lila matos – o retorno?

estava em casa tomando meu café preto sem açúcar e uma torrada com geleia de amora, quando ouvi a campainha tocar. pensei que podia ser o guarda da rua cobrando o pagamento mensal. abri a porta e era ela. sorri surpresa ao me deparar com sua cara blasé. lila matos, a que devo a honra? ela sorriu marota e perguntou se eu não a chamaria pra entrar. reza a lenda que é de bom grado avisar antes de ir na casa das pessoas, falei zombateira. ela disse que sabia que eu não a deixaria pra fora. confesso que estávamos brincando mas no fundo eu estava profundamente aborrecida com lila. e ela sabia disso. acendeu um cigarro na copa e me pareceu mais jovial. como era de costume, lila matos não perdeu tempo: vim aqui porque preciso de você. e qual outro motivo haveria de ser, pensei. preciso que você seja minha editora. gargalhei meio porque queria mandar ela se fuder meio porque ela estava me pedindo um favor. nem pensar, respondi. percebi a chateação no seu olhar, mas ela não cai fácil do salto. disse que queria voltar pro mercado.lila, não é porque você quer que todos vão querer, inclusive eu. mas as pessoas gostam do meu trabalho. claro que gostam , pensei, você dá a elas o que elas não tem nem nunca terão. você me deixou na mão quando eu mais precisava, desabafei. ela apagou o cigarro no cinzeiro lentamente e consentiu, eu sei. achei que era desnecessário dizer que ela era egoísta, egocêntrica e mimada. estava me corroendo de ódio por ela quando ela segurou na minha mão, olhou nos meus olhos e disse de forma dura, amargurada e quase desesperada: eu preciso escrever.

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Lila M.

E foi assim, simples assim, que numa manhã de brisa fresca, dentro de uma blusa de uma manga só, entre um cigarro e um chiclete – ambos de menta – que nasceu nossa escritora de contos eróticos.

Simples como uma folha que balança quando é tocada pelo vento.

Simples como uma metáfora simples.

Simples como tudo o que faz sentido.

Filha de um heterônimo do Pessoa com a Anais Nin.

Sobrinha distante de Lispector, adora advérbios de modo.

Afilhada do Saramago, não gosta de travessões.

Nascida entre o último decanato de Escorpião e o sol de Sagitário, gosta de curvas.

E as curvas só se encontram harmoniosamente nas mulheres.

Gosta de sardas, ombros e carinhos intencionais na parte interna da coxa.

Gosta de ver o mundo com desejo e de sentir a realidade como fantasia.