos depois, nasceu o outro filho do casal, esse sim, mais agitado e brincalhão que o outro.
Foi então que o pai dos meninos recebeu um convite da empresa que ele trabalhava: que ele e a família morassem na fazenda onde ficava a empresa. Não era muito longe da cidade, ficaria mais fácil para que ele trabalhasse e os filhos poderiam aproveitar também.
E assim se passaram muitos anos na vida daquela família. Até que um belo dia, a mãe foi ao médico. Sentia dores. Achou que poderia ser alguma coisa grave, mas não. Estava grávida. E foi então que nasceu a primeira filha do casal, uma menina! No começo, os meninos não gostaram muito da ideia, mas acabaram se acostumando.
Ela cresceu até os 15 anos na fazenda. Depois, a empresa foi vendida para uma outra de fora e eles voltaram a morar na cidade. A menina ganhou uma bolsa de estudos em uma escola particular, passou no vestibular e foi morar em outra cidade. Estudou, conheceu pessoas muito especiais, começou a dar aulas e se formou.
Mudou-se para uma cidade maior para fazer seu mestrado e conseguiu um emprego como professora de História…

De onde sai o Riobaldo

“Tive medo. Sabe? Tudo foi isso: tive medo! Enxerguei os confins do rio, do outro lado. Longe, longe, com que prazo se ir até lá? Medo e vergonha. A aguagem bruta, traiçoeira – o rio é cheio de baques, modos moles, de esfrio, e uns sussurros de desamparo. […]   Não pensei em nada. Eu tinha o medo imediato. […] ‘Carece de ter coragem…’ – ele me disse. Visse que vinham minhas lágrimas? Dói de responder: – ‘Eu não sei nadar…’ O menino sorriu bonito. Afiançou: – ‘Eu também não sei.’ Sereno, sereno. Eu vi o rio. Via os olhos dele, produziam uma luz. – ‘Que é que a gente sente, quando tem medo?’ – ele indagou, mas não estava remoqueando; não pude ter raiva. […] O chapéu-de-couro que ele tinha era quase novo. Os olhos, eu sabia e hoje ainda mais sei, pegavam um esquecimento duro. Mesmo com a pouca idade que era a minha, percebi que, de me ver tremido todo assim, o menino tirava aumento para sua coragem. Mas eu aguentei o aque do olhar dele. Aqueles olhos então foram ficando bons, retomando o brilho. E o menino pôs a mão na minha. Encostava e ficava fazendo parte melhor da minha pele, no profundo, desse a minhas carnes alguma coisa. Era uma mão branca, com os dedos dela delicados. ‘Você também é animoso…’ – me disse. Amanheci minha aurora.”

(Grande sertão: veredas)

De onde sai a nova trova

Mote: Jóia que se perde no mar

Só se encontra no fundo.

.

Uma nascente tão bela e singela

porém solitária.

Quem poderia imaginar

Que tal vida desenbocaria num rio de águas turvas.

.

Um rio sem remanso, com pedras e corredeiras.

Mirar o horizonte e só seguir adiante.

Quando se tem as margens ao alcance

A descida é dura e lancinante.

.

Porém, agarra-se nelas

ao menor sinal vacilante.

Quisera eu que a vida fosse rio.

Bravo e arredio.

.

Vida que é vida se faz no mar.

É lá que se encontram todas as gotas

todos os suores, todas as lágrimas.

.

É lá que se aprende nadar

sem que a correnteza leve.

É na imensidão azul

que se sedimentam as dores,

dissabores de hoje e outrora.

.

Sem rimas, sem métricas.

Sem snorkel.